Christopher Black/OMS/Reuters
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, e o presidente do comitê de emergência, Didier Houssin, durante reunião do grupo Christopher Black/OMS/Reuters

OMS declara emergência de saúde pública global por surto de coronavírus

Entidade tomou decisão após nova reunião com comitê de especialistas; casos confirmados da doença passam de 9,6 mil, com 213 mortos

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2020 | 16h46
Atualizado 30 de janeiro de 2020 | 21h50

SÃO PAULO - A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou nesta quinta-feira, 30, emergência de saúde pública de interesse internacional pelo surto do novo coronavírus. Identificado pela primeira vez em dezembro, na China, o vírus já infectou mais de 9,6 mil pessoas, das quais 213 morreram.

A decisão foi tomada pela diretoria da entidade após a consulta a um comitê formado por especialistas de todo o mundo, que se reuniu por mais de sete horas na tarde desta quinta, em Genebra. Apesar de declarar emergência global, a OMS decidiu não recomendar medidas restritivas de viagem e comércio entre os países.

O comitê de emergência já havia se reunido duas vezes na semana passada, mas, na ocasião, chegou à conclusão de que “era muito cedo” para declarar alerta global. O argumento foi de que, embora já configurasse uma emergência na China, o surto ainda estava muito localizado e não representava uma ameaça internacional. 

O cenário, no entanto, se agravou na última semana. Embora mais de 98% das infecções tenham sido registradas em território chinês, o número de países com casos confirmados vem aumentando todos os dias.

Já são 19 nações além da China com registros da infecção. Em quatro delas delas (Alemanha, Japão, Vietnã e Estados Unidos), o vírus contaminou pessoas que não estiveram em território chinês, o que indica transmissão interna nesses locais, cenário que aumenta o risco de propagação global. Esse foi o motivo pelo qual o diretor-geral da OMS decidiu reconvocar o comitê de emergência. 

Durante entrevista coletiva para jornalistas na qual o anúncio de emergência foi feito, o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que, por mais que o número de casos em outros países ainda seja pequeno (82 registros), é necessária uma ação coordenada entre os países.

"Embora esse número seja relativamente pequeno em comparação com o registrado na China, devemos agir juntos agora para limitar uma futura propagação. Não sabemos o tipo de dano que esse novo coronavírus pode causar se ele se espalhar por um país com um sistema de saúde mais frágil. Precisamos agir agora para ajudar os países a se preparar para essa possibilidade. Por todas essas razões, declaro emergência de saúde pública de interesse internacional", declarou Ghebreyesus.

Sobre a decisão de não impor medidas restritivas de deslocamento, o diretor afirmou que "não há necessidade" de definir medidas desnecessárias que interfiram nas viagens e comércio internacionais. "Pedimos a todos os países que implementem decisões consistentes e baseadas em evidências. A OMS está à disposição para aconselhar qualquer país que esteja avaliando quais medidas tomar", afirmou.

O presidente do comitê de emergência, Didier Houssin, afirmou que, com a declaração de emergência, a OMS poderá questionar os países que já adotaram medidas restritivas sobre os motivos da decisão. Várias nações já iniciaram triagens de viajantes em aeroportos para detectar possíveis sintomas e retiraram seus cidadãos da região de Wuhan, epicentro do surto.

Elogios à China

Em seu pronunciamento, o diretor-geral da OMS ressaltou diversas vezes os esforços do governo chinês em conter a epidemia, numa clara intenção de não causar mal-estar político com o país mais populoso do mundo, peça fundamental para a economia mundial.

"O governo chinês deve ser parabenizado pelas medidas extraordinárias que vem tomando para conter o surto de coronavírus apesar do severo impacto socioeconômico que essas medidas estão tendo na população chinesa. Nós estaríamos vendo muito mais casos fora da China - e provavelmente mortes - se não fossem os esforços do governo chinês e o progresso que fizeram para proteger a população chinesa e mundial", disse.

Em diferentes momentos, Ghebreyesus destacou a rapidez que a China adotou medidas de resposta ao surto e afirmou que a declaração de emergência não está relacionada a uma resposta insuficiente do governo do país asiático.

"A velocidade com que a China detectou o surto, isolou o vírus, sequenciou o seu genoma e compartilho isso com a OMS e com o mundo é muito impressionante, assim como seu compromisso com a transparência e o apoio a outros países", afirmou. "Essa declaração não é um voto de não confiança na China. Ao contrário, a OMS continua a ter confinaça na capacidade da China de controlar o surto", afirmou.

O que significa uma emergência de saúde pública global?

Segundo o Regulamento Sanitário Internacional da OMS, acordo legal que envolve 196 países, uma emergência de saúde pública de interesse internacional é definida como “um evento extraordinário determinado que constitui um risco de saúde pública para outros Estados por meio da disseminação internacional de doenças e por potencialmente exigir uma resposta internacional coordenada”.

Quando uma emergência internacional é declarada, esforços sanitários, financeiros e científicos são ampliados para tentar conter o avanço da doença. Geralmente também são definidas diretrizes sobre quais medidas restritivas os países devem adotar quanto a viagens e comércio.

