Leda Bentes
Leda Bentes

O glaucoma congênito não impediu Sara Bentes de se jogar no mundo da arte

Há 12 anos convivendo com a cegueira total, ela não deixa de cantar, compor, atuar e escrever. 'Sempre soube que a arte seria minha salvação', diz

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2022 | 05h00

Durante 24 anos de sua vida, a artista Sara Bentes conviveu com 5% da visão. O suficiente para se encantar pelas formas e cores do mundo. “Andava sozinha sem bengala, desenhava, fotografava, filmava. Eu era bastante visual até”, conta. Porém, durante uma das costumeiras visitas ao oftalmologista, uma cirurgia a deixou completamente cega. “Foi bem traumático”, lembra. 

Apesar de sofrer com a situação e ter de reaprender a fazer coisas corriqueiras, Sara decidiu aproveitar a vida ao máximo. “Acho que, por trás da autonomia e da independência, existe a vontade de cada um. Senão o que vai te motivar a superar tanta dificuldade?”, indaga ela, que hoje é autora de cinco livros, cantora, atriz e compositora. “Sempre soube que a arte seria minha salvação”, celebra.

A oração do ariano é: ‘Meu Deus, dai-me paciência, mas só se for agora”, brinca Sara, durante conversa por telefone com o Estadão. A ansiedade da cantora, compositora, atriz e escritora carioca também pode ser comprovada na sua vontade de viver. 

Diagnosticada com glaucoma congênito logo ao nascer, Sara era considerada como cega irreversível pela medicina, mas dona Elenita, sua mãe, não aceitou o decreto tão facilmente. “Ela foi procurar outros médicos, e eu comecei a fazer uma série de cirurgias. Elas começaram quando eu tinha 15 dias e até os 3 anos já tinham sido nove. Foram 17 ao longo da vida.”

O resultado foi a recuperação de 5% da visão em cada olho ainda na infância – algo que os médicos nunca souberam explicar. “Eu aprendi a usar o máximo daqueles 5%, então funcionalmente era muito mais do que isso. Realmente, fui muito estimulada, minha mãe foi buscar muita informação a respeito da deficiência porque eu era a primeira e única da família assim e, enfim, ela foi muito bem orientada”, conta. 

As aulas de estimulação precoce e a ajuda da mãe e dos colegas nas adaptações nas classes, fizeram com que o período escolar fosse possível – nem por isso menos desafiador. “Eu conseguia ler com o recurso de visão ampliada. Mas foi um período bem caótico da minha vida. Até pouco tempo atrás, eu tinha pesadelos com a escola porque era muito bullying, tinha exclusão e, mesmo com toda essa batalha, eu era boa aluna”, afirma.

A adolescência chegou e com ela mais consciência pessoal. Aos 13 anos, junto com a descoberta do amor ao canto, Sara entrou na terapia na qual, segundo ela, começou o processo de amor-próprio. Quatro anos mais tarde ela teve seu primeiro namorado, passou a se cuidar ainda mais e a se sentir mais bonita. Nessa época foi posta a prótese do olho direito. “O glaucoma estava muito descontrolado e a crise vinha com muita dor, uma pressão muito alta, então escolhi colocar a prótese e nunca mais tive dor. O pós-cirúrgico é mais complicado porque é uma amputação, mas fez muito bem para minha autoestima.” 

A consciência corporal, muito descoberta por meio da arte com aulas de canto, performance, dança e até circo, também ajudaram no processo. “O circo foi algo bem importante nessa trajetória em relação à autonomia, pois ele nos põe em contato primeiro com o nosso medo. No circo, o medo e a beleza andam juntos. Medo da altura, medo de cair, medo de se machucar”, reflete ela, que teve muita afinidade com a Lira (argola de metal que fica pendurada no teto) e já chegou a ficar a 12 metros do piso com o aparelho.

REVIRAVOLTA

A vida com os 5% da visão corria bem, até que durante um agulhamento (pequeno procedimento cirúrgico para glaucoma), ela acabou ficando completamente cega. “Eu me revoltei muito, mas depois entendi que, de alguma forma, tive de passar por esse processo. Não como forma de punição, mas como oportunidade de aprender muitas outras coisas, de crescer de diversas formas que talvez, com a visão, eu não teria”, revela ela. 

Sara precisou contratar uma terapeuta ocupacional para reaprender a fazer tarefas que ela já sabia fazer. “Quando tudo apagou, foi todo um recomeço. Tive de fazer reabilitação para reaprender a fazer coisas de uma forma diferente, porque não tinha nenhum estímulo, então precisava jogar para os outros sentidos”, recorda.

O processo também a ajudou a enfrentar o luto da perda, especialmente com a positividade e brincadeiras lúdicas da terapeuta. “Foi um momento de aceitação, de adaptação, e a positividade dela foi muito importante para isso”, diz, completando com o apoio dos amigos e familiares. 

A descoberta de sua beleza e autocuidado por meio dos outros sentidos também foi de extrema importância. “Eu adoro me maquiar. Foi uma aluninha minha de canto que me ensinou e minha cunhada também. Já fiz muita besteira, mas fui persistente e hoje me sinto muito mais segura. Gosto de me arrumar. Colocar um brinco, fazer uma hidratação no cabelo, botar uma roupa com tecido gostoso. Para mim, textura é muito importante”, garante. 

A veia artística, sempre presente, também fez parte do processo de mudança. Até hoje são cinco livros publicados, três álbuns de música e várias apresentações teatrais. “Arte é cura, né? A arte me ajudou demais nessa perda de visão. Foi quando eu ressignifiquei aquele momento, especialmente escrevendo meu primeiro romance, E Não Se Esqueçam de Regar os Girassóis”, lembra.

O medo e a dor foram substituídos pela vontade de viver a vida ao máximo. Sara passou a morar sozinha, cozinhar cada vez melhor e conhecer o mundo. Até hoje foram 15 países vivenciados pelos cheiros, pelos barulhos e pelas descrições de paisagens pelos moradores. “Tive oportunidade de aprender sobre humildade. Humildade de perceber o outro, enxergar o outro, independentemente da aparência, da idade, quando alguém vem me ajudar na rua, eu não sei quem é essa pessoa. É uma confiança, uma fé muito grande no ser humano”, avalia. Depois de 12 anos convivendo com a cegueira total, ela é categórica ao expressar sua felicidade, seus diversos planos e a total aceitação de si mesma.

“É um conceito antigo que as pessoas têm de que a deficiência é uma coisa terrível, uma coisa trágica, que você tem de viver se lamentando”, enfatiza Sara. “Eu quero meu direito de sorrir, mas também de ficar triste, de ser humana, de ser como qualquer outra pessoa. Mas a minha natureza é a de ser alegre, sim. E, sempre que eu puder, se a TPM não for mais forte, vou estar sorrindo”, acrescenta.

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