O fator humano, do ultrassom à genômica

O fator humano, do ultrassom à genômica

À plateia do 'Estadão Summit Saúde 2019', cientista lembrou do tempo em que os médicos rejeitavam a ultrassonografia, mas recomendou cuidado com 'inovação a qualquer preço'

Entrevista com

Fábio Latuf Gandour, keynote speaker do Summit Saúde Brasil 2019

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 05h00

Inovação em saúde nem sempre custa caro. Também não deve ter como meta prolongar a vida a qualquer preço. Essas ideias têm sido o “corolário” do médico e cientista Fábio Latuf Gandour, keynote speaker do Summit Saúde Brasil 2019. Em entrevista ao Estado após a fala que abriu o evento, “pensada para provocar a plateia”, Gandour refletiu sobre os dilemas médicos da atualidade: como profissionais da saúde e da ciência, que estão à frente da inovação, precisam ter em mente que o foco da inovação tecnológica deve ser a qualidade de vida do paciente. Gandour, PhD em Ciências da Computação, atingiu o posto de cientista-chefe do laboratório da IBM Research Division no Brasil, empresa na qual trabalhou por quase 30 anos.

Já houve algo tão revolucionário em saúde quanto o que vivemos hoje em dia?

A gente já teve atitudes inovadoras que produziram grandes impactos, sem proporcionar grande aumento de custo. Um exemplo legal é o ultrassom. É uma inovação fantástica porque, antes, a produção de imagens investigativas da condição interna do ser humano passava pelo raio X. Pense num indivíduo que lá atrás teve câncer de pulmão: ele foi tão radiografado que, por vezes, nem morre de câncer, mas de fibrose pulmonar. A inovação é absolutamente necessária, desde que tenha fundamentos técnicos e científicos sólidos, e que esteja nas mãos de pessoas que vão persistir em sua implementação e disseminação.

O senhor se preocupa com algo que saia do controle?

Não tenho preocupação com inovação na saúde. A preocupação que tenho é com o aumento da sobrevida. Minha preocupação é num nível quase filosófico. Quanto mais gente viva houver no planeta, mais a gente vai explorar suas potencialidades sustentáveis. Quando a gente fala de aumento de população, não é só mais gente. É mais gente comendo, mais gente usando metrô, mais gente consumindo água. É esse tipo de circunstância que me preocupa, por conta da eficácia da medicina moderna.

É de certa forma uma ironia da qual a gente não consegue fugir?

Sim, é uma ironia. Por isso que Stephen Hawking (físico teórico e escritor, que morreu em 2018)  falou que devemos usar o resto da energia e de vida que nos resta para explorar um novo planeta, porque a Terra não vai resistir mais, principalmente se a longevidade da população aumentar muito.

Como o senhor vê o conceito de “driblar” a morte, possibilitado pelas inovações?

Encaro o tema do mesmo jeito que estou encarando o envelhecimento da minha mãe e da minha tia. Minha mãe tem um patrimônio genético de um ramo da família no qual o povo não morre, só se for atropelado. Eles passam dos 100 anos fácil. Ela está magrinha, ativa, surda, muito esquecida e mora no interior. Ela está com 94 anos. Minha tia, de 86, que tem demência senil há muito tempo, foi fumante. O tabagismo entupiu suas artérias, ela é cadeirante e não consegue colocar os pés no chão. O que eu poderia fazer? Trazê-la a São Paulo, submetê-la a milhões de exames, intervenções, stents… O que eu e meu irmão fizemos, então? Primeiro, ela vai continuar lá no interiorzão. Transformamos a casa onde ela sempre morou numa clínica de repouso. Alargamos porta para passar a cadeira, colocamos corrimão em banheiro. Isso não é caro, mas tem de ser feito. O que é caro são os cuidados, as pessoas. Lá temos uma infraestrutura com cuidadora 24 horas por dia, no fim de semana tem folguista, durante o dia tem a pessoa que cozinha e limpa a casa... O que mais a gente pode fazer? É aquilo, sem sofrimento. A melhor coisa que a gente fez foi não tirá-la do ecossistema dela. Esse é o tipo da recomendação que faço às pessoas, para que não tentem buscar sobrevivência a todo custo. O pior é que quem faz isso não é quem vai morrer, mas quem fica. Por isso surgiu aquela nova enfermidade, que é morrer com saúde.

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'Inovação na área da saúde acontece em movimento pendular. Vai e volta entre o polo da aceitação e o polo da rejeição. Mas, depois, de aceita, cresce de maneira exponencial.'
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Fábio Latuf Gandour

É um sofrimento a mais para quem está vulnerável?

Pois é, alivia a culpa de quem fica, tudo bem, mas para quê?

O senhor acompanha as discussões sobre tornar a morte mais confortável?

Vejo, mas não do lado de cá do mundo. Medicina paliativa está crescendo demais e agora vai ser um treco de doido. Mas o local que tem uma medicina paliativa extremamente desenvolvida é a Mongólia. O mongol, quando vai morrer, volta às origens, volta para dentro da tenda no pé da montanha. E outra coisa, medicina paliativa não é só supressão da dor, não é só dar morfina. Tem de ter o também aquele componente do acolhimento.

Que mensagem tentou passar na abertura do evento?

Fico plantando minhoca na cabeça dos outros. Muita gente na plateia é gestor. Tenho certeza de que, quando me ouvem falando, eles pensam: na minha empresa a gente faz exatamente o contrário. Então eu queria muito encontrar um jeito de trazer uma contribuição – não de caráter humanitário, a gente não está aqui para fazer caridade –, mas eu queria encontrar um jeito de os gestores incorporarem essas recomendações. Porque – e digo isso com um pouco de falta de modéstia da minha parte – elas (as recomendações) têm um forte fundamento técnico e científico. Nada do que falei lá na abertura é achismo. Esse corpinho envelhecido propõe fortemente que os gestores usem conhecimento. É um mundo muito fechado, o do MBA de administração. Senão, o que pode acontecer é tudo, menos inovação.

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