WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O que sabemos sobre a variante Delta do novo coronavírus e por que ela preocupa tanto?

Cepa foi identificada pela primeira vez na cidade de São Paulo na segunda-feira, 5; tire as principais dúvidas sobre ela

Ítalo Lo Re, Roberta Jansen e Gustavo Côrtes, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2021 | 08h01
Atualizado 30 de julho de 2021 | 18h15

Responsável pelo agravamento da pandemia na Índia, local onde, em outubro de 2020, foi identificada pela primeira vez, a variante Delta (antes, B.1.617.2) do novo coronavírus está gerando uma série de dúvidas na população, principalmente por ser considerada mais transmissível que outras cepas. Não à toa, a Delta é classificada como “variante de preocupação” pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e já circula em mais de 100 países.

No Brasil, apesar de a Delta não ser a variante predominante, diferentes estratégias de contenção estão sendo tomadas, mas ainda há incerteza se a cepa vai avançar a ponto de agravar a pandemia e causar uma terceira onda no País.

Isso porque a atenção se divide com as variantes Lambda (C.37), detectada pela primeira vez no Peru, e Gama (P.1), conhecida inicialmente como cepa de Manaus e considerada a principal responsável pela segunda onda no Brasil. Por estarem presentes em maior quantidade na América Latina, elas também são motivos de preocupação, aponta o pesquisador do Instituto de Medicina Tropical da USP e coordenador de pesquisa e desenvolvimento da Dasa, José Eduardo Levi.

Mesmo assim, cientistas estão em alerta em relação à Delta, sobretudo por causa do avanço de casos no Rio, que concentra 99 dos 147 diagnósticos positivos para a cepa no País.

Para explicar o que se sabe até então sobre a variante, que está avançando mesmo em locais com cobertura vacinal avançada, o Estadão preparou uma série de perguntas e respostas. Confira:

Por que a variante Delta preocupa tanto?

A Delta gera preocupações sobretudo pela escalada de casos na Índia e pelo rápido avanço em países europeus. A variante passou a ser responsável por mais de 90% dos novos casos no Reino Unido e em Portugal, além de avançar na Alemanha, França e Espanha, aponta análise do Financial Times do final de junho.

Estimativas indicam, além disso, que a variante é cerca de 50% mais transmissível do que a Alfa, descoberta pela primeira vez no Reino Unido. Não à toa, a Delta já representa mais de 25% dos casos novos nos Estados Unidos, país onde há uma cobertura vacinal avançada.

Segundo um informe interno que circulou dentro dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, a Delta é muito mais contagiosa e com mais probabilidade de vencer as proteções propiciadas pelas vacinas e ser mais grave do que outras cepas do vírus. 

A variante é mais transmissível do que o vírus causador da Mers, Sars, Ebola, ou um resfriado comum, gripe sazonal e a varíola, e é tão contagiosa quanto a catapora, segundo o documento cuja cópia foi obtida pelo The New York Times.

“Ainda não associaram a Delta a uma maior taxa de mortalidade, mas é uma variante de maior transmissibilidade”, explica Levi. Segundo ele, o que chamou atenção no avanço da variante no Reino Unido é que ela se sobrepôs mesmo à variante inglesa (Alfa), que também é classificada como uma “variante de preocupação”.

Um estudo liderado pela Universidade de Oxford, do Reino Unido, com a participação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apontou ainda que a variante Delta pode aumentar os riscos de reinfecção pelo novo coronavírus. Já um outro estudo publicado na revista científica The Lancet indica que o risco de internação é maior em pessoas que foram infectadas pela Delta, em comparação àqueles que se infectaram pela Alfa.

E como a Delta se comporta no Brasil?

Atualmente no Brasil a preocupação em relação à Delta se dá mais por precaução, já que a variante assusta em outros países, explica José Eduardo Levi. "Eu acho que é correto a gente ficar preocupado com a Delta aqui no Brasil, mas a gente tem muito mais motivos para se preocupar além dela”, diz. "A P.1 (Gama) dominou o ambiente totalmente. E ela pode ser tão ou mais transmissível do que a cepa indiana."

O pesquisador explica que, para além da Alfa, não se tem muitos comparativos da Delta em relação a outras variantes, como a de Manaus (Gama) e a sul-africana (Beta). "Para fazer esse comparativo, basicamente é necessário ver como a Delta se expande em um ambiente que é dominado por outra. Não se faz teste de laboratório de competição, por exemplo."

Até o momento, segundo informações do Ministério da Saúde, 122 casos da Delta foram identificados no País e cinco óbitos foram confirmados para a variante: um no Maranhão e quatro no Paraná.

Para conter o avanço da cepa no País, o virologista Anderson Brito reforça a importância de seguir vigilante em relação ao vírus e de adotar medidas protetivas, como uso de máscaras PFF2 e distanciamento, além de evitar locais fechados. "Temos uma pequena parcela da população vacinada com duas doses no Brasil (cerca de 13%), e o número de infecções ainda é alto no País", diz.

Os sintomas causados pela variante Delta são diferentes dos causados por outras cepas?

De acordo com Anderson Brito, dados preliminares do Zoe Covid Symptomestudo realizado no Reino Unido, mostram que infectados no país europeu pela variante Delta têm tido menos perda de olfato, enquanto coriza e dor de cabeça agora são mais comuns. Outros estudos realizados até então, como o da King's College, de Londres, vão no mesmo sentido.

