Rungroj Yongrit/EFE
Rungroj Yongrit/EFE

O que ainda não temos certeza acerca do novo coronavírus

Os jornalistas do 'The New York Times' resumem alguns dos pontos mais críticos que cientistas e autoridades de saúde pública ainda precisam entender

Roni Caryn Rabin, The New York Times 

08 de junho de 2020 | 10h00

Desde que os cientistas e as autoridades de saúde pública do mundo se tornaram amplamente conscientes do novo coronavírus em janeiro, eles tiveram seis meses para aprender sobre isso. Eles chegaram a muitas conclusões em relação ao vírus e a doença causada por ele, desde a importância de usar máscaras para conter sua propagação até a variedade incomum de sintomas que ele provoca. 

Mas existem grandes lacunas no conhecimento científico em relação ao vírus. Durante os seis meses em que jornalistas da editoria de saúde e ciências do The New York Times escreveram sobre a SARS-CoV-2, recontamos algumas das dúvidas identificadas que persistem. Como os cientistas resolverão alguns desses mistérios moldará nosso futuro com o novo coronavírus.

Incerteza acerca dos números

Uma das grandes incógnitas da epidemia é quantos americanos foram infectados até agora.

Apenas cerca de 1,9 milhão de americanos fizeram exames que deram positivo até 28 de maio, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) - ou talvez apenas 1,7 milhão, de acordo com o Centro de Segurança da Saúde Johns Hopkins, que produz um mapa frequentemente citado com casos ao redor do mundo.

Os estatísticos acreditam que o número real de casos é maior, mas não está claro quantos sejam. 

Eles confiam mais na precisão dos dados produzidos pelos estados que mais testam pessoas. Nesse ponto, o estado de Nova York é um líder; testou cerca de 9,6% de sua população, quase o dobro da média nacional. (Rhode Island testou 13% de sua população, superando Nova York, mas sua população é pequena.)

Nova York também fez dezenas de milhares de testes de anticorpos para fins de vigilância. Em 22 de maio, o governador Andrew Cuomo anunciou que, de acordo com esses testes, cerca de um quinto de todos os residentes da cidade de Nova York foram infectados pelo vírus. Já resultados dos testes realizados em comunidades de baixa renda mostraram que 27% dos milhares de nova-iorquinos negros e hispânicos que foram testados em suas igrejas locais contraíram o vírus.

Se esse mesmo padrão fosse adotado em outras grandes cidades afetadas como Chicago, Nova Orleans, Detroit e Miami, é provável que entre 3 e 4 milhões de americanos em áreas urbanas tenham sido infectados.

Mesmo que esse número fosse dobrado ou triplicado - o que provavelmente seria generoso - para contabilizar os americanos infectados em todo o país antes dos bloqueios totais, isso ainda resultaria no equivalente a apenas 9 a 12 milhões de pessoas.

O que está de acordo com as estimativas mais baixas feitas em meados de abril, antes de começarem a testar se as pessoas tinham anticorpos; diferentes modelos previram então que entre 3% e 10% do país estava infectado.

De qualquer forma, como este é um país de 330 milhões, meros 10 milhões ou mesmo 20 milhões de infectados seria uma marca irrisória. À medida que o país sai dos períodos de lockdown, a grande maioria dos americanos permanece vulnerável ao vírus.

O país também não será capaz de identificar todos os que foram infectados. A "melhor estimativa" do CDC, de acordo com os cenários de pandemia publicados em 22 de maio, é que cerca de 35% dos infectados não apresentam sintomas.

Atualmente, cerca de 21 mil americanos estão sendo infectados a cada dia. Se um terço deles não apresenta sintomas, quase 210 mil "propagadores silenciosos" são criados a cada mês.

Parece impossível imaginar que qualquer programa de rastreamento de contatos, por maior que seja, será capaz de acompanhar isso.

— Donald G. Mcneil Jr. 

Como os jovens se encaixam nesse quebra-cabeça

Existem muitas questões cruciais não resolvidas em relação às crianças e a covid-19. Encontrar as respostas não é apenas importante para elas e suas famílias, mas para a sociedade em geral, pois as comunidades planejam reabrir escolas, creches, playgrounds e outros locais frequentados por crianças. 

Um enigma é qual o papel das crianças na disseminação do vírus. Eles parecem menos propensos a ficar gravemente doentes do que os adultos, representando cerca de 2% dos casos confirmados de covid-19 entre americanos. Existem diferentes teorias sobre se isso ocorre porque as crianças são menos propensas a serem infectadas ou se o vírus as infecta com a mesma facilidade, mas na maioria das vezes causa poucos ou nenhum sintoma.

