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O mundo ainda está longe de alcançar a imunidade de grupo contra o coronavírus

Contagens oficiais de casos costumam detectar apenas uma fração do número de infecções pela covid-19

Nadja Popovich e Margot Sanger-Kat, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 16h00

O coronavírus ainda tem um longo caminho a percorrer entre nós. Esse é o recado de uma nova leva de estudos feitos em todo o mundo que tentam quantificar o número de pessoas já infectadas.

As contagens oficiais de casos costumam detectar apenas uma fração do número de infecções pelo coronavírus. Mas até nos resultados de um novo conjunto de estudos que testam a população de maneira mais geral para estimar o número total de infectados, o percentual de pessoas contagiadas até o momento ainda não chegou a 10%. Esses números são uma fração do marco conhecido como imunidade de grupo, ponto a partir do qual o vírus não consegue mais se disseminar tão amplamente. O limiar exato da imunidade de grupo para o novo coronavírus ainda não está claro; mas vários especialistas dizem acreditar que este pode ser superior a 60%.

Observação: os estudos representam as melhores estimativas do momento, mas seus resultados não são exatos, e podem supor uma imunidade mais alta ao coronavírus nos lugares onde o número de infectados é baixo. As datas citadas se referem ao momento em que os resultados foram divulgados ao público. O estudo de Wuhan, na China, observou a imunidade somente entre pessoas que voltavam ao trabalho, e não na população em geral. Não estão disponíveis estimativas mais gerais a respeito dessa cidade. Fontes: Estado de Nova York; Sistema de Saúde Pública da Inglaterra; Instituto de Saúde Carlos III; Wu et al., Journal of Medical Virology; Boston; Agência de Saúde Pública da Suécia De acordo com o estudo, mesmo em algumas das cidades mais atingidas do mundo, a vasta maioria das pessoas segue vulnerável ao vírus.

Alguns países – principalmente a Suécia e, brevemente, a Grã-Bretanha – experimentaram uma forma limitada de quarentena na tentativa de fazer sua população desenvolver a imunidade à doença. Mas, mesmo nesses lugares, estudos recentes indicam que a proporção de infectados até o momento não é maior que 7% a 17% da população. Em Nova York, que teve o maior surto de coronavírus dos Estados Unidos, cerca de 20% dos moradores da cidade tinham sido infectados até o início de maio, de acordo com um levantamento feito com pessoas nos mercados e nos centros comunitários divulgado pelo gabinete do governador.

Levantamentos semelhantes estão em andamento na China, onde o coronavírus surgiu, mas os resultados ainda não foram divulgados. Um estudo realizado com um único hospital da cidade de Wuhan revelou que aproximadamente 10% das pessoas que tentavam voltar ao trabalho tinham sido infectadas pelo vírus.

Tomados em conjunto, os estudos mostram que a proteção da imunidade de grupo dificilmente será alcançada “em um futuro próximo", disse o epidemiologista Michael Mina, da Faculdade de Saúde Pública T.H. Chan (Harvard).

O limiar da imunidade de grupo para essa nova doença ainda é desconhecido, mas muitos epidemiologistas acreditam que chegaremos a esse ponto quando algo entre 60% e 80% da população tiverem sido infectados e desenvolvido resistência. Um patamar mais baixo de imunidade entre a população pode desacelerar um pouco a disseminação da doença, mas o marco da imunidade de grupo representa o ponto a partir do qual a probabilidade e uma infecção desencadear um surto é substancialmente menor.

“Sinceramente, não há maneira segura de desenvolver essa imunidade, não no curto prazo", disse o Dr. Mina. “A não ser que a escolha seja deixar que o vírus fuja ao controle – mas acho que a sociedade decidiu que essa abordagem não está disponível.”

Os novos estudos procuram anticorpos no sangue das pessoas, proteínas produzidas pelo sistema imunológico indicando uma infecção anterior. Uma das vantagens desse teste é o fato de detectar as pessoas que tiveram quadros assintomáticos e nem souberam que estavam doentes. Uma desvantagem está na possibilidade de um resultado equivocado — e vários estudos, entre eles um dos mais notáveis, da Califórnia, foram criticados por não levarem em consideração a possibilidade de resultados imprecisos ou não representar o total da população.

Os estudos que usam esses testes para examinar uma amostragem da população, frequentemente chamados de levantamentos sorológicos, estão em andamento em todo o mundo.

De acordo com o professor de biologia Carl Bergstrom, da Universidade de Washington, os estudos têm seus defeitos, mas, em conjunto, dão uma ideia melhor do quanto o coronavírus já se disseminou – e do potencial de novos contágios.

O limiar da imunidade de grupo pode ser diferente em cada local, dependendo de fatores como densidade demográfica e interação social, disse ele. Mas, em média, os especialistas dizem que será necessária uma imunidade mínima de 60% da população. Se a doença se espalha mais facilmente do que se acredita no momento, a proporção pode ser maior. Se houver grande variação na probabilidade de infecção das pessoas ao serem expostas, isso pode fazer com que a proporção baixe.

