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Obesos, diabéticos e loucos por doces

Pesquisas divulgadas nas últimas semanas revelam um perfil preocupante da população brasileira: estamos cada vez mais obesos, diabéticos e ávidos por doce. As consequências podem ser ainda mais graves nos próximos anos, com um número crescente de problemas de saúde para os brasileiros.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2016 | 03h00

O primeiro trabalho, feito pelo Imperial College London, do Reino Unido, mostra que um quinto da população adulta do Brasil é obesa, ou seja, mais de 30 milhões de pessoas. São 23% das mulheres e 18% dos homens. O País é o 3.º com maior número de homens obesos do mundo (atrás dos EUA e da China) e o 5.º com o maior número de mulheres obesas (atrás também de Índia e Rússia). 

Os pesquisadores analisaram dados de mais de 20 milhões de pessoas de 186 países entre 1975 e 2014. Foram classificados como obesos aqueles com índice de massa corporal (IMC) acima de 30. O valor é obtido pela divisão do peso (em quilos) pelo quadrado da altura (em metro). Os resultados foram publicados no periódico médico Lancet e divulgados pelo site da BBC Brasil. 

Já a pesquisa Inquérito de Saúde de Base Populacional (ISA Capital) revela que metade da população com mais de 12 anos de São Paulo tem excesso de peso (obesidade e sobrepeso). O trabalho avaliou mais de 4 mil moradores da cidade em 2015. A zona norte é a que tem a maior taxa (quase 54%) e a centro-oeste, a menor (pouco mais de 41%).

Umas das consequências desse excesso de peso é justamente a diabete. Não é à toa que dados da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2015, do Ministério da Saúde, divulgados na última semana, mostram que 7,5% dos brasileiros têm a doença atualmente. Mulheres e idosos são os mais afetados e Rio e Porto Alegre, as cidades mais atingidas pela diabete. No mundo, a doença quadruplicou desde 1980.

O maior acúmulo de gordura (pelo excesso de peso) aumenta a resistência do corpo à ação do hormônio insulina, que ajuda no transporte da glicose para dentro das células. Com isso, sobem as taxas de açúcar no sangue, o que tem efeito danoso para vasos e nervos de diversos tecidos (olhos, rins, coração, cérebro, etc.). Falta de atividade física regular e uma dieta inadequada (com muito doce, refrigerante e carboidratos) também têm papel no desencadeamento e manutenção da doença. Há casos, também, em que a causa da diabete é uma produção inadequada de insulina pelo pâncreas.

Doce que dói. No campo da alimentação entram mais dados preocupantes do Vigitel 2015. Cerca de 20% dos brasileiros afirmaram que comem doce cinco ou mais vezes por semana. Entre os mais jovens, esse número chega a quase 30%. Além disso, quase 20% da população toma refrigerantes ou sucos adoçados todos os dias. Bom lembrar que trabalhos atuais tendem a apontar o consumo de açúcar como uma espécie de dependência. Quanto maior a frequência de doce na dieta, maior o desejo de voltar a ingerir açúcar em curto intervalo de tempo, o que cria uma espécie de ciclo difícil de ser quebrado.

Para muitas pessoas, uma mudança nos hábitos de vida pode ser suficiente para reverter a tendência das taxas elevadas de glicose no sangue. Assim, praticar atividade física com frequência, fazer reeducação alimentar (com dieta mais saudável) e perder peso podem dar conta do recado. Por isso, a importância de conversar com médicos, nutricionistas e educadores físicos para uma abordagem mais completa. Em casos mais resistentes, o uso de remédios pode ser necessário como complemento. E aí? Vamos mudar esse quadro?

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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