Alex Plavevski/EPA/EFE
Alex Plavevski/EPA/EFE

O remédio certo para a economia mundial

Lidar com a pandemia envolve todo o governo, não apenas o sistema de saúde

The Economist, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2020 | 05h00

Não é uma luta justa, mas é uma luta que muitos países enfrentarão da mesma forma. Onde não é debelada, a pandemia de Covid-19 dobra a cada cinco a seis dias. Quando você receber a próxima edição da revista The Economist, o surto poderá, teoricamente, ter infectado o dobro do número de pessoas de hoje. Os governos podem diminuir esse ritmo feroz, mas o tempo burocrático não é o mesmo que o tempo do vírus. E, no momento, governos de todo o mundo estão sem reação.

A doença está em 85 países e territórios, em comparação aos 50 da semana passada. Já foram registrados mais de 95 mil casos e 3,2 mil mortes. No entanto, nossa análise, baseada nas viagem de e para a China, sugere que muitos países que registraram dezenas de casos, têm centenas de outros circulando sem serem detectados. Irã, Coreia do Sul e Itália estão "exportando" o vírus. 

Os EUA registraram 159 casos em 14 estados, mas desde 1º de março, realizaram testes em apenas 472 pessoas quando a Coreia do Sul testou 10 mil por dia. Agora que os Estados Unidos estão analisando, certamente descobrirão mais casos de infecção - e possivelmente constatarão que há uma epidemia em curso.

Onde quer que o vírus ocorra, contê-lo e abrandar seus efeitos envolverá mais do que médicos e paramédicos. A Organização Mundial da Saúde aprendeu da China como os sistemas de saúde devem lidar com o problema. A mesma atitude será necessária em todo o governo, especialmente no que diz respeito à proteção das pessoas e das empresas, pois as cadeias de suprimentos se rompem, e os temerosos e doentes se isolam.

A primeira tarefa é conseguir mão de obra e recursos para os hospitais. A China convocou 40 mil trabalhadores da saúde para a província de Hubei. A Grã-Bretanha pode convocar médicos que já estão aposentados. Nesta semana, o Banco Mundial disponibilizou US $ 12 bilhões e o FMI, US $ 50 bilhões, para o combate ao covid-19. 

O Fundo Global, destinado ao combate de doenças como malária e tuberculose, disse que os países poderão trocar verbas. Nos Estados Unidos, o Congresso está alocando US $ 8,3 bilhões em financiamento. O país possui alguns dos hospitais mais avançados do mundo, mas seu sistema de saúde fragmentado tem pouca capacidade disponível. Será necessário muito mais dinheiro.

Igualmente importante é retardar a propagação da doença, fazendo com que os pacientes a se apresentem para se submeterem a testes enquanto os surtos forem pequenos e possíveis de conter. Talvez isto não seja possível em muitos países, incluindo grande parte dos Estados Unidos, onde 28 milhões de pessoas estão sem cobertura de saúde e muitos mais precisam pagar grande parte de seu próprio tratamento.

As pessoas também precisam se isolar se tiverem sintomas leves, como cerca de 80% deles têm. Aqui (nos Estados Unidos) a licença médica é importante porque muitas pessoas não podem se dar ao luxo de perder um dia de trabalho. 

Nos Estados Unidos, um quarto dos funcionários não tem acesso à licença médica paga e apenas um ou outro estados e prefeituras oferecem benefícios por doença. Muitas vezes, os trabalhadores autônomos, 20% da força de trabalho da Itália, não se qualificam. Um estudo constatou que, em epidemias, a garantia do subsídio por doença reduz a propagação da gripe nos Estados Unidos em 40%.

A licença médica também ajuda a amenizar o ônus da demanda que, juntamente com um choque de oferta e o pânico geral, está atingindo as economias. Esses três fatores, como mostra a China, podem ter um efeito dramático na produção. Em fevereiro, a atividade manufatureira despencou desde que este dado começou a ser levantado vez em 2004. No trimestre até março, a economia como um todo encolheu pela primeira vez desde a morte de Mao Zedong.

