National Institutes of Health/AFP
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Mulher pode ter se curado de HIV sem passar por tratamento, diz estudo

Mulher não vinha recebendo terapia antirretroviral e testes não conseguiram encontrar níveis detectáveis do vírus da Aids. HIV não tem cura conhecida pela ciência

Marisa Iati, The Washington Post

17 de novembro de 2021 | 14h32

Uma mulher argentina de 30 anos parece ter se tornado o segundo caso registrado pela medicina de pessoa cujo corpo pode ter eliminado o HIV por conta própria, diz um novo estudo.

As varreduras de mais de 1 bilhão de células da mulher não detectaram nenhum vírus viável, embora na maior parte do tempo ela não estivesse sob terapia antirretroviral, a qual se destina a impedir a replicação do vírus. A descoberta levanta a possibilidade de que o próprio sistema imunológico de uma pessoa possa, em casos raros, fornecer uma cura esterilizante, a eliminação de um vírus capaz de se autorreproduzir, escreveram os pesquisadores.

“O que aconteceu é único”, disse Steven Deeks, pesquisador de HIV da Universidade da Califórnia em São Francisco, que não esteve envolvido no estudo. “Não é que ela esteja controlando o vírus, o que vemos com alguma frequência. A questão é que não existe mais vírus no corpo dela, o que é bem diferente”.

O estudo, publicado segunda-feira no periódico Annals of Internal Medicine, traz grandes implicações para 37,7 milhões de pessoas em todo o mundo que vivem com o HIV e que podem desenvolver Aids se não forem tratadas. O HIV se espalha por meio de fluidos corporais, geralmente após sexo desprotegido ou compartilhamento de agulhas.

Embora o HIV não tenha cura conhecida, o vírus foi eliminado em três pessoas que receberam transplantes de células-tronco para tratar seus cânceres. Mas os transplantes são perigosos e muitas vezes trazem inúmeras complicações, tornando-os ferramentas irrealistas para a cura de uma doença que pode ser tratada com um regime diário de pílulas e uma injeção aprovada recentemente.

Os cientistas estão buscando uma cura para o HIV por meio de quatro ramos principais de pesquisa: ativação da resposta imunológica do corpo ao vírus; terapia genética; tentativas de “shock-and-kill” para expulsar o vírus das células, de modo que o sistema imunológico possa tentar erradicá-lo; e esforços de block-and-lock para manter o vírus alojado nas células, de modo que ele não consiga se replicar.

A mulher argentina do novo estudo se junta a Loreen Willenberg, a outra paciente de quem se sabe que o sistema imunológico erradicou o HIV. Willenberg, do norte da Califórnia, pode ter sido a primeira pessoa a ser curada sem transplante de medula óssea nem medicação.

Deeks, que trabalhou em um estudo sobre Willenberg no ano passado, disse que as duas mulheres podem ter sido curadas por terem células T (um componente do sistema imunológico) excepcionalmente poderosas. Compreender esse mecanismo, disse ele, pode ser a chave para o desenvolvimento de vacinas terapêuticas que venham a eliminar o HIV sem consequências negativas a longo prazo.

Também é possível que a mulher argentina tenha desenvolvido uma resposta imunológica específica ao HIV antes de ser infectada, porque seu parceiro morrera de Aids, escreveu Joel Blankson, pesquisador de HIV da Johns Hopkins Medicine, em um editorial publicado no Annals of Internal Medicine. Os pesquisadores então poderiam usar as células da mulher para replicar seu sistema imunológico em camundongos e estudar os efeitos da infecção de roedores com HIV, afirmou ele.

A mulher argentina foi diagnosticada com HIV em março de 2013. Ao longo de oito anos de acompanhamento, escreveram os pesquisadores, 10 testes não conseguiram encontrar níveis detectáveis do vírus em seu sangue ou tecidos.

Ela não vinha recebendo terapia antirretroviral até iniciar um regime de pílulas durante seu segundo e terceiro trimestres de gravidez, no final de 2019 e início de 2020. A mulher parou a terapia após dar à luz uma bebê sem HIV, e os pesquisadores disseram que ainda não detectaram vírus em seu corpo. Os cientistas encontraram fragmentos de HIV, indicando que ela já havia sido infectada e que o vírus havia se replicado, escreveram eles.

Embora os pesquisadores afirmem que não podem provar que a mulher foi curada, eles disseram que essa possibilidade é bem provável. No estudo, eles se referiram à mulher argentina como a “paciente Esperanza”, em homenagem à cidade argentina onde ela vive. “Esperanza” também é a palavra espanhola para “esperança”.

“Segundo seu desejo”, escreveram os pesquisadores, “propomos chamá-la de ‘paciente Esperanza’, para mandar uma mensagem de esperança de cura para a infecção pelo HIV-1”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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