Eva Plevier/REUTERS
Eva Plevier/REUTERS

O que é placebo, essencial no desenvolvimento de medicamentos e vacinas

Mesmo sem substâncias ativas, placebo pode ter impacto positivo em tratamentos médicos; uso é necessário em estudos clínicos considerados "padrão ouro" pela comunidade científica

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2020 | 15h15

O termo “placebo” entra em evidência toda vez que se discute um novo medicamento ou o desenvolvimento de novas vacinas. Originada do latim, a palavra significa “agradar, satisfazer”. Mesmo antes de ser incluída em discussões da medicina, já era mencionada por católicos romanos no século XIII em cânticos e orações em louvor aos que estavam à beira da morte. 

Séculos depois, passou a ser usada por médicos para descrever tratamentos sem eficácia que tinham como único objetivo dar conforto aos pacientes, fazê-los se sentirem cuidados. Aos poucos, estudos começaram a mostrar que essas substâncias - geralmente pílulas de açúcar, farinha ou xaropes -  tinham consequências que não se resumiam ao alívio psicológico. É o chamado “efeito placebo”, que consiste em reações reais e positivas do uso de substâncias inativas. 

Ao receber um tratamento - mesmo que não tenha nenhuma substância ativa - o paciente cria a expectativa de melhora, o que o leva a pensar que está, de fato, melhor. O ato de tomar uma pílula ou de receber uma substância através de uma seringa, por exemplo, faz com que o cérebro ative sensações, emoções e memórias de cuidado e bem-estar que liberam dopamina e outros químicos que alteram a percepção da dor e de sintomas no geral. Estudos mostram que placebos podem ser eficazes no tratamento de doenças como Parkinson, depressão, disfunções intestinais e insônia.  

O que é placebo

O placebo é uma substância que contém compostos inativos em formato de pílula, pomada, líquido, entre outros, com aparência similar a medicamentos reais, usada como se fosse eficaz. O falso medicamento é amplamente utilizado em testes clínicos para desenvolvimento de novos tratamentos.  

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao ser administrada ao participante de um ensaio clínico, o placebo tem “finalidade de mascaramento ou de ser comparador” a medicamentos ativos. Essa comparação determina o grau de eficácia de um novo tratamento e a sua liberação - ou não - para comercialização.  

A prescrição de placebos é um tema controverso entre os médicos. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina veda o uso do placebo - em prescrições médicas e estudos clínicos - quando já existe tratamento eficaz para a doença. 

Hoje em dia, placebos são essenciais para a realização de testes clínicos que têm como objetivo desenvolver novos medicamentos e vacinas. A Food and Drugs Administration (FDA), agência regulatória de medicamentos e alimentos americana, exige que novos analgésicos que buscam aprovação do órgão para comercialização apresentem resultados de testes que comparem a eficácia destes medicamentos a placebos.  

O que as farmacêuticas e laboratórios querem saber a partir dos testes é se o novo medicamento ou vacina é mais eficaz que um placebo, sem substâncias ativas para o tratamento de determinada doença. Na prática, os participantes dos estudos são divididos geralmente em dois grupos: um receberá o novo tratamento e o outro apenas o placebo. Nos chamados testes clínicos duplo-cego, nem os participantes, nem os médicos sabem quem recebeu de fato a substância ativa e quem recebeu o placebo.  

Os placebos recebidos pelos participantes podem ser substâncias sem qualquer efeito farmacológico, como pílulas de açúcar, ou os chamados placebos “impuros”, compostos por substâncias de valor clínico, mas que não são eficazes para a doença em questão. Os placebos têm a mesma aparência do medicamento “real”, seja ele injetável ou uma pílula.  

Quando o período de testes é finalizado, os pesquisadores comparam os resultados dos dois grupos e verificam se o novo medicamento apresentou melhores resultados que o placebo, para descartar a possibilidade dos resultados observados estarem relacionados a outros fatores ou até mesmo ao acaso.

O placebo é essencial para os estudos clínicos considerados "padrão ouro" pela comunidade científica internacional, do tipo randomizado, duplo-cego e controlado. Para garantir resultados cientificamente precisos, os participantes do estudo são divididos em dois grupos: o que receberá o novo medicamento ou vacina e o outro, que tomará placebo. A escolha de quem faz parte de cada grupo é aleatória, por sorteio, e nem pacientes nem pesquisadores sabem quem está tomando o medicamento ativo ou o placebo. 

