Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Cresce ocupação de leitos de UTI e volta ao cenário de abril preocupa em São Paulo

Lotação subiu 7,5% em apenas uma semana; falta de oxigênio e kit de intubação não está totalmente superada

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 12h25

SOROCABA – A ocupação dos leitos de UTI para covid-19 voltou a aumentar no estado de São Paulo trazendo de volta o risco de um colapso nos hospitais como aconteceu em abril deste ano. O número de leitos ocupados na rede hospitalar privada cresceu 7,5% desde o final de abril, segundo pesquisa do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios (SindHosp). Nesta terça-feira, 18, várias cidades do interior voltaram a registrar pacientes à espera de leitos de suporte avançado. Para a infectologista Raquel Stucchi, da Unicamp, com a vacinação muito lenta e uma grande circulação do vírus, há chance de voltar à situação de colapso nos hospitais vivida pelo estado no mês de abril.

A pesquisa do SindHosp, realizada entre 11 e 17 de maio em 90 dos maiores hospitais, mostrou que 85% deles já têm ocupação superior a 80%. Na pesquisa anterior, em 30 de abril, esse nível de lotação acontecia em 79% dos hospitais. A pesquisa mostrou que, entre aqueles mais lotados, 39% possuem ocupação entre 91% e 100%, enquanto 46% oscilam entre 81% e 90%. Para o presidente do SindHosp, médico Francisco Balestrin, esse aumento preocupa, pois pode indicar tendência de alta nos casos de covid-19. "Também nos preocupa o ritmo lento das vacinações e a falta de vacinas, o que obriga a rede de saúde a ficar alerta para atender novos casos", disse.

O sindicato dos hospitais lançou a campanha "Conscientiza Sim", usando a poesia em formato de rap com o rapper Fábio Brazza para sensibilizar a população para manter as medidas preventivas, como o uso de máscara e o distanciamento social. "Os hospitais precisam de tempo para se reorganizarem a fim de se prepararem para receber novos doentes. Como os governos não fizeram campanhas públicas maciças de conscientização, estamos lançando nossa campanha", disse. As peças estão sendo veiculadas em todas as plataformas de streaming e redes sociais do SindHosp.

Falta de kit

A pesquisa, que ouviu 90 hospitais privados, com 8.713 leitos clínicos e 4.091 leitos de UTI em todo o estado, mostrou que o sufoco por falta de oxigênio e kit de intubação não está totalmente superado. Em 58% dos hospitais, o estoque de kit intubação dá para até 15 dias. Destes, 24% têm estoque só para dez dias e 6% para até uma semana. Segundo o sindicato, a reposição é feita lentamente pela indústria e parte dos hospitais já importa os medicamentos. Apenas 30% têm estoque para mais de um mês.

Quanto ao oxigênio, em 51% o estoque dá para 15 dias, mas 14% têm oxigênio para no máximo dez dias. Nos últimos dez dias, 86% dos hospitais apontaram aumento no preço dos medicamentos, sendo que 31% informaram alta de até 100%, enquanto 26%, aumentos ainda maiores. A pandemia levou 63% dos hospitais a cancelarem cirurgias eletivas (não urgentes). O percentual é o mesmo de hospitais que afastaram colaboradores por problemas de saúde. Em 53% o número de pacientes superou a capacidade de atendimento, em 38% faltaram profissionais de saúde e em 34% houve falta de médicos.

À espera de leitos

Segundo Stucchi, a pesquisa do SindHosp revela uma situação preocupante. "Além desses dados, hoje (18) houve um levantamento apontando mais de 230 pacientes no estado de São Paulo aguardando leito de UTI, principalmente em cidades menores. O que aconteceu é que a opção de flexibilização foi tomada em um momento em que houve uma melhora discreta dos números de casos e da taxa de ocupação de leitos, mas ainda não temos vacina suficiente e há uma grande circulação do vírus e de variantes", disse.

Raquel se referia a um levantamento da GloboNews apontando mais de 1,5 mil pessoas na fila por um leito de UTI, das quais 237 no estado de São Paulo. A reportagem do Estadão confirmou pacientes à espera de transferência para cidades com suporte avançado em Boituva, Conchas, Ibiúna e Porangaba. Para algumas dessas cidades, a principal referência, o Hospital das Clínicas de Botucatu, estava nesta terça-feira, 18, com 107% de ocupação, ou seja, tinha 43 pacientes na UTI, com capacidade para 40.

