The Montreal Heart Institute
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O que já se sabe sobre os efeitos da colchicina contra a covid-19?

Estudos com pacientes diagnosticados com a doença mostraram resultados benéficos, mas uso deve ser feito apenas com supervisão médica 

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2021 | 14h13

  

Resultados preliminares de um estudo realizado por cientistas do Instituto de Cardiologia de Montreal, no Canadá, mostram que a administração do anti-inflamatório colchicina em pacientes com covid-19 reduziu as hospitalizações em 25%, a necessidade de ventilação mecânica em 50%, e mortes, em 44%. Embora os ensaios clínicos demonstrem efeito benéfico do medicamento, impedindo a evolução para um quadro de inflamação mais grave da doença, especialistas alertam para as contraindicações e necessidade de supervisão médica para sua utilização.

"Na covid-19, há uma fase inicial de uma resposta inflamatória muito intensa. Essa resposta acaba influenciando o endotélio, camada interna dos vasos sanguíneos. Na sequência, pode haver o comprometimento pulmonar, intestinal, renal, cardíaco e pode haver o comprometimento também do sistema de coagulação. Diante disso, a proposta do estudo é analisar o paciente na fase inicial da doença, antes da internação", afirma Protásio Lemos da Luz, investigador principal do estudo canadense no Brasil e ex-presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP).

Ainda segundo o especialista, o uso da colchicina deve ser interpretado dentro das características do estudo. "É fundamental deixar claro que o medicamento não foi usado na pesquisa de forma preventiva, mas dentro do tratamento. O uso do remédio deve ser interpretado dentro do estudo realizado. Sempre sob supervisão médica", disse Luz.

Nominado de colcorona, o ensaio internacional contou com a participação de mais de 4 mil pacientes com mais de 40 anos, diagnosticados com covid-19 pelo teste RT-PCR e com algum fator de risco, como hipertensão, diabetes ou doença cardíaca.

Os resultados preliminares foram publicados em 27 de janeiro na plataforma medRxiv, em artigo ainda sem revisão por pares. Os dados, no entanto, ainda estão sendo analisados com cautela, pois apesar das respostas animadoras, ainda aguardam revisão para publicação em uma revista científica.

Entre as nacionalidades que participaram do ensaio canadense estavam pacientes do Canadá, Estados Unidos, Espanha, Grécia, África do Sul e também do Brasil. "Contamos com a participação de 161 voluntários brasileiros. De uma forma geral, foi positiva a primeira informação sobre o estudo", acrescenta o investigador principal do estudo no País.

Outro estudo com o anti-inflamatório

Assim como a pesquisa canadense, estudo clínico brasileiro realizado, no ano passado, por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto com o uso da colchicina também revelou recuperação mais rápida de pacientes tratados com o medicamento.

A diferença entre os estudos é que o ensaio nacional envolveu pacientes internados na forma moderada, ou seja, na enfermaria. "No ensaio canadense, os paciente foram seguidos ambulatorialmente, não eram pacientes que estavam internados, o que diferencia o estudo da USP de Ribeirão Preto", afirma Paulo Louzada, um dos autores do ensaio clínico e chefe do ambulatório de Reumatologia da universidade.

No entanto, os benefícios também foram constatados. “Pacientes que usaram o medicamento ficaram livres da suplementação de oxigênio, em média, três dias antes do que aqueles que estavam no grupo de placebo, que receberam apenas o protocolo terapêutico padrão do hospital", disse o especialista membro e consultor das comissões científicas da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).

O ensaio clínico brasileiro, coordenado em parceria com o pesquisador Renê Donizeti de Oliveira, contou com 38 pacientes na análise parcial. Foi publicado em agosto do ano passado na plataforma medRxiv, em artigo ainda sem revisão por pares. Já a análise integral, que envolveu 75 voluntários, foi publicada na quinta-feira passada, 4, no Rmd Open, jornal científico inglês de Reumatologia que publica pesquisas originais revisadas por pares de alta qualidade.