Efeito placebo

O efeito placebo acontece quando essas substâncias, que não têm princípios ativos para a doença em questão, são aplicadas e geram efeitos fisiológicos reais, como o alívio de sintomas. Pesquisadores atribuem esse resultado a diversos fatores, mas o principal deles é o contexto em que o tratamento acontece. 

De acordo com a pesquisa americana publicada na revista científica Nature em 2015, intitulada “A neurociência dos efeitos placebo: conectando contexto, aprendizado e saúde”, o ambiente em que o paciente recebe o tratamento interfere nos possíveis efeitos da aplicação. O consultório, o jaleco branco usado por médicos e enfermeiros, sugestões verbais como “isso vai te fazer se sentir melhor” e o uso de seringas, por exemplo, compõem uma espécie de ritual que pode influenciar na resposta cerebral ao tratamento.  

“O efeito placebo é uma resposta do cérebro e do corpo a informações contextuais que sugerem saúde e bem-estar”, diz o estudo, que destaca também que esses estímulos cerebrais ativam memórias e emoções relacionadas à sensação de cuidado e saúde. Para os pesquisadores, essa combinação de fatores forma o “ingrediente ativo” do efeito placebo. Por consequência, esses estímulos liberam endorfina e outras substâncias que alteram a percepção dos sintomas.  

Até as cores podem influenciar o efeito placebo. Pílulas vermelhas, amarelas e laranja são consideradas estimulantes, enquanto azuis e verdes têm efeito oposto: de tranquilização. O tamanho da pílula e a embalagem do medicamento também podem contribuir para a potencialização do efeito.  

Diversos estudos apontam efeitos positivos do placebo no tratamento de várias doenças, como Parkinson e depressão, disfunções intestinais e insônia. Em estudo publicado na revista americana Science, pesquisadores canadenses indicaram que placebos podem ativar o sistema de dopamina da via nigroestriatal, cuja lesão causa a doença de Parkinson.  Segundo a pesquisa, o  placebo pode estimular a dopamina nos cérebros de pacientes da mesma forma que os próprios medicamentos. 

Um estudo de Harvard, também publicado na revista Science, envolveu participantes que relatavam dores de cabeça e foram divididos em três grupos: os que receberam um medicamento ativo, Maxalt, os que receberam placebo e ainda os que tomaram placebo achando que estavam tomando o medicamento. Os participantes receberam informações “neutras”, “positivas” e “negativas” ao tomar as pílulas e essas informações tiveram impacto direto no grau de dor apontado por eles. Quanto mais positivas eram as informações, mais efeitos benéficos o medicamento e o placebo apresentaram. 

Origem do uso do placebo

Os primeiros registros de prescrições de placebos datam da segunda metade do século XVIII, quando médicos começaram a indicar tratamentos inativos para pacientes ao perceberem que o simples ato de serem tratados para uma doença - mesmo que por uma substância ineficaz - gerava benefícios psicológicos. Pílulas de açúcar e xaropes costumavam ser receitados para satisfazer e dar conforto aos pacientes. 

No século XIX, o médico americano Austin Flint realizou o que é considerado o primeiro teste clínico da História a comparar a eficácia de um placebo com a de um medicamento ativo. O estudo envolveu 13 pacientes com febre reumática que receberam doses de pedaços de casca da árvore quássia altamente diluídos. O médico já havia feito estudos prévios sobre o medicamento ativo para a doença e, ao comparar os dados, não encontrou diferenças significativas entre a duração dos sintomas, número de articulações afetadas e complicações dos pacientes que receberam o tratamento ativo e os que foram testados com o placebo. 

Em 1865, os médicos ingleses William Gull e Henry Sutton trataram 21 pacientes reumáticos com uma substância composta por água e menta e chegaram a conclusões similares. 

Nocebo

Enquanto o efeito placebo significa “agradar, satisfazer” e pode gerar benefícios, existe um outro fenômeno que causa o oposto: o nocebo. O efeito nocebo (“fazer mal, causar dano”) acontece quando o ser humano é impactado negativamente por alguma informação sobre determinado medicamento, desde efeitos colaterais descritos na bula ao preço do remédio. 

O efeito positivo do placebo pode ser determinado pela experiência no consultório, a sensação de estar sendo bem tratado. O efeito negativo do nocebo também. Se o contexto do tratamento não for agradável, o paciente pode sentir efeitos colaterais que normalmente não sentiria. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.