Ao declarar emergência pelo coronavírus, o diretor-geral da OMS listou as seguintes recomendações aos países:

- Não limitar o comércio e as viagens

- Apoiar países com sistemas de saúde mais fracos

- Acelerar o desenvolvimento de vacinas, tratamentos e diagnósticos

- Combater a disseminação de rumores e desinformação

- Revisar os planos de preparação, identificar lacunas e avaliar os recursos necessários para identificar, isolar e cuidar de casos, e impedir a transmissão para outras pessoas

- Compartilhar dados, conhecimentos e experiências com a OMS e o mundo

- Trabalhar juntos com solidariedade e cooperação

Esta é a sexta vez na história que a OMS declara esse status de emergência. A primeira vez foi durante o surto de gripe H1N1, em 2009. Motivaram ainda a declaração de emergência as epidemias de poliomielite (2014), zika (2016) e Ebola (duas vezes, em 2014 e 2019).

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Surto de coronavírus ainda vai piorar antes de começar a melhorar', diz epidemiologista americano

Um dos maiores especialistas do mundo em coronavírus, Arnoldo Monto já foi consultor da OMS. Para ele, no entanto, situação de agora não será tão grave quanto o quadro da Sars, há 17 anos

Entrevista com

Arnold Monto, professor de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 05h00

RIO - Professor de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Michigan (EUA), Arnold Monto é considerado um dos maiores especialistas do mundo em coronavírus. Ele trabalhou em Pequim durante a epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars, na sigla em inglês), entre 2002 e 2003, e já trabalhou também como consultor da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em entrevista ao Estado por telefone, Monto afirmou que o atual surto do novo coronavírus surgido na China "ainda vai piorar antes de começar a melhorar". Segundo o especialista, o vírus deve se espalhar por vários países - já houve confirmação de infectados em pelo menos 15 nações. Ele acredita, no entanto, que a nova epidemia não deverá ser tão devastadora quanto a de Sars, há 17 anos, quando cerca de 800 pessoas morreram em todo o mundo. Leia a entrevista:

Faz 17 anos que outro coronavírus, causador da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), surgiu na China, deflagrando uma epidemia mundial que contaminou 8 mil pessoas e matou cerca de 800. Qual a perspectiva para este novo coronavírus?

Provavelmente não será tão devastador. Mas ainda vai piorar antes de começar a melhorar.  A boa notícia é que depois da experiência com a Sars, já sabemos o que deve ser feito em termos de medidas de saúde pública, como isolamento e quarentena, uma vez que também não há vacina nem remédio contra o vírus. No entanto, hoje, temos muito mais viagens internacionais do que tínhamos em 2003, o que facilita a disseminação da doença. Provavelmente vamos continuar tendo novos casos em diferentes países e, certamente, em todas as grandes cidades da China.

Houve mais casos sendo registrados agora, nos primeiros dias desta epidemia, do que no início do surto de Sars, em 2003. Isso é indicativo de uma transmissão mais rápida?

Não necessariamente. Em 2003 só conseguíamos identificar os casos mais graves. Agora, conseguimos identificar também os casos mais brandos. A tendência é que os números aumentem mesmo.

O senhor acha, então, que é praticamente impossível impedir que os casos cheguem em nossos países?

Acho que vamos ter o registro de muitos casos saindo da China por um bom tempo. Mas se tivermos o cuidado de impedir muitas transmissões dentro dos nossos países, conseguiremos controlar a propagação do vírus. Identificar casos suspeitos e tratar casos potenciais é o caminho. Essa é a minha previsão.

O senhor mencionou medidas de saúde pública para conter a transmissão, como a quarentena. Numa medida que não era vista há pelo menos um século, a China isolou Wuhan, uma cidade de 11 milhões de habitantes. No entanto, isso parece não ter funcionado....

Infelizmente não foi cedo o suficiente. O vírus já se espalhou para as grandes áreas do país.

Em princípio, a taxa de letalidade do novo coronavírus é de 3%, mais baixa que a da gripe. Por que está todo mundo tão preocupado?

Não sabemos ao certo se a taxa de letalidade é essa. Como eu disse, diferentemente do que aconteceu na Sars, quando só foram diagnosticados os casos mais graves, desta vez estamos pegando também os menos graves (o que pode alterar significativamente a taxa de letalidade). Como no caso da influenza, os mais velhos e com baixa imunidade são mais vulneráveis. Mesmo a taxa de letalidade não sendo muito alta, queremos evitar que o vírus se espalhe e muita gente fique doente. Se isso acontecer, o número de mortes pode ser muito alto. Só na China tem mais de um bilhão de pessoas. Uma outra questão em relação à gripe é que, em princípio, o novo coronavírus pode ser transmitido muito antes de os primeiros sintomas aparecerem e o período de incubação parece ser bem maior (o que facilitaria a disseminação). Acho que dentro de poucos dias teremos isso mais bem estabelecido pelos chineses. Mas não é caso de entrarmos em pânico.

A grande maioria dos novos vírus respiratórios surge na China. E já está bem estabelecido que isso acontece por conta da forma como os chineses criam animais (em conjunto e em espaços confinados) e os comercializam. Nada pode ser feito sobre isso?