De qualquer forma, um crescente corpo de evidências sugere que crianças infectadas podem transmitir o vírus, possivelmente tão facilmente quanto os adultos. E um estudo recente sugere que, quando as crianças frequentam a escola, elas entram em contato com três vezes mais pessoas do que a média dos adultos, proporcionando mais oportunidades para que as crianças sejam infectadas e infectem outras pessoas.

Embora muito menos crianças do que adultos tenham experimentado sintomas graves, algumas crianças ficaram devastadoramente doentes e houve pelo menos 20 mortes de crianças devido à covid-19 nos Estados Unidos e em outros lugares. Relatórios de hospitais sugerem que as crianças mais vulneráveis à insuficiência respiratória desenvolvida por adultos são aquelas que já têm uma condição médica séria. Alguns estudos também sugerem que bebês e crianças em idade pré-escolar podem ser mais vulneráveis do que crianças as mais velhas.

Mas um pequeno número de outras crianças, incluindo adolescentes, que não apresentaram sintomas quando foram infectados, desenvolveram uma síndrome inflamatória recentemente identificada que pode causar sérios problemas cardíacos. 

A síndrome, que parece ocorrer semanas após a infecção e resulta de uma resposta imune acelerada ao vírus, foi relatada na Europa e nos Estados Unidos e causou várias mortes. Os médicos estão tentando urgentemente entender o que causa a síndrome, por que ela afeta algumas crianças e não outras e como tratá-la ou preveni-la da melhor maneira.

— Pam Belluck 

Quem foi o primeiro infectado pode ser um mistério para sempre

A ideia de um único paciente zero é ao mesmo tempo ilusória e real: em qualquer nova epidemia, alguma alma azarada semeia a primeira infecção, várias conexões dessa primeira pessoa são destinadas a semear cadeias de infecção e, assim, desencadeiam um Big Bang viral. 

Analisando o material genético das pessoas cujos exames deram positivo para o novo coronavírus, os cientistas podem rastrear a linhagem de cada vírus até um ancestral comum e frequentemente para um portador individual. O primeiro caso confirmado de coronavírus nos Estados Unidos foi um homem que desembarcou no aeroporto de Seattle-Tacoma em 15 de janeiro da China. Mas outros casos também apareceram em fevereiro e agora os cientistas estão se aproximando de quem exatamente desencadeou o surto no estado de Washington.

Nova York confirmou seu primeiro caso em 1º de março. Os cientistas descobriram traços genéticos característicos dos vírus estudados até agora, ligando-os à Europa, provavelmente trazidos por algumas das milhões de pessoas que chegaram a Nova York em fevereiro. É provável que o vírus tenha sido trazido para os Estados Unidos por várias pessoas, que o espalharam amplamente: pacientes zero, plural.

As primeiras pessoas infectadas em uma comunidade não são necessariamente as que acendem o pavio. Em um relatório publicado na semana passada, os cientistas argumentaram que as pessoas infectadas estavam entre americanos e europeus em janeiro, mas que a maioria desses vírus esvaneceu. E médicos franceses relataram recentemente que uma amostra respiratória de um homem hospitalizado perto de Paris, no final de dezembro, indicou que ele estava com covid-19. Esse vírus também provavelmente perdeu força. O surto da França não começou até semanas depois.

As evidências sugerem que o paciente zero do mundo, na China, começou a infectar outros entre novembro e dezembro de 2019. Uma análise dos 41 primeiros casos confirmados, todos em pessoas que visitaram o mesmo mercado de frutos do mar em Wuhan, indica que a primeira internação em hospital ocorreu em 16 de dezembro. O paciente notou os sintomas pela primeira vez em 1º de dezembro, portanto a infecção remonta mais cedo. Vários cientistas estimaram que o primeiro surto começou no final ou em meados de novembro e inferiram um provável ancestral viral comum.

O nível de trabalho de detetive necessário para encontrar o verdadeiro paciente zero pode ser mais acentuado do que parece. Pelo menos um cientista genético argumentou que o vírus pode ter infectado seres humanos - provavelmente por meio de um pangolim - bem antes de novembro do ano passado, sob uma forma que não causava doença. Em seguida, o vírus evoluiu suas características patogênicas ao longo do tempo enquanto circulava. Nesse caso, a pergunta "Quem veio primeiro?" pode ficar sem uma resposta conclusiva por algum tempo, talvez para sempre.

— Beneditc Carey 

Você está imune, mas até quando isso vai durar?

As pessoas infectadas com o novo coronavírus estão protegidas contra novas infecções? E, se sim, por quanto tempo? 

