OMS admite falhas no combate ao Ebola na África Ocidental

OMS admite falhas no combate ao Ebola na África Ocidental

Em documento, entidade reconhece que sua burocracia atrapalha e diz que chefes de escritórios na África são indicações políticas

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2014 | 11h51

Atualizada às 21h50

GENEBRA - O vírus do Ebola proliferou graças à incompetência da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ao fato de a entidade ter diretores na África colocados por motivos políticos em seus cargos. Documentos revelados nesta sexta-feira, 17, em Genebra destacaram ainda que a OMS foi alertada por ONGs e médicos de que a crise era importante. Mas optou por minimizar o assunto. Agora, o vazamento das informações abriu uma séria crise dentro da organização. 

A entidade Médicos Sem Fronteiras já vinha acusando a OMS de se recusar a admitir a dimensão do problema na África, enquanto centenas de pessoas eram contaminadas. Diplomatas em Genebra afirmaram ao Estado que os dados apenas escancaram a crise de qualidade que vive o sistema da ONU e como a entidade atende a interesses políticos - nem sempre médicos. Nesta sexta, a entidade publicou novos números da doença, indicando a existência de 9,2 mil infectados e 4,5 mil mortes. 

Em documento interno, a OMS reconheceu que não agiu antes por incompetência. “Praticamente todos os envolvidos na resposta ao surto falharam em ver coisas óbvias”, diz. Outra constatação é de que a lentidão foi em parte um problema burocrático e funcionários em seus escritórios na África só estão lá por interesses políticos. Um deles seria Luis Sambo, diretor-geral da OMS na África. 

No texto vazado, ainda fica claro que o escritório da OMS na Guiné se recusou a ajudar inicialmente no combate à doença. O escritório dificultou a obtenção de vistos para os especialistas e bloqueou US$ 500 mil para a resposta imediata. 

Peter Piot, que ajudou na descoberta do Ebola, afirma que a OMS foi lenta principalmente por causa da organização regional na África. “Eles não fizeram nada. Aquele escritório não é realmente competente”, diz. O médico ainda questiona o motivo de a OMS levar cinco meses e esperar por mil mortos antes de declarar o Ebola como uma emergência de saúde internacional, em agosto. “Eu pedi para que declarassem estado de emergência em julho”, atestou. Piot acredita que a demora da OMS pode estar relacionada às críticas que a entidade sofreu em 2009, durante a gripe suína, por ter amplificado temores. 

Foi apenas em junho que a cúpula da OMS passou a ter conhecimento dos obstáculos na gestão da crise atual. Em um e-mail, o subdiretor da entidade, Bruce Aylward, alertou a diretora Margaret Chan sobre o caos na operação. Segundo ele, existia a percepção de que a OMS “estava atrapalhando mais do que ajudando”. O documento aponta que ela ficou “chocada”. Uma resposta coordenada da OMS apenas começou a ser implementada em 1.º de outubro. 

Afastamento. Porta-vozes da OMS que haviam minimizado em maio o problema foram afastados extraoficialmente, enquanto uma pressão por uma auditoria começa a ganhar força. Governos ainda evitam dar contribuições financeiras para a entidade e preferem apostar em ações diretas com os países afetados ou ONGs. Do fundo criado pela ONU para lutar contra o Ebola, só 32% do dinheiro chegou. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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