Adriano Machado/ Reuters
Adriano Machado/ Reuters
Imagem Daniel Martins de Barros
Colunista
Daniel Martins de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O peso do estigma

Ao chamar Maia de Nhonho, ministro Salles usou estigma para esvaziar a discussão

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 05h00

Há 20 anos não existia lacração. Não existiam nem redes sociais onde as pessoas pudessem lacrar. Para o leitor em papel como eu, convém explicar esse conceito: lacrar é expor opinião de maneira tão clara e definitiva que encerraria o debate. Lamentavelmente, é um comportamento valorizado em determinados círculos, como se encerrar debate fosse uma virtude. 

Mas afasto-me do meu ponto. Dizia que duas décadas atrás, antes de as opiniões serem movidas pela quantidade de likes ou pelo impacto nas redes, teve início uma linha de pesquisa que só agora começa a gerar debate na sociedade. Fundamental fazer essa introdução para desde já nos anteciparmos às críticas que procuram desqualificar toda tentativa de avanço na consciência social, atribuindo fraqueza de caráter como motivação. Não pode bater nos filhos? Mimimi. Não pode perseguir empregados? Mimimi. As crianças não aguentam mais ser humilhadas pelos colegas da classe? Mimimi, claro. Ah, se fosse no meu tempo, dizem.

É um raciocínio totalmente enviesado. As pessoas que pensam assim nunca acompanharam um adolescente suicida, nunca atenderam crianças espancadas, nunca perderam o sono, antecipando angustiadas o assédio que sofreriam na manhã seguinte. Elas pensam na maioria das pessoas que tomava uma bronca aqui, era alvo de uma piada ali, levava uma palmada acolá, e não carregava sequelas para a vida. Mas o avanço da consciência vem justamente de enxergamos para além dessas maiorias, analisando as consequências nefastas de determinadas atitudes mesmo quepara a minoria. Até porque, ainda que proporcionalmente pequenas, essas minorias agregam um grande número absoluto de pessoas sofrendo.

Então, é preciso dizer que os estudos sobre gordofobia não são produto de tempos de mimimi. Não são fruto da geração millenial. Desde os anos 2000, eles apontam as consequências negativas de estigmatizar as pessoas por causa de seu peso, mas só agora alcançam relevância no debate.

Há algumas semanas, o assunto veio à baila quando os usuários do Facebook passaram a criar avatares, caricaturas de si mesmos por meio de um aplicativo que permitia escolher suas características, como cor e corte de cabelo e tom de pele, entre outros. Logo ficou clara a escassez de obesos entre os desenhos, representação incompatível com um país em que uma a cada cinco pessoas é obesa. E se pessoas gordas têm vergonha do seu corpo, isso não é por outra razão senão o estigma.

O estigma, vale lembrar aqui, tem três componentes negativos: estereótipo, preconceito e discriminação, todos negativamente associados ao excesso de peso. Basta uma pessoa estar acima do peso para que se acredite saber tudo sobre ela: trata-se de um estereótipo, quando atribuímos características a um grupo de pessoas e cremos que todos naquele grupo as carregam. Isso alimenta o preconceito, já que sem conhecer o sujeito achamos que ele é preguiçoso, guloso, sem força de vontade ou coisa que o valha. E ainda fomenta a discriminação, pois obesos são tratados de forma diferente em razão dessas crenças: têm menos oportunidades, menos credibilidade. Como se toda a complexidade das pessoas pudesse ser reduzida a um número revelado na balança. O estresse gerado por essa situação é por si só um fator de risco de mortalidade para quem está acima do peso: pessoas que experimentam maior discriminação por conta de obesidade têm 60% mais risco de morte, segundo um estudo de 2018, independente do seu peso.

Quando o ministro Ricardo Salles chamou o Rodrigo Maia de Nhonho, personagem obeso do seriado mexicano Chaves, estava usando a força do estigma para esvaziar a discussão. Diante de argumentos que poderiam ou não ser sólidos, ideias que poderiam estar certas ou erradas, apontar a obesidade foi uma tentativa – felizmente desastrada, diante da gritaria que gerou – de desqualificar o interlocutor.

O fato de essa estratégia nem sequer ter sido aventada mostra que de fato a gordofobia existe. Mas o fato de ter sido amplamente criticada é um benfazejo sinal que ela de fato começa a ser condenada pela sociedade. 

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.