Todos os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos, ambos tratados com o protocolo terapêutico padrão do hospital para covid-19. Um dos grupos recebeu adicionalmente a colchicina e o outro grupo, tomou placebo.

"Em ambos os resultados, observamos que os pacientes que tomaram a colchicina ficaram menos tempo internados, nenhum deles evoluiu para insuficiência respiratória e a quantidade de oxigênio que usaram na internação foi menor também. Mesmo na enfermaria, eles correm esse risco. Mas após sete dias de tratamento, os marcadores inflamatórios retornaram aos níveis normais", acrescentou Louzada.

O coordenador do estudo alerta, porém, que o uso do medicamento não deve ser interpretado como tratamento preventivo contra o novo coronavírus. "Não é para ser utilizado por demanda espontânea, deve sempre ser prescrito por médico", orientou.

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Não deve ser interpretado como tratamento preventivo contra a covid-19. Não é para ser usado por demanda espontânea, deve ser prescrito por médico.
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Paulo Louzada, um dos autores do ensaio clínico brasileiro e chefe do ambulatório de Reumatologia da da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto

Para que serve a colchicina?

A colchicina é utilizada como remédio há mais de 150 anos e dentro da reumatologia basicamente é utilizada para o tratamento de crises de gota, doença inflamatória que acomete sobretudo as articulações e ocorre quando a taxa de ácido úrico no sangue está em níveis acima do normal. Ela age, principalmente, em dois tipos de células do sistema imune, os neutrófilos e os macrófagos, reduzindo, desta forma, a produção das chamadas citocinas inflamatórias. É derivada de uma planta e há relatos de uso dessa planta desde a época dos egípcios, ou seja, é um medicamento muito antigo.

Por que se trata de um medicamento de alto risco?

O efeito colateral mais comum da colchicina é a diarreia, evento adverso já conhecido pelos médicos. Então, mesmo na dose adequada, cerca de 10% dos pacientes apresentam diarreia porque é um efeito colateral do remédio. Se a pessoa tem outra doença associada, pode fazer mal a ela. Dependendo de seu estado de saúde, o anti-inflamatório pode ser prejudicial.  É importante frisar que o paciente sempre deve fazer uso do medicamento sob supervisão médica. Não deve ser tomado de forma espontânea em nenhuma situação. Além disso, pacientes com insuficiências renais, hepáticas e cardíacas graves devem ser acompanhadas com mais atenção.

Quais os riscos provocados pela dosagem excessiva?

O risco de o paciente ter complicações cardíacas com seu uso tem relação com a dosagem.  Se a colchicina for usada em altas doses e administrada por conta própria, o paciente pode ter problemas cardíacos e quadro agravado de diarreia. Quanto maior a dosagem, maior o risco de ter complicações cardíacas. Nas doses receitadas pelos médicos para o tratamento de gota, isso não acontece porque não são usadas doses tão elevadas.

Pode ser usado como tratamento único contra a covid-19?

Não. É importante reforçar que o uso da colchicina em pacientes com covid-19 é um tratamento coadjuvante, complementa um tratamento que já está bem estabelecido com uso de corticoides e anticolagulantes nos pacientes.

É um remédio barato?

Sim. Uma caixa com trinta comprimidos custa em média R$ 25, sendo o genérico ainda mais em conta. Sendo um medicamento barato e de fácil utilização tem potencial de uso em larga escala. No entanto, mesmo pelo baixo custo e não sendo necessária receita médica para sua compra, a administração do medicamento somente deve ser feita sob supervisão médica.

Existe protocolo para uso da colchicina contra covid-19?

Não. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), não existe um protocolo para uso de colchicina no tratamento de pacientes com covid-19 no Brasil. A agência diz ainda que precisa autorizar os ensaios clínicos que tenham finalidade regulatória, ou seja, para permitir um futuro registro ou ampliação de uso e indicação em bula. Já os estudos de caráter acadêmico ou científico não passam pela Anvisa.

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