Silvio Avila/ AFP
Silvio Avila/ AFP

O que os médicos na linha de frente gostariam de ter sabido há um mês

Em vez de sedar rapidamente pessoas com baixíssima oxigenação do sangue e entubá-las com os respiradores mecânicos, muitos médicos agora preferem manter os pacientes conscientes, mudando de posição na cama

Jim Dwyer, The New York Times

16 de abril de 2020 | 14h00

Há cerca de um mês, pessoas afetadas pelo novo coronavírus começaram a chegar em números cada vez maiores nos hospitais da região metropolitana de Nova York, centro da pandemia nos Estados Unidos. Agora, os médicos da área começaram a compartilhar relatos de como tem sido o processo de recriar, no calor do momento, seus sistemas de saúde, sua forma de praticar a medicina e suas vidas pessoais. Se pudessem voltar no tempo até o início de março, o que esses médicos diriam a si mesmos? “Na verdade não sabemos aquilo que pensávamos saber", disse Nile Cemalovic, médico da terapia intensiva do Centro Médico Lincoln, no Bronx.

A medicina se reescreve com regularidade, geração a geração. Diante da doença que causa essa pandemia, alguns procedimentos de emergência há muito consagrados se dissolveram quase da noite para o dia. A maior mudança está na sedação: em vez de sedar rapidamente pessoas com baixíssima oxigenação do sangue e entubá-las com os respiradores mecânicos, muitos médicos agora preferem manter os pacientes conscientes, mudando de posição na cama e nas cadeiras reclináveis, fazendo com que sigam respirando sozinhas - com oxigênio adicional - enquanto for possível.

A ideia é tirá-los da posição deitada, possibilitando que o pulmão se expanda mais. Alguns médicos tentam até colocar os pacientes em colchões especiais de massagem destinados a gestantes, pois o equipamento reduz o peso suportado pelo abdômen e o peito. Outros médicos estão alterando as máquinas de CPAP, normalmente usadas para ajudar na respiração de pessoas com apneia do sono, ou improvisando aparelhos com válvulas e filtros. Para os pacientes em estado mais crítico, o respirador pode ser a única esperança real.

Há também a questão do espaço necessário dentro dos edifícios e da cabeça das pessoas. De uma hora para outra, vastos saguões, recepções e refeitórios foram convertidos em alas hospitalares; antes raramente usada, a tecnologia de telemedicina decolou subitamente, e os médicos realizam agora conferências ao lado do leito do paciente com parentes geograficamente espalhados; médicos se obrigam a se distanciar fisicamente e emocionalmente dos campos de batalha onde o adversário nunca respeita o cessar-fogo no qual o restante da sociedade entrou.

Mais de 12 mil pessoas morreram em decorrência do novo coronavírus em Connecticut, Nova Jersey e Nova York, onde há mais de 260 mil casos confirmados. É quase certo que esses números sejam inferiores à dimensão real de contaminados e mortos, pois os testes de casos suspeitos e daqueles que já vieram a óbito ainda são pouco confiáveis.

Os médicos da região de Nova York não descobriram uma maneira garantida de combater a covid-19 — a doença causada pelo vírus — e ainda não tiveram tempo suficiente para determinar o resultado dos improvisos no médio prazo, avaliou Anand Swaminathan, professor-assistente de clínica de emergência do Centro Médico da Universidade St. Joseph’s, em Paterson, Nova Jersey. 

Ninguém sabe se as gambiarras serão sustentáveis. “Acredito que teremos muitas respostas em alguns meses", afirmou Reuben Strayer, médico da ala emergencial do Centro Médico Maimonides, no Brooklyn. “Infelizmente, isso não nos ajuda agora. Temos que começar em algum lugar.”

