Mount Sinai Health System/AFP
Mount Sinai Health System/AFP

O mundo precisa da Aliança Global de Vacinas

A Gavi conduz negociações para que, já no primeiro trimestre de 2021, se inicie uma bem-sucedida campanha de vacinação

José Manuel Durão Barroso*, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2020 | 05h00

Foi com entusiasmo que aceitei a missão de presidir, a partir de janeiro de 2021, o Conselho da Gavi, a Aliança Global de Vacinas. Esta parceria público-privada foi criada em 2000 e teve como seu primeiro presidente Nelson Mandela.

A Gavi já ajudou a imunizar mais de 822 milhões de crianças, evitando cerca de 14 milhões de mortes e contribuindo para reduzir pela metade a mortalidade infantil em 73 países em desenvolvimento. A Aliança também apoia os sistemas de saúde de muitos países e financia as reservas mundiais de vacinas contra o Ebola, a cólera, meningite e febre amarela, entre outras. Graças aos esforços da Gavi, em 2020 foi declarada a erradicação da poliomielite no continente africano, após quatro anos sem um único caso.

Mas não é só o que a Gavi faz, mas também como o faz, que me encantou no projeto. A Aliança Global de Vacinas é um grande exemplo, talvez o mais inovador e com melhores resultados, de um modelo de cooperação internacional para o século 21.

Uma razão para o seu sucesso tem sido um modelo de administração muito inovador, que envolve a sociedade civil e o setor privado. Tendo como membros fundadores a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Banco Mundial e a Fundação Bill & Melinda Gates, a Gavi reúne lideranças dos governos doadores e dos países em vias de desenvolvimento, a indústria de vacinas, centros de investigação e organizações da sociedade civil.

A Aliança também desenvolveu um instrumento de financiamento revolucionário: os “Vaccine Bonds”, emitidos no mercado de capitais e garantidos pelos compromissos de doações de longo prazo de vários países, incluindo o Brasil. Além disso, suas negociações com fabricantes asseguram preços muito baixos para vacinas destinadas aos países pobres, por meio da garantia de demanda de grandes volumes e longo prazo.

A saúde pública é um bem global que a comunidade internacional deve almejar, independentemente das suas divisões. Neste mundo, cada vez mais fraturado do ponto de vista geopolítico, congregar governos de regimes políticos diferentes, instituições públicas, privadas, internacionais e organizações não governamentais, bem como a comunidade científica, é necessário e urgente. E, de fato, na recente conferência (virtual) Global Vaccine Summit, quando foram arrecadados US$ 8,8 bilhões, a Gavi conseguiu reunir o presidente dos Estados Unidos, o chefe do Governo da China, o diretor-geral da OMS, além de muitos outros importantes doadores, como o Reino Unido, a União Europeia, a Noruega, o Canadá e o Japão. 

Num mundo complexo e interligado, enfrentando hoje a maior pandemia em mais de um século, não podemos simplesmente dizer: O “seu” lado do barco está afundando! Assim, a Gavi liderou a criação da Covax, uma iniciativa ousada, por meio da qual se procura garantir a distribuição global e equitativa, a preços razoáveis, das vacinas anticovid-19.

Trabalhando em conjunto com a OMS e o Unicef, a Gavi conduz as negociações com fabricantes e fornece assistência técnica, logística e financeira para que, já no primeiro trimestre de 2021, se inicie uma bem-sucedida campanha de vacinação tanto nos países mais pobres como em países que conseguem se autofinanciar, como é o caso do Brasil. Atualmente, 190 países já confirmaram sua participação. Iniciando-se pela vacinação dos profissionais de saúde e dos grupos de risco, o objetivo é que se acabe com a fase mais aguda desta pandemia antes do final de 2021.

É isso que me motiva nesta missão que agora aceitei: ajudar concretamente as pessoas, especialmente as mais vulneráveis e, em particular, as crianças. É nesse tipo de ação que as políticas de desenvolvimento e de saúde pública, assim como as parcerias globais, encontram o seu verdadeiro fundamento e sentido: afirmar e proteger a dignidade da pessoa humana. 

*PRESIDENTE ELEITO DO CONSELHO DA GAVI, EX-PRESIDENTE DA COMISSÃO EUROPEIA E EX-PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL

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