REUTERS/Siphiwe Sibeko
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Ômicron: Maioria das vacinas provavelmente não impedirá infecção, mas pode evitar casos graves

Maioria das evidências até agora se baseia em experimentos de laboratório, que não capturam toda a gama da resposta imunológica do corpo. Mas, ainda assim, os resultados são alarmantes, apontam especialistas

Stephanie Nolen, The New York Times

20 de dezembro de 2021 | 15h00

Um crescente corpo de pesquisas preliminares sugere que as vacinas contra a covid utilizadas na maior parte do mundo quase não oferecem defesa contra a infecção pela variante Ômicron, que é altamente contagiosa.

Todas as vacinas ainda parecem fornecer um grau significativo de proteção contra formas graves da doença causadas pela Ômicron, que é o objetivo mais importante. Mas apenas as vacinas da Pfizer e da Moderna, quando completadas por uma dose de reforço, parecem ter sucesso inicial em barrar as infecções, e essas vacinas não estão disponíveis na maior parte do mundo.

As outras vacinas – entre elas as da AstraZeneca, Johnson & Johnson e vacinas fabricadas na China e na Rússia – fazem pouco ou nada para impedir a disseminação da Ômicron, mostram as primeiras pesquisas. E como a maioria dos países construiu seus programas de inoculação em torno dessas vacinas, a lacuna pode ter um impacto profundo no curso da pandemia.

Uma onda global de infecções em um mundo onde bilhões de pessoas continuam sem vacina não só ameaça a saúde de indivíduos vulneráveis, mas também aumenta a oportunidade para o surgimento de ainda mais variantes. A diferença na capacidade de resistência dos países diante da pandemia quase certamente se agravará. E as notícias sobre a eficácia limitada das vacinas contra a infecção por Ômicron podem diminuir a demanda por vacinação em todo o mundo em desenvolvimento, onde muitas pessoas já estão hesitantes ou preocupadas com outros problemas de saúde.

A maioria das evidências até agora se baseia em experimentos de laboratório, que não capturam toda a gama da resposta imunológica do corpo e não rastreiam o efeito em populações do mundo real. Mas, ainda assim, os resultados são alarmantes.

As doses da Pfizer e da Moderna usam a nova tecnologia de RNA mensageiro, a qual oferece consistentemente a melhor proteção contra infecções de todas as variantes. Todas as outras vacinas se baseiam em métodos mais antigos para desencadear resposta imunológica.

As vacinas chinesas Sinopharm e Sinovac – que representam quase metade de todas as vacinas administradas globalmente – oferecem proteção quase nula contra a infecção por Ômicron. A grande maioria das pessoas na China recebeu essas injeções, que também são amplamente utilizadas em países de baixa e média renda, como México e Brasil.

Um estudo preliminar de eficácia na Grã-Bretanha descobriu que a vacina Oxford-AstraZeneca não mostrou capacidade de interromper a infecção por Ômicron seis meses após a aplicação. Noventa por cento das pessoas vacinadas na Índia receberam esta vacina, sob a marca Covishield; esta também tem sido amplamente utilizada em grande parte da África subsaariana, onde o Covax, o programa global de vacinas contra a covid, distribuiu 67 milhões de doses para 44 países.

Os pesquisadores preveem que a vacina russa Sputnik, que também está sendo usada na África e na América Latina, apresentará taxas semelhantes de proteção contra a Ômicron.

A demanda pela vacina Johnson & Johnson vem aumentando na África, porque seu regime de aplicação de dose única facilita a aplicação em locais com poucos recursos. Mas também mostrou capacidade insignificante de barrar a infecção por Ômicron.

Os anticorpos são a primeira linha de defesa induzida pelas vacinas. Mas as injeções também estimulam o crescimento de células T, e estudos preliminares sugerem que essas células T ainda reconhecem a variante Ômicron, o que é importante na prevenção de doenças graves.

"O que você perde primeiro é a proteção contra infecções leves assintomáticas, o que você retém muito mais é a proteção contra doença grave e morte", disse John Moore, especialista em vírus da Weill Cornell Medicine, em Nova York. Ele caracterizou como "uma fresta de esperança" o fato de a Ômicron até agora parecer menos letal do que a variante Delta.

Mas essa proteção não será suficiente para evitar que a Ômicron cause um transtorno global, disse J. Stephen Morrison, diretor do Centro de Políticas de Saúde Global do Center for International and Strategic Studies.

"A escala da infecção por si só sobrecarregará os sistemas de saúde, simplesmente porque o denominador será potencialmente muito grande", disse ele. "Se você tem um surto de infecção em todo o mundo, um choque, como é que o mundo vai ficar? Será 'a guerra acabou' ou 'a guerra acaba de entrar numa nova fase'? Ainda não começamos a pensar em nada disso."

Pessoas com casos positivos podem ter apenas infecção assintomática ou doença leve, mas são capazes de transmitir o vírus para pessoas não vacinadas, as quais correm o risco de ficar gravemente doentes e de se tornar fonte de novas variantes.