“Demora um tempo para a ciência provar isso, mas o que estão relatando é que, sim, está havendo mudança de sintomas”, diz José Eduardo Levi. "Mas isso é difícil de se controlar, porque quem está se infectando agora são, em maioria, os não vacinados, que são mais jovens. Será que os sintomas têm a ver com a variante em si ou com o fato de que são jovens, que talvez acabam não desenvolvendo outros sintomas?", questiona o pesquisador.

A descoberta do primeiro caso da variante Delta em SP preocupa em relação a uma terceira onda no Brasil?

Levi explica que, quando o assunto é pandemia, os próximos meses ainda são incertos. "Pode haver uma terceira onda, mas acredito que é mais provável de ser causada por uma variante derivada da Gama, uma Gama Plus, do que por uma variante Delta, ou uma Delta Plus", diz. Originária da Delta, a Delta Plus começou a crescer na Índia, mas ainda não foi vista em outros lugares. Já a Gama tem variações espalhadas pelo Brasil, como no interior do Estado de São Paulo.

"De todo modo, a gente não está aqui para fazer aposta, está aqui para prevenção. O que tem que ser feito é identificar a pessoa infectada, com quem ela teve contato e fazer o bloqueio dessas pessoas", diz o pesquisador.

O que se sabe sobre o grau de proteção que as vacinas oferecem contra a variante Delta?

“Com a vacina da Pfizer, tem uma pequena diferença de proteção. Existe uma perda de proteção, mas ela é pequena”, responde Levi. A situação é similar à que ocorre com o imunizante de Oxford/AstraZeneca. O pesquisador reforça ainda que, no comparativo com uma dose, a diferença entre os números é até maior (da Delta em relação a outras cepas), o que acaba reforçando a necessidade da segunda dose. 

Em relação à vacina da Janssen, a Johnson & Johnson, que é dona da farmacêutica, anunciou no dia 1º de julho que o imunizante de dose única é eficaz contra a variante Delta, com uma resposta imunológica que dura pelo menos oito meses.

"Mudanças drásticas na eficácia de vacinas em geral são causadas pelo efeito cumulativo de mutações em proteínas virais, ao longo de meses de evolução molecular. A eficácia dificilmente cairá repentinamente abaixo de 50%", explica Anderson Brito. "Porém, seguir monitorando a disseminação do coronavírus é essencial, para detectar de maneira célere novas mudanças genéticas relevantes."

O que se sabe, de modo geral, é que, quanto mais transmissível é uma variante, mais é necessário ter uma cobertura vacinal avançada para bloqueá-la. Além de também ter uma resposta imune melhor, que é dada pela vacinação completa dos indivíduos (ou seja, com duas doses ou dose única).

Com outros imunizantes, explica Levi, ainda não se tem muitos dados em relação à Delta. "Até porque a gente acabou de identificar o primeiro caso de Delta na cidade de São Paulo”, explica o pesquisador. “Só agora o Butantan deve conseguir fazer os primeiros testes em relação à Coronavac, por exemplo."

Apenas uma dose é suficiente para ‘barrar’ a Delta?

Estudos mostram que a Delta é mais transmissível que as demais cepas, mas não necessariamente mais agressiva. Cientistas ressaltam que a variante se espalhou em países onde boa parte da população já está vacinada. Isso poderia explicar o baixo número de internações e mortes. Já se sabe também que apenas a primeira dose de um imunizante pode não ser suficiente para barrar a infecção. É complexo prever como a Delta se comportaria no Brasil, que tem menos de 20% da população imunizada com as duas doses.

Será necessário antecipar a segunda dose das vacinas?

Por causa da variante Delta, governos têm liberado a diminuição do intervalo entre as aplicações das vacinas contra covid-19 das fabricantes AstraZeneca ou Pfizer, com fizeram o Estado do Rio e o Distrito Federal. A justificativa é ter parcela maior da população com o esquema vacinal completo, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis.

Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Pernambuco e Santa Catarina também optaram por diminuir a janela entre as aplicações. As reduções têm sido de 12 semanas para dez ou oito semanas. O governo paulista, por outro lado, optou por não adotar essa estratégia por enquanto. 

A redução do tempo entre as injeções divide especialistas. A Fiocruz, responsável por produzir o imunizante Oxford/AstraZeneca no Brasil, se manifestou contrário a encurtar o intervalo. No exterior, o avanço da Delta tem motivado o debate sobre o uso de uma dose de reforço. A Pfizer chegou a pedir às autoridades americanas aval para oferecer uma nova injeção, o que ainda não ocorreu. Israel aprovou uma terceira aplicação.

As medidas de proteção seguem sendo as mesmas?

Sim. A única mudança é que, como as variantes que são mais transmissíveis normalmente têm cargas virais maiores, o cenário requer ainda mais rigor com os cuidados não farmacológicos. “Além disso, quanto mais rápido avançar a vacinação, melhoram as chances de a gente não ter novas variantes'', diz Levi, que reforça ainda a importância de realizar a vigilância genômica para acompanhar novas cepas.

"Enquanto pessoas seguem viajando, protocolos sanitários falhos podem favorecer a entrada de qualquer variante no Brasil", diz Anderson Brito. Segundo o virologista, a Delta é a variante mais transmissível já descrita até hoje, o que faz com que os cuidados sejam redobrados.

“O Ministério da Saúde reforça que tem orientado Estados e municípios sobre todas as ações necessárias, como intensificar o sequenciamento genômico das amostras positivas para a covid-19 e a vigilância laboratorial, rastreamento de contatos, isolamento de casos suspeitos e confirmados, notificação imediata e medidas de prevenção em áreas de suspeita de circulação de variantes”, informou a pasta.

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