DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

‘Objetivo é reduzir o atendimento do SUS na Santa Casa’

Candidato único em eleição nesta terça, ele defende aumento dos tratamentos particulares, renegociação de dívida e demissões

Entrevista com

José Luiz Egydio Setúbal

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

09 Junho 2015 | 03h00

Na visão do pediatra José Luiz Egydio Setúbal, de 58 anos, demitir funcionários e reduzir a 60% o porcentual de atendimentos feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), hoje na casa dos 95%, são medidas inevitáveis no processo de recuperação da Santa Casa de São Paulo, que acumula dívida de mais de R$ 400 milhões. 

O médico é candidato único à vaga de provedor da instituição após a renúncia do advogado Kalil Rocha Abdalla, investigado pelo Ministério Público Estadual (MPE) por supostas irregularidades na gestão. O novo líder da instituição será escolhido pelos cerca de 500 membros da Irmandade hoje. Como apenas Setúbal apresentou candidatura, bastam 70 votos para nomeá-lo. Em entrevista ao Estado, ele avalia a situação da entidade e indica as mudanças que pretende fazer.

A Santa Casa vive uma crise de credibilidade e tem dificuldades para contrair empréstimos. A troca de provedor muda algo?

Quando falamos de credibilidade, eu diria que é de pessoas. Para mim, a situação da Santa Casa é parecida com a da Petrobrás. Nas devidas proporções é o mesmo problema. Na hora em que você tem um grupo de pessoas que toma conta dessa instituição e ela começa a ir para as páginas policiais dos jornais, as pessoas perderam a credibilidade; a instituição, não. Quando as pessoas me procuraram para ser provedor, o que elas querem é a minha credibilidade. Eu, como gestor, posso fazer coisas diferentes do que estão sendo feitas lá, mas não muito diferentes. Os problemas da Santa Casa não serão resolvidos de um dia para o outro. Serão resolvidos no longo prazo.

Após a eclosão da crise, muitos passaram a pedir que o senhor assumisse a gestão da Santa Casa, proposta que rejeitava. Por que mudou de ideia?

Porque a pressão para que eu seja (provedor) é muito grande. Teve abaixo-assinado, conversa com várias pessoas. Infelizmente, tudo que foi dito durante a eleição para provedor (em 2014) acabou acontecendo. Eu não sou nenhum vidente. Qualquer pessoa que tem a mínima capacidade de análise veria que isso ia acontecer. Eu aceitei ser candidato, mas coloquei algumas condições. A primeira é que eu fosse candidato único, porque acredito que, para a Santa Casa se reerguer, precisa de um consenso. A segunda condição era conhecer os números da Santa Casa. Eles foram abertos para mim e eu tomei ciência do tamanho do problema. A terceira condição é que eu queria ouvir os três níveis de poder: federal, estadual e municipal.

E como foram as conversas?

A recuperação da Santa Casa exige uma estratégia e, para desenhá-la, eu preciso saber o objetivo. Vejo pelo menos dois cenários bem diferentes. Um é a Santa Casa se reduzir a um hospital local, para atender o bairro de Santa Cecília, Vila Buarque, centro. Outro é ela continuar sendo um hospital de nível terciário, quaternário, que recebe pacientes do Brasil inteiro. Cada um desses dois cenários opostos tem estratégias diferentes. Para saber qual estratégia, eu preciso saber o que o governo espera. A conversa foi muito nesses termos.

E o que eles esperam? Que mantenha o atendimento amplo?

Com certeza. Eles gostariam que mantivesse. Aí vem a segunda parte da conversa. Como fazer? A Santa Casa é uma entidade privada. Como fazer que ela se mantenha em nível de excelência, se eu não estou conseguindo fechar as contas? O governo não tem dinheiro. A situação econômica do País é de estagnação, então nenhum nível de governo tem dinheiro. Então eu não espero que o governo me dê dinheiro, eu espero que ele me dê condições para que eu supere uma crise, ou seja, vamos renegociar a dívida com a Caixa Econômica.

Como avalia as gestões do ex-provedor Kalil?

Eu fiz parte dessa gestão, eu era da Mesa Administrativa em duas das três gestões dele. Nós pedíamos os dados financeiros em todas as reuniões e não eram passados. Certamente não era por ingenuidade. Agora, não cabe a mim julgar, não sou juiz, não sou polícia. O Ministério Público está investigando. Se o doutor Kalil fez coisas erradas, vai ser penalizado. Se abriram o sigilo bancário de 20 e tantas pessoas, imagino que sejam suspeitas. Eu posso julgar a gestão dele, que acho que foi ruim. E me parece que, do ponto de vista administrativo, é muito ruim. Transformar a dívida de R$ 70 milhões em mais de R$ 400 milhões em seis anos é ineficiência muito grave.

Sabemos que há problemas de financiamento do SUS com os hospitais conveniados, mas os governos dizem que a Santa Casa recebe mais do que produz. Qual é o problema, afinal? Falta de recurso ou má gestão?

Vou te responder com outra pergunta: como é que existem hospitais de excelência que atendem SUS e conseguem sobreviver? Pega o AC Camargo, o Incor, outros hospitais. O subfinanciamento do SUS é claro e evidente, nem vou discutir. Só que, segundo o ministro Arthur Chioro, a Santa Casa de São Paulo recebe quase três vezes a tabela SUS. Quando a gente fala de subfinanciamento do SUS, uma coisa é falar do hospital de Tiririca da Serra, outra coisa é falar da Santa Casa de São Paulo. Eu não sei se três vezes a tabela SUS é suficiente para cobrir os custos. Sei que existem hospitais que atendem 60% do SUS e são saudáveis.

Então reduzir o porcentual de atendimento SUS é uma medida fundamental na Santa Casa?

Vou dar mais uma razão para ficarem me chamando de banqueiro, mas é (fundamental). Não existe jeito de a Santa Casa ou qualquer hospital SUS viver sem subvenção, sem atendimento privado. No caso da Santa Casa, é um hospital privado e tem, por direito, para receber os benefícios, atender 60% do SUS, eu acho que esse seria o objetivo.

Vai tentar um novo modelo de gestão?

É imprescindível. A recuperação da Santa Casa não é nada para os próximos cinco anos. Eu pretendo sair com uma instituição em fase de recuperação, mas que não vai ter pago a dívida, não vai ter recuperado o vigor que ela tinha alguns anos atrás.

Algumas medidas do atual superintendente, Irineu Massaia, estão no caminho certo?

A distância, parece que sim.

Ele, por exemplo, propôs um corte de funcionários...

Provavelmente vai ter de acontecer...

Mas a Mesa Administrativa suspendeu...

Porque não tinha como pagar a indenização. Não tenho dúvida de que vão falar que sou banqueiro, insensível, sem coração, que está cortando tudo, mas faz parte. Se eu não quisesse ouvir isso, não aceitaria ser candidato. E por que eu aceito, sabendo de tudo isso? Porque para mim a Santa Casa é uma causa, uma missão, no sentido que eu fico muito triste em ver a Santa Casa fechar. O hospital não vai fechar, mas a Irmandade pode fechar. E se isso acontecer, é a falência de nós como sociedade. A Santa Casa é vítima do nepotismo, da ineficiência. Se eu conseguir melhorar alguma coisa na Santa Casa, que seja melhorar essa cultura.

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