Jae C. Hong/AP Photo
Jae C. Hong/AP Photo

O modelo do 'queijo suíço' de defesa contra a pandemia 

Múltiplas camadas de proteção, imaginadas como fatias de queijo, bloqueiam a disseminação do novo coronavírus, SARS-CoV-2, o vírus que causa a covid-19. Nenhuma camada é perfeita; cada uma tem buracos, e quando os buracos se alinham, o risco de infecção aumenta

Siobhan Roberts - The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2020 | 14h30

Ultimamente, nas atuais discussões a respeito de como derrotar o novo coronavírus, especialistas têm se referido ao “modelo do queijo suíço” de defesa contra a pandemia.

A metáfora é bem fácil de compreender: múltiplas camadas de proteção, imaginadas como fatias de queijo, bloqueiam a disseminação do novo coronavírus, SARS-CoV-2, o vírus que causa a covid-19. Nenhuma camada é perfeita; cada uma tem buracos, e quando os buracos se alinham, o risco de infecção aumenta. Mas várias camadas combinadas — distanciamento social, mais uso de máscaras, mais higienização das mãos, mais testagem e rastreamento, mais ventilação, mais recomendações dos governos — reduzem significativamente o risco, em geral. A vacinação vai acrescentar mais uma camada de proteção.

“Logo criamos uma barreira impenetrável para realmente suprimir a transmissão do vírus”, afirmou a Dra. Julie Gerberding, vice-presidente executiva e diretora de atendimento ao paciente da farmacêutica Merck, que recentemente citou o modelo do queijo suíço em discurso em um evento virtual de arrecadação de recursos do Museu Nacional de Matemática (MoMath), em Manhattan.

“Mas todas essas medidas são necessárias, e não somente uma delas”, acrescentou. “Acho que é isso que nossa população está com dificuldade em entender. Queremos acreditar que aquele dia mágico vai chegar, quando, de repente, 300 milhões de doses de vacina estarão disponíveis, e nós poderemos voltar a trabalhar, e tudo vai voltar ao normal. Isso simplesmente não vai acontecer de uma hora para a outra.”

Em vez disso, a Dra. Gerberding afirmou por e-mail, posteriormente, que espera ver “uma melhora gradual na proteção, primeiramente entre os grupos mais vulneráveis e, depois, mais gradualmente, entre o restante de nós”. Até que as vacinas estejam amplamente disponíveis e sejam aplicadas, afirmou ela, “teremos que continuar usando máscaras e adotando outras medidas sensatas para proteger a nós mesmos e aos demais”.

Em outubro, Bill Hanage, epidemiologista da Faculdade T.H. Chan de Saúde Pública, em Harvard, republicou no Twitter um infográfico demonstrando o modelo do queijo suíço, ressaltando que ele inclui “elementos que são responsabilidades individuais *e* responsabilidades coletivas — observem o ‘rato da desinformação’ tentando se alimentar, abrindo novos buracos para a passagem do vírus”.

“Um dos primeiros princípios da resposta à pandemia é - ou deveria ser - a divulgação de informações claras e consistentes a partir de fontes confiáveis”, afirmou Hanage por e-mail. “Infelizmente, a independência de autoridades reconhecidas, como os CDC, tem sido questionada, e a confiança nelas tem de ser reconstruída urgentemente”, afirmou ele, referindo-se aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. Um infográfico cativante é um poderoso instrumento de comunicação, ressaltou ele, mas que, no fim das contas, requer um apoio de cima.

O conceito do queijo suíço foi desenvolvido por James Reason, um psicólogo cognitivo, atualmente professor-emérito da Universidade de Manchester, na Inglaterra, em seu livro “Human Error” [Erro Humano] (1990). Uma sucessão de desastres — incluindo a explosão do ônibus espacial Challenger, o vazamento de gás em Bhopal e o acidente nuclear em Chernobyl — motivou a criação do conceito, que ficou conhecido como “o modelo do queijo suíço para acidentes”, com os buracos nas fatias de queijo representando os erros que, ao se acumularem, provocam esses eventos adversos. 

Atualmente, a metáfora do queijo se encaixa perfeitamente na pandemia do novo coronavírus. Ian Mackay, um virologista da Universidade de Queensland, em Brisbane, Austrália, viu uma versão resumida desse modelo no Twitter, mas achou que este poderia ser melhorado com mais fatias, mais informações. Ele criou, com a ajuda de colaboradores, a “Defesa do Queijo Suíço contra a Pandemia Respiratória”, e engajou sua rede no Twitter, solicitando opiniões e recriando a visualização a partir de diferentes iterações. “O engajamento da comunidade é altíssimo!”, afirmou ele. Agora circulando amplamente, o infográfico foi traduzido para mais de uma dezena de línguas.

A seguir, a versão editada de uma recente conversa por e-mail com Mackay:

O que o modelo do queijo suíço demonstra?

O poder real desse infográfico — e da abordagem de James Reason para explicar a falibilidade do ser humano — é que ele não trata de nenhuma camada de proteção específica, nem da ordem delas; trata, porém, do crescente sucesso obtido com o uso de múltiplas camadas, ou fatias de queijo. Cada fatia tem buracos, ou falhas, e esses buracos podem variar em número, tamanho e localização, dependendo de como nos comportamos em relação a cada intervenção.

