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O que o isolamento dos atletas da NBA ensinou sobre o tempo de transmissão da covid-19

‘Bolha da NBA’ mostra que dez dias após diagnóstico não há mais risco de transmissão

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2021 | 05h00

No início da pandemia a preocupação dos cientistas era saber quantos dias após se contaminar uma pessoa se tornava capaz de infectar outras pessoas e quantos dias após o desaparecimento dos sintomas ela poderia transmitir o vírus. Esses dois números são importantes para fazer as recomendações sobre como organizar a quarentena. Logo se descobriu que uma pessoa poderia infectar outra assim que o resultado do exame de RT-PCR se tornava positivo, mesmo antes do aparecimento dos sintomas. Por esse motivo se acredita hoje que a pessoa quando apresenta os sintomas já pode transmitir o vírus e deve se isolar mesmo enquanto espera o exame de RT-PCR. 

Mas como determinar quantos dias após o aparecimento dos sintomas, ou do exame positivo, a pessoa deveria permanecer isolada? Durante meses o critério adotado foi de recomendar às pessoas que ficassem isoladas até que dois exames seguidos de RT-PCR produzissem resultados negativos. Mas logo perceberam que parte das pessoas continua com resultados positivos por várias semanas e até meses. Aos poucos se descobriu que resultados positivos ao fim da infecção se deviam a restos de vírus que continuam nas pessoas. Então o CDC (Center for Disease Control, dos EUA) mudou a recomendação. A nova recomendação é que em casos normais, sem complicações, a pessoa fique isolada por dez dias após o aparecimento dos sintomas ou de um resultado positivo no RT-PCR. Muitos cientistas criticaram essa decisão pois acreditavam que não existiam experimentos que garantissem que esse era o prazo correto. Bom, agora esse experimento foi feito e, por incrível que pareça, os dados vieram da bolha de isolamento criada pela NBA (National Basketball Association, a liga profissional de basquete), nos EUA.

Houve interrupção dos jogos em março de 2020 e a NBA decidiu colocar todos os jogadores, de todos os times, mais técnicos, juízes e todo pessoal envolvido, trancados em um complexo hoteleiro na Flórida, isolados do mundo exterior. Da chamada “Bolha da NBA” participaram um pouco mais de 4 mil pessoas. Todos ficaram em quarentena por 15 dias, sendo testados diariamente, e em seguida foram colocados dentro do hotel, onde foram instaladas quadras de basquete e todo o sistema de transmissão. 

Dessa forma o campeonato foi adiante, mas sem público. Os prestadores de serviço, que entravam e saíam, eram testados diariamente por RT-PCR para evitar a contaminação dos jogadores. Desse modo as atividades internas eram realizadas sem máscara ou proteção, o que seria impossível fora da bolha. Funcionou! 

Para os cientistas, a “Bolha da NBA” foi um prato cheio. O experimento mais importante se refere à transmissão do vírus por pessoas que já se haviam curado dos sintomas. Quarenta e três pessoas (~1% do total) foram admitidas na bolha após estarem curadas, mas ainda apresentavam RT-PCR positivo. Se essas pessoas fossem capazes de transmitir o vírus, sua presença na bolha, onde não havia proteção, provocaria um pequeno surto. 

Mas não foi isso que foi observado: nenhum caso de covid-19 foi causado por essas pessoas, demonstrando que o CDC havia acertado ao afirmar que pessoas dez dias após os sintomas não transmitem mais o vírus e não precisam ser testadas (claro que isso não se aplica aos casos mais graves que precisam de hospitalização). É bom lembrar que dentro da bolha estavam principalmente pessoas jovens, do sexo masculino, e muitos com uma ótima forma física. 

Mas, de qualquer modo, a “Bolha da NBA” não só permitiu que todos os fãs assistissem aos jogos durante a quarentena, mas ajudou os cientistas a confirmar que pessoas dez dias após o diagnóstico não representam um risco de transmissão para as pessoas com quem interagem.

MAIS INFORMAÇÕES: SARS-COV-2 TRANSMISSION RISK AMONG NATIONAL BASKETBALL ASSOCIATION PLAYERS, STAFF, AND VENDORS EXPOSED TO INDIVIDUALS WITH POSITIVE TEST RESULTS AFTER COVID-19 RECOVERY DURING THE 2020 REGULAR AND POSTSEASON. AMA INTERN MED. doi:10.1001/jamainternmed.2021.2114 (2021)

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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