Um dos principais hospitais públicos do interior, o HC de Botucatu passou a atuar com 40 leitos de UTI covid em março deste ano - antes eram 30 - e mesmo com dez leitos a mais, atende acima da capacidade. "Entre 30 de abril e hoje, 18, chegamos a ter por alguns dias 117% de ocupação, ou seja, sete a mais, além da nossa capacidade", informou a assessoria.

O hospital é referência para mais de vinte municípios da região. A cidade ficou conhecida por ter realizado, no domingo, 15, a vacinação em massa de 66 mil moradores com a primeira dose da vacina AstraZeneca, em projeto para avaliar a eficácia do imunizante. Desde o início da pandemia, a UTI covid do hospital teve 995 pacientes internados, dos quais 43 ainda estão em seus leitos, 601 tiveram alta e 351 morreram.

Ocupação cresce

Entre as principais cidades do interior, Campinas, Sorocaba, Presidente Prudente e Araraquara registraram aumento recente na ocupação de UTI covid. Em Campinas, a ocupação de UTIs públicas e privadas passou de 80,9% no final de abril para 82,8% nesta segunda-feira. Presidente Prudente também registrou pequena oscilação nesse período, de 93,5% para 93,9% - índice bastante elevado. Os três maiores hospitais privados de Sorocaba - Unimed, Samaritano e Evangélico - mantiveram 100% de ocupação dos leitos de UTI desde 30 de abril até esta segunda-feira. Na rede pública, no entanto, a ocupação aumentou, no mesmo período, de 78,5% para 79,5%.

Houve queda em São José dos Campos, de 81% para 76%; em Santos, de 73% para 65%, e em Bauru, de 104% para 97%. Nas três cidades, no entanto, foi registrado aumento nos casos graves nos últimos dias. Em Araraquara, que em fevereiro decretou lockdown e confinou os moradores durante dez dias, resultando em queda nos casos, internações e mortes, a ocupação de leitos de UTI também voltou a subir. Em 30 de abril, 90% dos leitos estavam com pacientes; nesta segunda-feira a taxa era de 93%. A prefeitura informou que grande parte dos pacientes internados foi transferida de municípios vizinhos e que monitora a situação para, se for o caso, adotar novas medidas de controle.

A pesquisadora da Unicamp disse que a reabertura das atividades aconteceu muito cedo. "As medidas que foram propostas por nós, infectologistas e epidemiologistas, era de que se fizesse algo mais drástico no sentido de uma restrição mais importante na circulação das pessoas, por um período mais prolongado, de duas semanas no mínimo. Essas medidas têm por objetivo diminuir de fato a circulação do vírus e, aí sim, ter uma flexibilização feita de forma gradual e com resultados mais duradouros, como a gente viu com a experiência de Araraquara."

Ela apontou que os números que justificaram a flexibilização agora são parecidos com os que levaram às medidas drásticas tomadas para a contenção do vírus em maio do ano passado. "Com qualquer melhora discreta, a opção do gestor já é flexibilizar e a gente corre o risco de ficar nesse abre e fecha que é ruim para as pessoas, péssimo para a saúde, para os profissionais da saúde e péssimo para a economia também. São medidas que fazem um agrado temporário na população, mas expõem todos a um risco muito grande. A gente ficou num platô muito alto de casos e de internações e preocupa demais o risco de um recrudescimento."

Resposta

A Secretaria da Saúde do Estado informou que, desde 30 de abril, a rede de saúde do estado apresentou queda de 6% no número de novas internações diárias pela doença. "Também apresenta queda a taxa de ocupação estadual de leitos de UTI, com 78,5% nesta terça, 18, contra 79,1% em 30 de abril. Neste mesmo período, o número de pacientes internados por dia se manteve estável", disse em nota. Informou ainda que a pasta mantém o monitoramento do cenário da covid-19 em todas as regiões do estado de forma contínua e diária.

Sobre os pacientes à espera de leitos de UTI, a Secretaria disse que a demanda é descentralizada na rede, considerando que há regulações municipais ou regionais, com os respectivos serviços de referência para sua área de abrangência. "A Cross (Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde) regulou, até abril, mais de 246,7 mil casos de covid-19 em toda a pandemia. A demanda por UTI corresponde a 35% desse total. Seu papel não é criar leitos, mas auxiliar na identificação de uma vaga no hospital mais próximo e apto a cuidar do caso. Nenhuma negativa (de internação) parte deste serviço, que é apenas intermediário. Cada solicitação é avaliada por médicos reguladores, sendo crucial a atualização do quadro clínico, estabilização e deslocamento seguro do paciente", afirmou.

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