Tome as máscaras como o exemplo de uma camada. Qualquer máscara vai reduzir o risco de que você infecte inconscientemente quem estiver próximo ou que você aspire vírus o suficiente para se infectar. Mas a medida será menos efetiva para proteger você e os outros se as máscaras não se ajustam bem ao seu rosto, se você as usa abaixo do nariz, se elas não passam de um mero pedaço de tecido, se a trama do tecido for larga, se as máscaras tiverem uma válvula sem filtro, se você não der destino adequado às máscaras usadas, se você não lavá-las ou se você não higienizar as mãos depois de tocá-las. Cada um desses exemplos é um buraco. E isso em uma única camada.

Para estar o mais protegido possível e manter protegido quem está próximo a você, é importante usar mais fatias, para evitar que esses voláteis buracos se alinhem e permitam a passagem do vírus.

O que aprendemos desde março?

Que o distanciamento é a intervenção mais eficaz; o vírus não tem pernas, então, se estamos fisicamente distantes das pessoas, evitamos gotículas e contato direto com o vírus. Então, temos de considerar os espaços internos, que estão especialmente em jogo durante o inverno ou, em países mais quentes, durante o verão: o ônibus, a academia de ginástica, o escritório, o bar ou o restaurante. Isso porque sabemos que o SARS-CoV-2 consegue permanecer infeccioso nos aerossóis (minúsculas gotículas em suspensão), e nós sabemos que os aerossóis explicam os eventos de supercontaminação de covid-19. Tente não estar nesses espaços com outras pessoas, mas, se isso for inevitável, reduza o seu tempo por lá (trabalhe de casa, se puder) e use máscara. Não vá ao supermercado com tanta frequência. Evite sair, adie festas e reuniões — tudo isso pode ser deixado para depois.

Onde entra o “rato da desinformação”?

O rato da desinformação consegue corroer todas essas camadas. Pessoas que não tenham certeza a respeito de algum tipo de intervenção podem ser influenciadas por um berro estrondoso e confiante proclamando que alguma camada em particular seja ineficiente. Normalmente esse berro vem de alguém que não entende nada do assunto. Quando buscamos os especialistas — normalmente autoridades locais de saúde pública ou a Organização Mundial da Saúde —, encontramos informação confiável.

Uma medida não tem de ser perfeita para reduzir o risco individual e para as pessoas próximas. Temos de nos lembrar que somos todos parte da sociedade e que, se cada um fizer a sua parte, podemos manter seguros uns aos outros, o que também nos beneficia a todos individualmente.

Outro exemplo: nós olhamos para os dois lados antes de atravessar a rua. Isso reduz o risco de sermos atropelados, mas não reduz a zero. Um carro em alta velocidade ainda pode surgir do nada. Mas se também atravessarmos a rua na luz verde para pedestres, olhando para os dois lados enquanto cruzamos e não ficarmos olhando para os nossos telefones, reduzimos drasticamente o risco de sermos atropelados.

Já estamos acostumados a agir dessa maneira. Quando damos ouvidos aos estridentes não especialistas, que não possuem nenhuma experiência em proteger nossa saúde e aumentar nossa segurança, estamos facilitando que eles afetem nossas vidas. Esse é um risco que não deveríamos correr. Só precisamos nos acostumar com esses novos passos de redução de risco para evitar o novo risco de hoje: uma pandemia de um vírus respiratório, em vez de um carro que possa nos atropelar.

Qual a nossa responsabilidade individual?

Cada um de nós tem de fazer sua parte: ficar longe dos outros, usar uma máscara se isso for impossível, pensar no nosso entorno, por exemplo. Mas também podemos esperar que nossos líderes trabalhem para criar circunstâncias para vivermos em segurança — como regulações para a troca de ar em espaços públicos internos, instalação de espaços de quarentena e isolamento, comunicar-se com o público em vez de simplesmente fazer anúncios, limitar o trânsito por fronteiras, estimular-nos a continuar checando nossa saúde e fornecendo assistência de saúde mental ou apoio financeiro àqueles que estão em sofrimento ou não conseguem trabalhar durante uma quarentena.

Como podemos fazer o modelo do queijo suíço emplacar?

Todos nós aplicamos essas abordagens no cotidiano. Mas, por causa da pandemia, tudo isso parece novidade e passa a impressão de ser um trabalho extra — porque é tudo novidade. No fim, porém, só estamos criando novos hábitos, como navegar no sistema operacional do nosso telefone novo ou aprender a jogar naquele console novo que ganhamos de aniversário. Pode levar algum tempo para darmos conta de tudo, mas valerá a pena. Ao trabalharmos juntos para reduzir o risco de infecção, podemos salvar vidas e melhorar a saúde de todos.

E, como benefício extra, a abordagem de redução de risco em várias camadas pode reduzir até a frequência com que ficamos gripados ou resfriados. Às vezes, cabe a determinadas autoridades garantir que certas fatias sejam aplicadas: é importante que todos nós obedeçamos essas regras e façamos o que os especialistas nos recomendem. Eles estão zelando pela nossa saúde. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.