O Dr. Seth Berkley, CEO da Gavi, a aliança global de vacinas, disse que são necessários mais dados para tirar conclusões sobre a eficácia das vacinas contra a Ômicron – e que a vacinação acelerada deve continuar a ser o foco da resposta à pandemia.

Dados preliminares da África do Sul sugerem que, com a Ômicron, há uma chance muito maior de pessoas que já tiveram covid serem reinfectadas do que com o vírus original e variantes anteriores. Mas alguns especialistas em saúde pública dizem acreditar que países que já passaram por ondas violentas de covid, como Brasil e Índia, podem ter alguma defesa contra a Ômicron, e a vacinação após a infecção produz altos níveis de anticorpos.

"A combinação de vacinação com exposição ao vírus parece ser mais forte do que apenas a vacina", disse Ramanan Laxminarayan, pesquisador de saúde pública em Nova Delhi. A Índia, observou ele, tem uma taxa de vacinação de adultos de apenas cerca de 40%, mas 90% de exposição ao vírus em algumas regiões.

"Sem dúvida, a Ômicron vai inundar a Índia", disse ele. "Mas espero que o país esteja protegido até certo ponto, por causa da vacinação e da exposição."

A China não tem essa camada de proteção para ajudar suas vacinas fracas. Por causa dos esforços agressivos para impedir a propagação do vírus dentro de suas fronteiras, relativamente poucas pessoas foram expostas anteriormente. Estima-se que apenas 7% das pessoas em Wuhan, onde a pandemia começou, foram infectadas.

Grande parte da América Latina confiou nas vacinas chinesas e russas e na AstraZeneca. Mario Rosemblatt, professor de imunologia da Universidade do Chile, disse que mais de 90% dos chilenos haviam tomado duas doses de vacina, mas a grande maioria delas era Coronavac, a vacina da Sinovac. A alta cobertura vacinal combinada com os primeiros relatos de que a Ômicron não causa doenças graves está levando a uma falsa sensação de segurança no país, disse ele.

"Precisamos fazer as pessoas entenderem que não é assim que funciona: se tivermos alta transmissibilidade, o sistema de saúde ficará saturado porque o número de pessoas adoecendo será maior", disse ele.

O Brasil recomendou que todas as pessoas vacinadas recebessem uma terceira dose e começou a usar a vacina da Pfizer para todos os reforços, mas apenas 40% dos vacinados compareceram para receber a injeção extra. O Dr. Amilcar Tanuri, especialista em vírus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, disse com cauteloso otimismo que os altos níveis de exposição anterior à covid podem diminuir o impacto da Ômicron, mas observou que os brasileiros mais vulneráveis, vacinados primeiro, tomaram Coronavac e dezenas de outros milhões receberam AstraZeneca.

Morrison qualificou a capacidade da Ômicron de escapar à proteção da vacina como "um grande revés" para os países de baixa e média renda, onde, longe de qualquer discussão sobre doses de reforço, o foco ainda está na distribuição das primeiras doses.

"O mundo fica dividido em duas partes", ele disse. "São aqueles que têm um caminho rápido para as doses de reforço contra aqueles que tiveram um progresso muito limitado e de repente estão sujeitos a este novo açoite."

Apenas 13% das pessoas na África receberam pelo menos uma dose da vacina contra a covid.

Laxminarayan disse que o governo indiano, do qual ele é conselheiro ocasional, estava avaliando a possibilidade de distribuir doses de reforço, mas a variante Delta ainda representa uma ameaça significativa na Índia, e duas doses de vacina oferecem proteção contra a cepa. Isso representa uma escolha difícil para o governo: concentrar-se em levar duas doses para pessoas que continuam não vacinadas ou apenas parcialmente vacinadas, ou tentar aplicar doses de reforço em idosos e pessoas com condições médicas de alto risco, para protegê-los da Ômicron?

A notícia de que as vacinas sem RNA mensageiro oferecem pouca proteção contra a infecção por Ômicron pode prejudicar ainda mais a demanda por vacinas em países que já estão com dificuldades, disse Morrison.

"Esse fato questiona todo o valor das vacinas", disse ele. "Para quem já está atrasado, vai alimentar o sentimento antivacina e enfraquecer a confiança."

Tolbert Nyenswah, pesquisador sênior da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, disse que a ameaça emergente aos países do sul global que contam com vacinas que não são de RNA mensageiro era uma prova do fracasso dos países ricos em compartilhar essa tecnologia e ajudar a aumentar a produção em países de baixa e média renda.

Como consequência, variantes perigosas continuarão a emergir de regiões com baixa cobertura vacinal e prolongarão a pandemia, previu Nyenswah, que foi vice-ministro da Saúde da Libéria durante o pior surto de ebola no país.

Berkley, da Gavi, disse que seria um erro grave de parte dos países abrandar o impulso da vacinação ou presumir que só vale a pena distribuir vacinas de RNA mensageiro.

"Podemos estar vendo uma situação em que os países dizem: 'Se os países desenvolvidos não querem essas vacinas, também não queremos'", disse ele. "Seria uma interpretação errada, é claro, uma vez que essas vacinas previnem contra doenças graves e morte."

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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