Felipe Oliveira / EC Bahia
Felipe Oliveira / EC Bahia
Imagem Sergio Cimerman
Colunista
Sergio Cimerman
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O futebol já deveria ter voltado no Brasil?

Jogadores têm de seguir protocolos rígidos de segurança pensando sempre no bem-estar de todos os envolvidos em uma partida

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2020 | 12h00

Estamos vivendo no Brasil um novo normal em várias atividades profissionais. Todos precisaram de alguma maneira se reinventar para superar adversidades, inclusive o grande desemprego que aconteceu nestes cinco meses de pandemia. Em nosso esporte nacional, o futebol, não poderia ser diferente. Triste ver uma final de campeonato sem torcedores: como um artista se apresentar sem público. Qual ânimo tem para se superar? Difícil. Mas o profissionalismo deve imperar sempre. E com nossos jogadores não será diferente. Terão de seguir protocolos rígidos de segurança pensando sempre no bem-estar de cada atleta e de todos os envolvidos em uma partida de futebol.

O distanciamento social é um dos pilares da prevenção da covid-19 e, assim, não ter presença de pessoas nas dependências do estádio faz com que se diminua sensivelmente o risco de transmissão. Devido a este item, as concentrações dos jogadores têm de ser mais protocolares, com menor índice de brincadeiras entre os atletas pensando assim na partida em que estarão envolvidos.

Eles devem realizar seus treinamentos programados, se possível, com maior distanciamento possível. Comento isto porque em uma partida inúmeros fatores acabam por não gerar este distanciamento, sobretudo, na comemoração do objetivo primordial, o gol. Somos sabedores que no calor da partida os cumprimentos acabam por ocorrer apesar de se solicitar que não sejam feitos.  

Atentem que já em duas oportunidades tivemos problemas em jogos: um na esfera regional, no Campeonato Paulista, e outro já no início do Campeonato Brasileiro, logo na primeira rodada. Exames para covid-19 positivos em inúmeros atletas do Goiás impedindo ter um número de relacionados ao jogo compatível com as regras. Isto pode ter explicação científica? Provavelmente, sim. Como os atletas ficam confinados junto por muito tempo, acabam por se infectarem no mesmo ambiente.

Assim, um atleta apresentando a doença pode ser o estopim para disseminar o vírus naquela população. Pelo menos há a racionalidade de realizarem o exame correto para diagnóstico, que é o RT-PCR para covid-19 (teste do cotonete já amplamente denominado assim pela população leiga) até 72 horas antes do início da partida.

Mas erros podem existir, como coleta inadequada, contaminação do material para amplificação genética, mas tenho certeza que apesar destes equívocos nossos laboratórios são providos de excelente capacitação e isso será dirimido com toda certeza.  Críticas devem ser incorporadas nesta realidade do futebol e nossos dirigentes devem usar o bom senso como a suspensão de partidas zelando pelos atletas e todos os envolvidos em uma partida: comissão técnica, árbitros, jornalistas, cinegrafistas, etc. Apesar de perdas econômicas reais, preservar vidas é o mais importante neste momento.

O protocolo desenvolvido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) disponibilizado em sua página na internet faz uma bela descrição dos procedimentos a serem adotados e com a revisão de profissionais médicos altamente renomados na área da Infectologia nacional. Se conseguirmos seguir boa parte das orientações, e se elas forem respeitadas pelos atletas, iremos dirimir sensivelmente o número de casos entre os atletas de futebol e envolvidos diretamente.

Há quem questione o uso de máscaras por parte dos jogadores. Com ela, entretanto, seria impossível realizar a atividade de modo satisfatório. Analisando esta questão a máscara iria ficar molhada rapidamente tendo o atleta que trocar a cada momento. Assim ficaria impraticável o esporte. Talvez o árbitro da partida e seus assistentes deveriam usar? Controverso para uns e não para outros. Eu, particularmente, advogo da ideia que também seria inviável. O árbitro também corre pelo campo, tendo atividade idêntica ao atleta. Talvez os assistentes poderiam usar por se limitarem a uma faixa do campo, mais restrita. Perguntas e respostas difíceis ainda. Ninguém está totalmente certo e ninguém totalmente errado.

Temos de também pensar no retorno do público. Quando será? Creio que a regionalização deva dar a tônica nesta volta. O que temos bem claro: só com protocolos atualizados de conduta com anuência dos clubes e algumas reformas em muitos estádios, sobretudo, os antigos. Creio que talvez os utilizados para a Copa do Mundo necessitem de poucas modificações. Infraestrutura em sanitários provendo pias adequadas, abastecimento de papel toalha com assistência de funcionários, limite de entrada, dentre outros fatores.

A questão de venda de alimentos também será repensada, via aplicativo, por exemplo, com entrega no assento estabelecido. São tantas possibilidades que deveria ser criado um projeto em cada estádio para otimizar esta nova estrutura física. Em conseguindo galgar estas prerrogativas até pensar mais longe com a captação de shows (espetáculos musicais) aumentando a receita dos clubes. Em um primeiro momento se onera o sistema, porém, o retorno acaba vindo de modo rápido mostrando condições para o público e para a saúde pública.

Teremos de ter a colaboração dos nossos dirigentes e da população em manter a educação e respeito ao próximo. Espero voltar em breve a assistir de modo presencial as partidas de futebol, vibrar com meu clube de coração e viver este novo normal.  

*Coordenador Científico da Sociedade Brasileira de Infectologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.