Espaço para respirar

“Nunca antes tive que pedir a um paciente que desligasse o celular porque era hora de entubá-lo com o respirador", lembrou Richard Levitan, que recentemente passou 10 dias no Centro Hospitalar Bellevue, em Manhattan. Por que a surpresa? Os pacientes que precisam ser entubados para a instalação do respirador mecânico que auxilia ou até controla a respiração raramente estão em condições de falar ao telefone, pois a oxigenação do seu sangue caiu vertiginosamente.

Quando estão conscientes, frequentemente balbuciam palavras incoerentes enquanto são preparados para a sedação, para assim não engasgarem com a instalação dos aparelhos. É uma medida drástica. Mas muitos pacientes com a COVID-19 permanecem alertas, mesmo diante de uma queda acentuada na oxigenação, por motivos que os funcionários de saúde não sabem explicar ainda (outro sinal importante da gravidade do quadro de um paciente com covid-19 — a presença de indicadores de inflamação no seu sangue — só fica disponível aos médicos depois de exames laboratoriais).

Ao receber oxigênio e mudar de posição, alguns pacientes voltaram ao normal rapidamente. É uma tática de suporte pronado. Os médicos do Centro Médico Montefiore, no Bronx, e do Centro Médico Mount Sinai, em Manhattan, descreveram a situação no Twitter; um panfleto é afixado ao lado dos leitos no Centro Hospitalar Elmhurst, no Queens, orientando os pacientes quanto à frequência com que devem mudar de posição.

No Hospital Lincoln, no Bronx, Nicholas Caputo acompanhou 50 pacientes que chegaram com baixa oxigenação no sangue, entre 69% e 85% (o normal é 95%). Depois de cinco minutos de pronação, eles recuperaram em média o nível de 94%. Ao longo das 24 horas seguintes, quase três quartos deles conseguiram evitar a entubação; 13 precisaram do respirador. A pronação parece não funcionar tão bem nos pacientes mais velho, de acordo com uma série de médicos.

Ninguém sabe ainda se essa será uma solução duradoura, disse Caputo, mas, se pudesse voltar ao início de março, o recado dele para si e para os demais seria: “Não tenham pressa em entubar".

O número total de pacientes entubados aumenta agora ao ritmo de 21 por dia, uma queda em relação aos cerca de 300 entubados diários no início de março. A necessidade de respiradores mecânicos continua urgente, mas é menos drástica do que previu a comunidade médica um mês atrás.

Uma das razões para isso é que, contrariando as expectativas, um número de médicos dos hospitais de Nova York acreditam que a entubação ajuda menos pacientes com covid-19 do que os pacientes com outras doenças respiratórias, e o uso prolongado desses ventiladores leva a outras complicações sérias. A questão está longe de ser decidida. “Os pacientes entubados com a doença pulmonar causada pelo novo coronavírus apresentam quadro muito ruim, e embora isso seja provavelmente decorrência da doença, e não da ventilação mecânica, a maioria de nós acredita que a entubação deve ser evitada até o momento em que se torne inequivocamente necessária", recomendou Strayer.

Essa mudança reduziu a carga para a equipe de enfermagem e o restante do hospital. “Quanto entubamos um paciente", disse Levitan, “o esforço e trabalho necessários para evitar que a pessoa morra aumenta 100 vezes", criando um efeito cascata que atrasa os resultados laboratoriais, os exames de raios-X e outros procedimentos.

Josh Farkas, especialista em tratamento intensivo e pulmonar pela  Universidade de Vermont, afirma que os riscos da pronação são baixos. “Trata-se de uma técnica simples, segura e relativamente fácil de aplicar". “Comecei a aplicá-la alguns anos atrás em pacientes ocasionais, mas nunca imaginei que se tornaria tão difundida e útil", disse. Foi como reconstruir o motor de um carro viajando a 150 km/h. “Não me surpreenderia se, em questão de algumas semanas, alguém no país desenvolver uma maneira melhor de tratar esses quadros", enfatizou Swaminathan. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Receba no seu email as principais notícias do dia sobre o coronavírus

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.