Gabriela Biló/Estadão
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O problema do teste rápido

É necessário utilizar testes que detectam anticorpos produzidos por muito tempo

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 05h00

Determinar quantas pessoas já foram infectadas pelo SARS-CoV-2 é essencial para acompanhar a pandemia. Parece simples, mas nos últimos meses os cientistas em todo o mundo têm tomado um baile do vírus e dos testes. Vale a pena entender os problemas enfrentados pelos cientistas para medir o número total de infectados usando testes sorológicos e como esses problemas foram superados. 

No início da pandemia os exames eram ruins e vários dos testes rápidos que foram comprados pelo Brasil foram descartados como inadequados em outros países. Os estudos que utilizam esses testes rápidos apresentaram problemas desde o início. Um exemplo é o estudo conduzido nacionalmente por um grupo de epidemiologistas de Pelotas. Nesse estudo, usando testes rápidos, a fração de pessoas infectadas na cidade de São Paulo caiu de 3,3% para 1,4% entre os dias 14 de maio e 21 de junho, no pico da pandemia. Quedas semelhantes foram observadas em diversas cidades. 

Praticamente no mesmo intervalo de tempo (entre 10 de maio de 15 de junho), o grupo de pesquisa de que participo (que não usa testes rápidos) estimou que a porcentagem de infectados na cidade de São Paulo subiu de 5% para 11,4%, acompanhando o número de mortos e casos graves. Essa queda é difícil de explicar uma vez que o número de pessoas já infectadas só aumenta ao longo do tempo. Algo estava errado com o teste ou com a metodologia. 

Para complicar a história, testes semelhantes em outros países demonstraram que a quantidade de anticorpos presentes no sangue de pessoas infectadas diminui ao longo do tempo, criando a suspeita que a imunidade contra o SARS-CoV-2 fosse transiente, durando poucas semanas. É claro que isso causou grande preocupação. 

A natureza do problema começou a ser compreendida quando nosso grupo utilizou dois testes distintos para analisar as mesmas pessoas em São Paulo. O que descobrimos é que combinando dois testes o número de pessoas positivas aumentava em mais de 50%, o que demonstra que existem pessoas que produzem anticorpos que são detectados por um dos testes e não pelo outro. Portanto, é necessário utilizar mais de um teste. 

A novidade é que pesquisadores da Islândia testaram 1.215 pacientes que haviam se curado da covid-19 ao longo de um período de 4 meses. Cada uma dessas pessoas foi testada a cada 15 dias com seis diferentes testes que detectam anticorpos contra o SARS-CoV-2. O que eles descobriram é importantíssimo. Dois dos seis testes detectam anticorpos que começam a ser produzidos logo que a pessoa se cura e sua quantidade aumenta ao longo dos 4 meses. São anticorpos que perduram por um longo tempo (um desses foi usado emSão Paulo). Mas o mais importante é que entre os outros quatro testes, dois deles detectam anticorpos que surgem logo após a infecção e desaparecem rapidamente em 20 ou 30 dias. Esse resultado demonstra sem sombra de dúvida que existem dois grupos de anticorpos que são produzidos após a infecção: um grupo que persiste por muitos meses e outro grupo que desaparece rapidamente.

A descoberta de que existem esses dois grupos de anticorpos é importante pois demonstra que a resposta imune ao novo coronavírus é duradoura apesar de existirem grupos de anticorpos que desaparecem do sangue em poucos dias. Mas para os cientistas que estão tentando medir o número de pessoas que já foram infectadas pelo SARS-CoV-2 esse resultado é uma possível explicação para a queda na quantidade de infectados. O mais provável é que o teste usado detecta anticorpos que desaparecem rapidamente. 

Agora sabemos que é necessário utilizar testes capazes de detectar os anticorpos que são produzidos por muitos meses ou talvez anos. Somente esses testes são capazes de medir com alguma precisão quantas pessoas já foram infectadas. Infelizmente esses testes rápidos também estão sendo usados pela Prefeitura nos levantamentos quinzenais. Esse estudo feito na Islândia demonstra que muitos desses dados, utilizados para nortear as políticas públicas, não são confiáveis.

MAIS INFORMAÇÕES: HUMORAL IMMUNE RESPONSE TO SARS-COV-2 IN ICELAND. NEW ENGLAND JOURNAL OF MEDICINE. Link: www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2026116

*É BIÓLOGO

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