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O poder da novidade

Desfrute do sabor de novidade que o ano novo traz; contemple os caminhos ainda não percorridos

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2022 | 05h00

Feliz ano novo. Dia primeiro de janeiro é sempre uma promessa de novidade. Sim, eu sei das críticas à definição arbitrária de recomeço; todos estão cansados de ouvir que não existe diferença desse dia para qualquer outro do ano. Mas não é verdade. 

Existe uma diferença gigantesca – porque nós a criamos. A partir do momento em que definimos que um ciclo termina e outro começa, ainda que a definição seja arbitrária ou artificial, nós criamos uma realidade e passamos a agir e reagir em função dela.

Por isso o ano novo é realmente novo. Nenhum dia aconteceu ainda. Todos os momentos estão no porvir, nada ficou no passado, o que traz a sensação de muitas possibilidades. 

Não infinitas, porque boa parte do futuro está construída a partir do nosso passado – não é só porque o futuro está em aberto que tenho chance de me tornar um jogador de futebol de elite, já que nunca me esforcei para desenvolver as habilidades necessárias. Ainda assim, eu poderia aprender a jogar bola, por que não? As coisas estão por acontecer, há chance.

O novo tem esse apelo. Como quando pegamos um caderno novo e nos vemos devaneando diante das páginas em branco, imaculadas, abertas para receber qualquer coisa – ideias, rabiscos, anotações, recados. Ou um livro novo, que nos enche de antecipação ansiosa pelo prazer daquelas páginas ainda desconhecidas.

Receitas novas são promessas de sabores inexplorados. Vale para praticamente qualquer coisa: carro novo, amizade nova, telefone novo, relacionamento novo.

Parte desse prazer – pequena – é passiva: ela vem da mera expectativa, da curiosa indagação “O que será que o futuro me reserva?”. Mas a maior fatia dessa sensação boa vem da esperança diante da maleabilidade do porvir, ao contrário do imutável passado. Da chance que temos de moldar o futuro que virá a ser nosso presente. Porque não podemos mudar o passado – só nos resta visitá-lo. Já com o futuro se dá o oposto: embora seja impossível espiá-lo somos capazes de modificá-lo no presente. E ter essa potência é muito prazeroso.

Feliz ano novo, portanto. Desfrute do sabor de novidade que ele traz; contemple os caminhos não percorridos. Prepare-se para as surpresas que lhe estão reservadas, porque nem todas serão agradáveis. Mas no que estiver ao seu alcance, não deixe os dias correrem soltos, distantes de sua atenção. 

Aproveite a flexibilidade do porvir e exerça seu poder de moldá-lo o quanto puder. Porque esse poder acaba assim que o futuro se torna passado, o que, se nunca demora, é ainda mais rápido quando estamos desatentos.

*É PROFESSOR COLABORADOR DO DEPARTAMENTO DE PSIQUIATRIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP 

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