Samara Souza
Samara Souza

'O grafismo dá a oportunidade para que o outro conheça sua cultura', diz Thaís Kokama

Moradora da aldeia Iambé, a artista usa os grafismos e os traços tribais para levar suas origens para além do Amazonas e defender os direitos indígenas

João Luiz Sampaio, Especial para o Estadão

04 de junho de 2022 | 05h00

Aos 18 anos, Thaís Kokama deixou Manaus para viver na aldeia Iambé. O trajeto de bote pelas águas do Rio Negro não dura mais do que 20 minutos. Mas a viagem a levava, na verdade, a uma relação com sua própria história e o tempo. 

Thaís nasceu e cresceu na capital amazonense. Seu pai pertence ao povo kokama, vindo de Santo Antônio de Içá, cidade localizada no Alto Solimões – região no oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru e a Colômbia. Sua mãe é descendente dos sateré-mawé, presentes na região leste, em cidades locais como Parintins, Nova Olinda do Norte, Barreirinha e Maués, na fronteira com o Pará.

A defesa da cultura indígena acompanhou Thaís durante a infância e a adolescência. Seu pai sempre atuou como liderança no movimento pela retomada de terras indígenas. E esperava dos filhos que participassem com ele desse processo, jamais se distanciando de suas origens. Thaís demonstrava desde cedo interesse ao observar o ambiente familiar. Mas sua luta, ela conta, se daria de outra forma: por meio da cultura.

“Muitos dos meus parentes não queriam se pintar com os grafismos da nossa etnia, não gostavam de falar a língua, diziam que já eram indígenas e pronto, não precisavam disso. E eu me perguntava o motivo. Foi então que comecei a aprender a fazer as pinturas e a pintá-los, de acordo com o clã, nação e língua de cada um, sempre que íamos nos manifestar por nossos direitos, por exemplo”, ela conta. 

Prática milenar

Com 18 anos, então, surgiu o convite para se mudar para a aldeia Iambé, feito pelo tuxaua, termo em tupi que significa “aquele que manda” e que em português se convencionou chamar de cacique. “O tuxaua conversou comigo. Todas as pessoas na tribo são capazes de realizar os grafismos na pele. Mas ele queria que alguém pudesse centralizar esse trabalho, trabalhando com a tinta de jenipapo.” Ela aceitou o convite.

A pintura e os traços tribais são uma prática milenar. E podem ter diferentes significados na cultura indígena e na vida cotidiana das aldeias. Pode ser utilizada para rituais, é instrumento de cura. E uma forma de comunicação entre os indígenas de etnias diferentes, assim como uma forma de diálogo com a natureza e o sobrenatural.

“Mas fora da cultura indígena, da aldeia, eu entendi que a pintura é uma forma de aprendizado também”, explica Thais. E por conta disso ela começou a viajar para Manaus, para outras cidades do Amazonas e também para várias localidades do Pará, realizando oficinas e executando pinturas em pessoas de diferentes origens.

“Fazer um grafismo é dar a oportunidade para que o outro conheça a sua cultura. Quando alguém vem de São Paulo ou de fora do Brasil, de outra cor, raça, língua, não importa, e pede para ser pintado, está demonstrando respeito à minha cultura. E, ao pintar, eu ensino sobre o que sou, de onde vim, falo da minha história.”

Grafite

O trabalho começou pequeno, mas tem crescido. No ano que vem, ela vai participar da Bienal de São Paulo. E tem se dedicado a pensar na pintura kokama no contexto do grafite, em trabalho com um grupo de grafiteiras que, em Manaus, defende o espaço para as mulheres no gênero. Em abril, o recém-inaugurado Cemitério Indígena de Manaus também ganhou dela uma imagem para simbolizar a passagem da vida para a morte.

Thaís criou ainda o grupo Indart, em que reúne artistas representantes de diferentes povos para que desenvolvam seu trabalho com a pintura corporal, cada um de acordo com suas tradições e técnicas. E se dedica ainda a difundir a prática de reflorestamento do jenipapeiro e da confecção da tinta feita à base de seu fruto, o jenipapo, cuja utilização tem valor sagrado para o seu povo.

“Eu não vivo só no presente”, ela diz. “Quero pensar no futuro daquilo que faço. A pintura não é apenas um trabalho. Para a cultura indígena, em especial no mundo em que vivemos, ela é uma forma de diálogo. E, acima de tudo, de resistência.”

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