A OCDE prevê que, este ano, o crescimento global será o menor desde 2009. Estudo da Universidade Nacional Australiana sugere que o PIB dos EUA e da Europa será 2% menor do que se não tivesse ocorrido a pandemia, e talvez 8% menor se o número de mortes for muitas vezes maior que o esperado. Nos mercados financeiros, as quedas das bolsa expressam o medo. A emissão de títulos da dívida das empresas em Wall Street praticamente parou. O rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos caiu abaixo de 1% pela primeira vez na história.

Nos países ricos, os esforços econômicos têm procurado na maior parte acalmar os mercados financeiros. No dia 3 de março, o Federal Reserve (Banco Central americano) cortou os juros quinze dias antes da reunião (do Comitê) de sua política monetária, e em meio ponto percentual, corte considerado inusitadamente alto. Os bancos centrais da Austrália, Canadá e Indonésia também agiram. O Banco da Inglaterra e o Banco Central Europeu também deverão flexibilizar a sua política.

Entretanto, esta desaceleração não é uma crise econômica prevista nos manuais. A redução dos juros facilitará o custo dos empréstimos e dará mais confiança, mas todo o crédito barato não conseguirá impedir que as pessoas adoeçam. A política monetária não pode reparar a interrupção das cadeias de suprimentos ou tentar as pessoas ansiosas a se arriscarem a sair. Estas limitações óbvias ajudam a explicar por que motivo os mercados de ações não se recuperaram depois do corte do FED.

Será melhor respaldar a economia diretamente, ajudando as pessoas e as empresas afetadas a pagarem as contas e tomarem dinheiro emprestado, se precisarem. Para os indivíduos, a prioridade deveria ser o pagamento da assistência médica e a concessão de licenças médicas remuneradas. 

O governo Trump estuda a possibilidade de pagar as contas de alguns hospitais para as pessoas que têm o vírus. O governo do Japão cobrirá os salários dos pais que ficam em casa para cuidar dos filhos ou dos parentes; o de Cingapura ajudará os motoristas de táxis e seus chefes cujos funcionários foram afetados pela doença. E haverá necessidade de muitas outras iniciativas do gênero.

Para as companhias, o grande problema será a liquidez. E embora este choque não deva se igualar à crise financeira, este período mostrará como fazer frente a um aperto de liquidez. As empresas  que perdem faturamento terão de encarar as contas de impostos, salários e dos juros. Aliviar esta carga, enquanto a epidemia durar, poderá evitar falências e demissões desnecessárias. O perdão temporário dos impostos e dos custos dos salários poderá ajudar.

Os empregadores podem ser encorajados a optar pela redução dos expedientes para todos os seus empregados, em lugar de demitir alguns deles.

As autoridades poderão fundar bancos  para oferecer empréstimos a empresas com graves problemas, como fizeram durante a crise financeira e como a China está fazendo hoje.

A China  também está mandando aos bancos irem com calma com os devedores inadimplentes. 

Os governos ocidentais não podem fazer isto, mas é do interesse dos credores, em todas as partes do mundo, mostrar tolerância  para com os tomadores com aperto de caixa, assim como os bancos fizeram para os funcionários do setor público durante o fechamento do governo dos EUA em 2018-19.

 Existe tensão. A política da área de saúde visa poupar os hospitais baixando o pico da epidemia para que seja menos intensa, ainda que se prolongue. Por outro lado, a política econômica visa minimizar o período de fechamento das fábricas e a ausência da mão de obra. Os governo por fim terão de encontrar o justo equilíbrio. Entretanto, hoje, estão tão atrasados em relação à epidemia que a prioridade terá de ser reduzir o seu avanço. / Tradução de Anna Capovilla

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