Todas as estimativas de imunidade e grupo supõem que o contágio protege o infectado  de contrair a doença uma segunda vez. Há evidências fortes indicando que as pessoas de fato se tornam imunes ao coronavírus, mas ainda não está claro se isso é verdadeiro em todos os casos, nem o quanto essa imunidade é forte, ou o quanto vai durar.

O Dr. Mina, de Harvard, disse que devemos encarar a imunidade coletiva da população como um aceiro, desacelerando a disseminação da doença.

De acordo com ele, uma pessoa infectada com o vírus que entre em uma sala onde todos são suscetíveis à infecção pode contaminar duas ou três pessoas, em média.

“Por outro lado, se a pessoa entrar em uma sala onde já há três um quatro imunes, em média apenas uma pessoa será contaminada, ou menos”, disse ele. Essa pessoa, por sua vez, infectaria um menor número de outras pessoas. E isso reduz muito a probabilidade de um surto.

Mesmo com a imunidade de grupo, algumas pessoas vão adoecer. “Em caso de exposição ao vírus, o risco individual não muda", disse Gypsyamber D’Souza, professor de epidemiologia da Universidade Johns Hopkins. “Mas a probabilidade de exposição ao vírus é muito menor.”

Doenças como sarampo e catapora, antes extremamente comuns entre as crianças, são agora raras nos EUA porque as vacinas ajudaram a desenvolver uma imunidade de grupo que contém os surtos.

Não temos uma vacina para o coronavírus, de modo que alcançar a imunidade de grupo sem um novo tratamento, mais eficaz, pode significar muito mais infecções e muito mais mortes.

Se supusermos que a proteção coletiva seria alcançada quando 60% da população se tornarem resistentes ao vírus, isso significa que Nova York ainda tem pela frente dois terços do processo. E, até o momento, foram quase 250 mortes para cada 100.000 habitantes. Ainda há em Nova York milhões de moradores vulneráveis ao contágio e à disseminação da doença, e outras dezenas de milhares que correm risco de morrer.

“Alguém recomendaria que passássemos pelo processo que Nova York acaba de vivenciar?” disse Natalie Dean, professora-assistente de bioestatística da Universidade da Flórida. “Muitos falam em uma infecção controlada dos jovens, mas me parece arrogância pensar que podemos controlar esse vírus. É muito difícil contê-lo.”

Em outras cidades, os levantamentos sorológicos estão mostrando uma parcela ainda menor das pessoas com anticorpos. A qualidade desses estudos varia um pouco, seja porque as amostras não são aleatórias ou porque a precisão dos testes deixou a desejar. Mas a amplitude dos estudos mostra que a maioria dos lugares teria pelo menos dez vezes mais casos – e, possivelmente, mortes – até chegarmos ao ponto em que um surto não poderia mais fugir ao controle.

Os estudos de sorologia também podem ajudar os cientistas a determinar o quanto o vírus é mortal. No momento, as estimativas da chamada taxa de letalidade são aproximações. Para que sejam calculadas com precisão, é importante saber a relação entre o número de infectados e quantas pessoas morreram em decorrência do vírus em um determinado lugar. Os números oficiais de casos, que dependem de testes, subestimam a verdadeira extensão do contágio entre a população. A sorologia nos ajuda a enxergar o verdadeiro alcance da pandemia.

Em Nova York, onde 20% da população foram infectados com o vírus até 2 de maio, de acordo com testes de anticorpos, e onde mais de 18.000 já tinham morrido até então, a taxa de letalidade parece ser de aproximadamente 1%.

A título de comparação, a taxa de letalidade do influenza é calculada entre 0,1% e 0,2%. Mas o governo calcula o número de casos anuais de gripe usando um método menos preciso que os testes de sorologia, e o número de infecções tende a ser subestimado, o que faz parecer maior a proporção de fatalidades.

Mas, mesmo se a taxa de fatalidade fosse idêntica, a covid-19 seria uma doença muito mais perigosa que o influenza. a chave está no número de pessoas correndo o risco de adoecerem e morrerem conforme a doença se espalha.

No caso da gripe, apenas metade da população corre risco de adoecer em uma determinada temporada. Muitos já desenvolveram imunidade, seja por terem contraído uma cepa semelhante de influenza, ou porque a vacina de gripe que tomaram correspondeu bem ao vírus que circulou naquele ano.

Esse número não é alto o bastante para alcançar a imunidade de grupo — e a gripe ainda circula todos os anos. Mas há benefícios na imunidade parcial da população: apenas uma fração dos adultos corre risco de contrair a gripe em um determinado ano, e eles a disseminam mais lentamente. Isso significa que o número de pessoas que corre risco de morrer também é muito menor.

Diferentemente do influenza, a covid-19 é uma doença nova. Antes desse ano, ninguém no mundo tinha imunidade a ela. E isso significa que, mesmo se a taxa de fatalidade fosse semelhante, o número potencial de mortos seria muito maior. Um por cento de um número grande é mais do que 1% de um número menor.

“Não há 328 milhões de americanos suscetíveis à gripe em cada outono, quando começa a temporada do influenza", disse Andrew Noymer, professor-assistente de saúde pública da Universidade da Califórnia, em Irvine. “Mas havia 328 milhões de americanos suscetíveis à essa doença quando o contágio começou.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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