As respostas a essas perguntas têm amplas implicações para reabrir a economia e permitir que o público viva com menos medo de infecção a curto prazo - e para a eficácia das vacinas a longo prazo. 

Os cientistas têm feito progressos constantes, mas graduais, na obtenção das respostas. Quando o corpo é exposto a algum vírus, normalmente produz anticorpos, alguns dos quais são poderosos o suficiente para neutralizar o patógeno e impedir a reinfecção. Isso também faz produzir um grande número de células imunológicas que podem matar o vírus.

A maioria dos testes que procuram anticorpos para o coronavírus apresentou falhas. Mas pelo menos uma equipe com um teste confiável relatou que a maioria das pessoas, incluindo aquelas que estavam apenas levemente doentes, produzem anticorpos poderosos. Os dados sobre células imunes têm sido mais lentos a surgir, mas alguns estudos sugerem uma resposta robusta das células imunes também.

O que ainda não se sabe é quanto tempo essa imunidade vai durar. Houve alguns relatos de reinfecção, mas os cientistas disseram que são resultado de testes falhos ou de restos virais que continuam circulando muito tempo após o término da infecção ativa.

Eles esperam que, com base em outros coronavírus que causam o resfriado comum, SARS ou MERS, a imunidade ao novo coronavírus possa durar pelo menos um ano, mas isso permanece um mistério por enquanto.

— Apoorva Mandavilli 

Tentando entender o papel de um receptor

A covid-19 é uma doença imprevisível. Enquanto algumas pessoas experimentam apenas sintomas leves e efêmeros, outras são acometidas por sintomas semelhantes aos de uma gripe grave que pode durar várias semanas. Uma minoria de pacientes desenvolve complicações com risco de morte. E pode levar a morte em alguns casos.

Por que algumas pessoas se curam facilmente enquanto outras desenvolvem inflamação grave e danos nos pulmões que são marcas características da doença? É um dos grandes mistérios da covid-19. 

Especialistas dizem que a resposta imune do paciente à infecção viral determina a gravidade da doença. Se o sistema imunológico entrar em sobrecarga, isso pode desencadear uma cascata de efeitos nocivos, prejudicando os pulmões e outros órgãos.

A função imunológica diminui com a idade e os idosos com covid-19 estão entre os mais vulneráveis a prognósticos desanimadores, assim como aqueles com condições crônicas de saúde, como pressão alta, diabetes e doenças cardiovasculares. A obesidade, que afeta 4 em cada 10 adultos americanos, também parece exacerbar a doença.

Outras suscetibilidades são mais difíceis de explicar. Os homens também estão em maior risco de desenvolver um caso crítico e a morte, uma disparidade sexual que pode ser explicada pelo sistema imunológico mais forte das mulheres, dizem os cientistas.

De um modo geral, os pacientes adoecem mais rapidamente se expostos pela primeira vez a uma grande dose do vírus, disse William Schaffner, especialista em doenças infecciosas da Universidade Vanderbilt.

Muitas pesquisas científicas se concentraram no papel de um receptor chamado enzima conversora de angiotensina 2, ou ECA2, que é a porta de entrada dos coronavírus nas células. O receptor é encontrado na superfície externa das células nos pulmões, vasos sanguíneos, intestinos e outros órgãos, assim como no fundo da garganta e no alto das fossas nasais.

Quando a pandemia começou, havia uma preocupação de que as pessoas que tomavam medicamentos para pressão arterial, como inibidores da ECA, estivessem em maior risco em relação ao coronavírus, mas até agora os estudos não descobriram se isso era verdade, e os médicos estão pedindo aos pacientes que continuem tomando suas medicações normalmente.

Embora o vírus SARS-CoV-2 se ligue ao receptor para penetrar nas células, a ECA 2 também ajuda a regular a pressão sanguínea e a inflamação. Alguns cientistas sugeriram que as crianças podem ser menos suscetíveis à infecção pela covid-19 porque elas têm menos desses receptores. A ECA 2 também é regulada de maneira diferente em homens e mulheres, de acordo com cientistas que estudam as diferenças sexuais na medicina, e os homens tendem a desenvolver hipertensão, ou pressão alta, em idades mais jovens que as mulheres. Mas muito ainda é desconhecido.

"A ECA 2 pode desempenhar dois papéis muito cruciais: levar o vírus para a célula, mas também controlar alguns dos danos que ocorrem nos vasos sanguíneos e nos pulmões", disse Ankit B. Patel, nefrologista do Brigham and Women's Hospital, em Boston. "Portanto, é uma faca de dois gumes, de certa forma, e isso tornou toda a história ainda mais complicada."

/TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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