'O futuro é mais excitante', diz Albert Fert, Nobel de Física

O francês é um dos criadores da tecnologia que viabiliza os aparelhos eletrônicos portáteis atuais

Entrevista com

Andrei Netto, do Estadão,

10 de outubro de 2007 | 00h56

Um silêncio reverente toma a sala em que um Prêmio Nobel de Física concede uma entrevista coletiva. A sensação de um jornalista é de que toda pergunta que possa ter elaborado será vista como frugal por um gênio. Na sede do Conselho Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), de Paris, coube ao francês Albert Fert, 69 anos, estimular perguntas, fazer brincadeiras, quebrar o gelo e lembrar a todos que a Ciência é feita por pessoas comuns e, mais importante, para pessoas comuns.  Veja também:Tecnologia de disco rígido de computador leva o Nobel Especial Prêmio Nobel Brasileiro descobriu o fenômeno Pesquisador da Universidade Paris-Sud (Paris XI) e diretor científico da Unidade de Física do CNRS, Fert, junto com o alemão Peter Grünberg, do Centro de Estudos de Jülich, na Alemanha, foi contemplado pela Fundação Nobel com a mais respeitada distinção científica do mundo. A informação chegou da Suécia via telefone celular - um aparelho que só existe tal como o conhecemos graças à invenção da magnetorresistência gigante (GMR), fruto das pesquisas realizadas por ambos na década de 80.  A descoberta permitiu a ampliação do espaço de armazenamento em discos rígidos de computadores e a redução de seu tamanho. A conseqüência do estudo, desenvolvido em paralelo por Fert e Grünberg, sem colaboração mútua, abriu caminho para a popularização de discos rígidos portáteis, celulares, iPods e gravadores digitais, como o que registrou a entrevista abaixo, concedida ao Estado na tarde desta terça-feira. O senhor recebeu hoje um Prêmio Nobel. Como um cientista recebe a notícia dessa distinção? Eu esperava a divulgação do resultado, mas pensava ter uma chance em cinco ou dez de receber a premiação. O telefonema caiu sobre mim. Quando senti o telefone vibrar no meu bolso, deixei a sala de reunião para atender. Percebi que se tratava de uma ligação da Fundação Nobel. Faltavam 15 minutos para a divulgação oficial, então senti que poderia ser algo no sentido da premiação. Mas aguardei para ouvir a informação, até porque não era muito fácil entender o sotaque sueco. Quando fui informado, me senti recompensado. Quando comecei a pesquisar, não tinha tanta confiança em mim. Sempre pensamos que tudo está feito, e de repente vemos que há muito a ser feito. É fantástico. Como o senhor descreveria a um público leigo sua invenção? Trata-se de um fenômeno resultante da superposição de camadas atômicas de dois materiais, um magnético e outro não - cobalto e cobre, por exemplo. Essas multicamadas apresentam a propriedade de, ao entrarem em contato com um campo magnético, permitir a passagem de correntes de uma forma muito mais fácil. Logo, podemos utilizá-las para detectar o campo magnético em um disco rígido. Com essa "cabeça de leitura", como chamamos, de grande sensibilidade, detectamos campos magnéticos muito menores e inscrições também muito menores. Assim, podemos armazenar mais informação em um disco. Sua capacidade foi multiplicada em centenas de vezes.  E quais são suas aplicações práticas? A tecnologia permite armazenar informações em discos rígidos de um tamanho muito pequeno, comparáveis ao de uma moeda. Essa característica permite ampliar os usos do disco rígido e aplicá-lo à eletrônica portátil, como os walkmans, as câmeras fotográficas, os telefones celulares. Logo, a magnetorresistência gigante representou uma extensão do computador, ou de sua tecnologia, à informática de grande alcance de público. O senhor imaginava que sua invenção poderia ter o uso que tem? As amplitudes de uso dessa pesquisa reforçam minha confiança na Ciência. Há uma imensa liberdade para os