REUTERS/Athit Perawongmetha
REUTERS/Athit Perawongmetha

O que uma festa no Japão pode informar sobre propagação do coronavírus; Coreia do Sul tem 156 casos

Preocupação com o vírus aumentou com casos registrados no Japão, onde foram reportadas 94 pessoas infectadas. China informou mais de 75 mil ocorrências e mais de 2,2 mil mortes

Sui-Lee Wee e Makiko Inoue, The New York Times

21 de fevereiro de 2020 | 12h27

Chovia na noite de 18 de janeiro, de modo que as janelas no barco de confraternização em Tóquio estavam fechadas. Dentro havia 90 convidados de uma associação de taxistas local que comemoravam o Ano Novo no barco que deslizava pelo Rio Sumida. Também a bordo, desconhecido para eles, estava um coronavírus capaz de se propagar furiosamente.

E foi exatamente isto. Um motorista com cerca de 70 anos de idade, logo depois adoeceu com febre, e mais tarde seu teste foi positivo para a doença. No mesmo dia do seu diagnóstico, sua sogra faleceu, também infectada pelo vírus. As autoridades descobriram então que mais dez pessoas que estavam no barco também caíram enfermas, incluindo uma funcionária que atendeu os passageiros e era de Wuhan, na China. Outras que não participaram da festa contraíram o vírus depois de entrar em contato com participantes da festa.

Funcionários da saúde pública buscaram pistas de uma das maiores incertezas no caso do novo vírus - ou seja, se ele vai se expandir rapidamente além da China, centro da epidemia - e vêm estudando detidamente vários casos que surgiram recentemente no Japão.

A questão se tornou mais urgente com os passageiros deixando o navio de cruzeiro contaminado em Yokohama, onde 634 pessoas contraíram o vírus e duas morreram. Especialistas temem que algumas cujo teste foi negativo e foram autorizadas a deixar a quarentena a bordo disseminem a doença em terra do mesmo modo que ocorreu naquela festa no barco.

As autoridades alarmadas se apressam para saber mais sobre como o vírus é transmitido, incluindo quantas pessoas infectadas perceberam algum sintoma, ou nenhum, e se ele pode ser propagado por indivíduos assintomáticos.

Katsunobu Kato, ministro da Saúde do Japão, disse que o país entrou em “outra fase” na sua luta contra o coronavírus.

“Os médicos nos institutos de medicina admitem que o número de casos vai aumentar no futuro e que é necessário adotar medidas firmes”, disse ele numa coletiva de imprensa no domingo. O governo anunciou um pacote de medidas urgentes, equivalente a US$ 139 milhões, para conter o surto, incluindo um reforço da sua capacidade de realizar testes e de quarentena.

A preocupação com o vírus aumentou com casos ocorridos no Japão, onde foram reportadas 94 pessoas infectadas, não incluídas as do navio de cruzeiro, e em Cingapura, com 84 casos da doença confirmados, e na Coreia do Sul, com 156 enfermos. A China informou mais de 75 mil ocorrências e mais de 2.200 mortes.

O número de enfermos na Coreia do Sul triplicou num prazo de três dias e 77 casos foram ligados a uma igreja na cidade de Daegu. Em Singapura, o governo identificou cinco grupos e está investigando as conexões entre eles. O vírus foi detectado em pelo menos 25 outros países, a maior parte das infecções envolvendo pessoas que viajaram da China.

“O que nos preocupa é a transmissão verificada na comunidade em países fora da China”, disse Raina Macintyre, chefe do programa de biossegurança no Kirby Institute da Universidade de New South Wales, em Sydney. “Isto porque uma vez que o vírus se propaga e uma transmissão vem ocorrendo em dois continentes, isso significa uma pandemia”, acrescentou ela.

Muitos casos virais são difíceis de investigar e isto vale especialmente para a atual epidemia de coronavírus em que muitas pessoas infectadas afirmam não ter nenhum sintoma. Se pessoas assintomáticas podem disseminar o vírus será muito mais complicado conter sua propagação, uma vez que ele é transmitido sem que a pessoa portadora saiba.

