Nilton Fukuda / Estadão
Nilton Fukuda / Estadão

O médico que com 1 semana de vida já estava no Incor

Gabriel Liguori, de 29 anos, foi submetido a cirurgia aos 2 anos; hoje sonha em construir um coração em laboratório

Júlia Marques, O Estado de São Paulo

05 Agosto 2018 | 03h00

Em uma sala de cursinho pré-vestibular, Gabriel Liguori mirava na mesa o adesivo que ele mesmo havia tirado da roupa depois de uma consulta médica. Estava escrito “Instituto do Coração”, um lugar que conhecia desde recém-nascido e de onde não queria sair. Deu certo. Aprovado em Medicina na Universidade de São Paulo (USP), em 2009, foi no Incor, do Hospital das Clínicas, que ele passou de paciente a médico e pesquisador.

Enquanto gesticula para explicar seu ambicioso projeto de pesquisa na USP, as unhas arroxeadas dão a pista. O doutorando de 29 anos tem uma má-formação no coração. Condição que, se o limitou na infância e adolescência, também o levou a descobrir o caminho da cardiologia. Hoje, ele quer fazer história ao ser o primeiro a “imprimir” um coração humano em laboratório.

“O coração é o meu órgão”, diz ele, com carinho, sobre a própria trajetória – da infância à universidade. Quando pôs os pés na USP, não foi difícil reencontrar o caminho até o Incor. Para lá, foi levado pela primeira vez com uma semana de vida nos braços dos pais, assustados depois da primeira consulta com o pediatra. “Auscultava, auscultava, auscultava. Até que eu perguntei: doutor, tem alguma coisa?”, lembra a mãe, a professora aposentada Elaine Liguori, de 55 anos. 

Tinha. “Uma das artérias principais do meu coração não é formada e, dessa maneira, a oxigenação do sangue não é boa”, diz Liguori, e logo emenda palavras difíceis para detalhar o próprio problema. Os médicos esperaram o menino completar dois anos para submetê-lo a uma operação. No centro cirúrgico, foram seis horas – “intermináveis”, segundo a mãe – até receber a notícia de que havia sido um sucesso. 

Apesar de contornado o defeito de nascença, os pais sabiam que teriam de voltar ao hospital. Na infância, Liguori fez cinco cateterismos – para examinar as veias – e outras dezenas de exames e consultas. Procedimentos pelos quais passava sem se dar conta da gravidade. Do ambiente hospitalar, lembra da brinquedoteca do Incor e do sagu de uva.

Aos 19 anos, a aprovação em Medicina foi celebrada pela família, mas a opção pela carreira não surpreendeu. “Desde pequeno falava que queria ser médico”, conta ele – e a informação é confirmada pela mãe, que via o menino entretido sempre que apareciam imagens de cirurgias na televisão. Liguori não sabe dizer por que, mas a experiência em hospital, ao contrário de causar repulsa, despertou interesse. 

Na faculdade, se envolveu com ligas de estudantes e ajudou a fundar a primeira delas voltada à cirurgia cardíaca pediátrica. Para o Incor, foi às pressas certa vez, à noite – não por causa do seu problema – mas para acompanhar, como estudante de Medicina, um transplante em uma criança. “No final, tive a oportunidade de entrar para auxiliar, tocar o coração.” E ali confirmou a veia para a cardiologia. 

A pesquisa. Para fazer o doutorado na USP, adiou por um tempo a especialização em cirurgia cardíaca. Para o futuro, quer construir um coração completo em laboratório – feito que, se alcançado, será inédito em todo o mundo. “O cirurgião é a razão pela qual estou aqui hoje. Mas, quando der certo (a pesquisa), vou poder salvar milhares de pessoas ao mesmo tempo.”

Ele e outros cientistas testam um gel com proteínas que pode levar à diferenciação de células-tronco, e, dessa forma, ser usado para construir tecidos humanos. Ainda faltam muitas etapas – por enquanto, o que se tem são pequenos “retalhos” de um coração –, mas a pesquisa já ganhou o Prêmio Nacional de Cirurgia Cardíaca.

A proposta, diz ele, é usar as células dos próprios pacientes para a confecção do coração em laboratório, evitando incompatibilidades. “Temos 30 mil pessoas aguardando um transplante”, diz. “E ainda que os pacientes sejam transplantados, há o risco da rejeição.” Gabriel espera tornar o projeto uma realidade até 2030. 

Entre uma atividade acadêmica e outra, poucos passos o separam do consultório médico, que ele visita todo ano para garantir que está tudo bem com o próprio coração. Mas agora vai sozinho. Já a mãe “ganhou alta” do cargo de acompanhante depois que ele entrou na faculdade e, ao contrário de Liguori, não tem planos voltar a por os pés no Incor. “Estou feliz de saber que ele está fazendo o quer, realizando um sonho. E no lugar mais seguro que poderia estar.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.