pesquisadores. Quando vejo alguém usando um aparelho na rua que foi desenvolvido graças a essa invenção, acho divertido. Há alguns anos, algo como esse aparelho era apenas uma cogitação de espírito, uma teoria que poderia se concretizar. Mas é passado. O futuro é mais excitante. E qual é o futuro, qual sua próxima etapa? Dentro de alguns minutos vou a uma rádio aqui em Paris... (risos) Cientificamente falando, imagino que estarei muito ocupado nas próximas semanas, até o mês de novembro. A seguir, espero retomar minhas linhas de pesquisa e os diálogos com meus colaboradores. Há novas direções de pesquisas que me parecem promissoras. Há novos fenômenos e novos efeitos, mas vamos ver depois as suas aplicações. Não podemos dizer, no domínio da Física, que existe uma linha reta que leva de uma pesquisa a um resultado. Na Ciência, é preciso evitar as falsas pistas. Essas novas direções envolvem a nanotecnologia? A nanotecnologia, na realidade, é uma ferramenta. Com ela, podemos recompor moléculas e camadas metálicas, por exemplo, para obter efeitos específicos. Podemos imaginar alguns resultados possíveis na fabricação de materiais, de estruturas artificiais. Ela nos dá poder à imaginação, mas ainda com limites. Ainda não podemos ir além do tamanho nanométrico, o que é um limite físico.  Na linha de sua pesquisa premiada, o que podemos esperar da Física para breve? A tecnologia dos computadores ainda vai se valer de outros progressos, como um novo tipo de RAM magnético. O MRAM vai criar um grande impacto sobre a tecnologia dos computadores. Não correremos mais o perigo de perder informações de maneira tão freqüente. Além disso, nas comunicações há uma série de progressos que podemos fazer. Eles tornarão a vida mais fácil nos próximos anos. A pesquisa científica não vai parar porque é importante para a economia. Na França, temos deficiências quando comparados a países como a Alemanha. Temos grandes e tradicionais indústrias, mas ainda vivemos um certo retardo em relação às indústrias de alta tecnologia. Logo, há espaço para os jovens pesquisadores, não apenas na França, mas em outros países. Pesquisadores brasileiros trabalharam em seu laboratório na época da descoberta da GMR. Houve alguma contribuição importante da pesquisa científica brasileira em sua descoberta? Um dos pesquisadores brasileiros que estiveram em nosso laboratório contribuindo com o desenvolvimento da pesquisa, Dante Mosca (Dante Homero Mosca Júnior, hoje professor da Universidade Federal do Paraná), assinou um dos artigos mais citados pela comunidade científica. Tivemos vários bons pesquisadores brasileiros no nosso laboratório. Sei que Dante Mosca ainda tem ótimas idéias, mas sei também que ele precisará de muita sorte. Curitiba não é um grande centro para desenvolvimento da pesquisa.  Por quê? A pesquisa na área da Física vem se tornando cada vez mais cara em todo o mundo. O que é difícil para países ricos é ainda mais para os outros países. Mas o Brasil é uma nação que caminha no bom sentido. Claro que a competição com os Estados Unidos ou o Japão é muito difícil, porque como disse o desenvolvimento da Ciência está mais e mais caro. Nós, na França, temos dificuldades de competir com os japoneses, por exemplo. O investimento que eles fazem é muito elevado. Houve outros pesquisadores brasileiros nessa época, não?  Sim, Mário Baibich, por exemplo, era pós-doutorando de meu laboratório à época da descoberta da GMR. Ele é também um dos signatários do artigo de que falo. Há outros, claro. A verdade é que esses pesquisadores brasileiros participaram do começo das pesquisas que resultaram no GMR. Paulo Pureur Neto (doutor pela Universidade Paris-Sud em 1984) é outro exemplo. Houve vários cientistas brasileiros que passaram um ano ou dois na França, estudando essa tecnologia conosco.

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