“Há transmissões silenciosas” por causa da natureza do vírus, afirmou Shigeru Qmi, diretor emérito regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) - para a região do Pacífico ocidental, em uma entrevista na segunda-feira, 17.

Segundo David Heymann, epidemiologista da Escola de Higiene e Medicina Tropical, de Londres, ainda não existem evidências definitivas de que as pessoas assintomáticas podem transmitir a doença.

Os virologistas têm duas prováveis explicações para a propagação. A primeira é que uma pessoa que tem propensão para espalhar mais germes do que outras (chamada superspreader ou supercontagiante) transmite o vírus para um grande grupo de pessoas. Algumas não têm nenhum sintoma, sentem-se bem e se expõem, ou encontram um grupo de indivíduos com baixa resistência.

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Durante a epidemia de SARS, em 2002-2003, o maior “superspreader” reportado foi um funcionário de aeroporto de 26 anos admitido no Hospital Príncipe de Gales em Hong Kong. Ele infectou 112 pessoas, incluindo os médicos e enfermeiros que trataram dele no hospital.

Alternativamente, as pessoas podem contrair o vírus de superfícies contaminadas. Não se sabe ao certo quando tempo o novo coronavírus consegue sobreviver em superfícies, mas estudos de outros vírus similares concluíram que ele permanece ativo por uma semana ou mais.

Além do navio de cruzeiro Diamond Princess, o maior caso de transmissão de humano para humano no Japão é o da festa no barco em Tóquio.

Quatro dias depois da festa, em 22 de janeiro, a sogra do motorista de 70 anos, mostrou sinais de fadiga. Seis dias depois esta mulher, com 80 anos de idade, procurou assistência médica, mas foi informada de que deveria apenas monitorar seu estado. No dia primeiro de fevereiro ela foi hospitalizada, diagnosticada com pneumonia. Seu quadro respiratório agravou e ela foi transferida para outro hospital no dia seis de fevereiro. O teste para o coronavírus foi feito no dia 12 de fevereiro. Um dia depois ela faleceu e o resultado do teste foi positivo. Sua morte foi a primeira em decorrência do vírus no Japão.

As autoridades descobriram que o motorista infectado era genro da mulher que morreu e passaram a monitorar seus contatos. Descobriram que ele havia participado da festa no barco e todos os que estiveram na festa foram testados. Sete pessoas testaram positivo para a doença, mas disseram não ter nenhum sintoma.

Outras, como a funcionária da associação de motoristas, que não participou da festa, contraíram o vírus depois de se encontrarem casualmente com pessoas que participaram daquela reunião. Em outro caso, um médico de 60 anos testou positivo depois de jantar com uma enfermeira, mulher de um motorista, que foi à festa. Ele também não apresentava sintomas da doença.

Outro caso ocorreu em Wakayama, onde um cirurgião de um hospital, um colega dele, a mulher e o filho desse colega, testaram positivo para o vírus, como também dois pacientes que foram para o hospital. Um deles era um agricultor de 70 anos de idade, que foi ao hospital depois que o primeiro médico parou de trabalhar.

A mãe, esposa e o irmão mais novo de um paciente de 60 anos no mesmo hospital também contraíram o vírus, como sucedeu com a enfermeira de 30 anos que trabalhou por um tempo no Diamond Express fazendo parte da equipe de atendimento de emergências.

Yoshinobu Nisaka, prefeito de Wakayama disse que não descarta a possibilidade de as infecções terem ocorrido dentro do hospital. “Temos dificuldade para detectar como essas pessoas foram infectadas”, disse ele durante uma coletiva de imprensa no sábado, 15.

Em outro caso no Japão, quatro pessoas da municipalidade de Aichi foram infectadas, um casal que havia voltado do Havaí e seus amigos. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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