Sim, enquanto essa situação (do confinamento de animais) continuar, vamos ter casos assim. É parte de um problema social. Há muitas questões sobre as comidas e as formas de lidar com os animais com as quais os chineses terão que lidar. Vai ser interessante observar esse movimento.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

Coronavírus: estamos próximos de uma pandemia? Ouça no podcast Estadão Notícias

Encontrou algum erro? Entre em contato

Austrália desenvolve coronavírus em laboratório e pode acelerar vacina

Pesquisadores prometem compartilhar a amostra; China e Rússia trabalham juntas para criar um imunizante

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 13h15

MELBOURNE - Uma equipe de cientistas australianos informou nesta quarta-feira, 29, que desenvolveu uma versão de laboratório do novo coronavírus, a primeira a ser recriada fora da China, em uma descoberta que pode acelerar a criação de um vacina contra o vírus.

Os pesquisadores do Instituto Peter Doherty para Infecção e Imunidade, em Melbourne, disseram que compartilhariam a amostra, desenvolvida a partir de um paciente infectado, com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e laboratórios de todo o mundo.

"Este é um passo, é uma peça do quebra-cabeça com a qual contribuímos", disse o vice-diretor do instituto, Mike Catton.

Ele pontuou que, sozinha, a amostra não venceria a luta contra o vírus. O surto de coronavírus irrompeu na cidade de Wuhan, na região central da China, no fim de 2019. Embora o país tenha isolado boa parte da província de Hubei, cujo volume populacional se assemelha ao da Itália, o vírus já se alastrou para outros países.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

Um laboratório chinês já cultivou o vírus, mas divulgou apenas a sequência de genoma, não a amostra em si, de acordo com a rede de televisão pública Australian Broadcasting Corp. Além de contribuir para a criação de uma vacina, a amostra cultivada na Austrália poderia ser usada para gerar um teste de anticorpos, o que permitiria a detecção do vírus em pacientes que não apresentavam sintomas, informou o Instituto Doherty.

"Ter o vírus real significa que, agora, temos a capacidade de validar e verificar todos os métodos do teste", disse o chefe do laboratório de identificação de vírus do instituto, Julian Druce.

Genoma do coronavírus

A China e a Rússia estão trabalhando para desenvolver uma vacina contra o coronavírus, e o governo chinês entregou o genoma do vírus a autoridades de saúde russas, informou nesta quarta uma missão diplomática da Rússia na China.

A Rússia, que ainda não teve nenhum caso confirmado do vírus, começou na terça-feira a verificar todos os turistas russos que retornavam da China, informou o órgão de vigilância nacional da saúde.

"O lado chinês entregou o genoma do vírus à Rússia, o que permitiu aos cientistas desenvolver rapidamente testes expressos que permitem identificar o vírus no corpo humano em duas horas", afirmou o consulado. /REUTERS

TV Estadão: brasileira conta que ruas de Pequim estão desertas

TV Estadão: brasileiro fala que ninguém sai de casa na China

Coronavírus: estamos próximos de uma pandemia? Ouça no podcast Estadão Notícias

Encontrou algum erro? Entre em contato

Mercados de animais silvestres na China podem estar ligados ao coronavírus

Atração em dezenas de cidades, eles podem ser a causa de um surto que espalha medo, constrange a burocracia do Partido Comunista e expõe os riscos de doenças que podem contaminar lugares onde convergem ser humano e vida selvagem

Steven Lee Myers, New York Times

30 de janeiro de 2020 | 11h42

LANGFANG - O mercado típico chinês tem frutas, legumes, verduras, carne bovina, suína, ovina, aves limpas - com as cabeças e os bicos - peixes, caranguejos vivos cuspindo água em agitados tanques de água. Algumas bancas vendem mercadorias mais inusitadas, como cobras vivas, tartarugas e cigarras, porquinhos da Índia, texugos, ouriços, lontras e até mesmo filhotes de lobo.

Os mercados são atrações em dezenas de cidades da China, e agora, pelo menos pela segunda vez em 20 anos, são a fonte de uma epidemia que espalha medo, constrange a burocracia do Partido Comunista, e expõe os riscos de doenças que podem contaminar lugares onde convergem seres humanos e a vida selvagem.

coronavírus letal que infectou milhares de pessoas na China e em outras partes do mundo aparentemente surgiu de um destes lugares: um mercado atacadista de Wuhan, em que os comerciantes vendem animais vivos em locais fechados, onde há concentrações de centenas deles. “É ali que aparecem doenças novas jamais vistas pela população”, disse Kevin J. Olival da EcoHealth Alliance, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos, que monitorou os surtos anteriores.

Segundo as autoridades e os cientistas, o novo contágio tem semelhanças assustadoras com o surto da Sars, a síndrome respiratória aguda, que no final de 2002 provocou cerca de 800 mortes e deixou milhares de pessoas doentes no mundo todo. Agora, o governo chinês luta para conter a revolta do público, que exige medidas mais drásticas em matéria de regulamentações  ou até mesmo a proibição da venda de animais silvestres - e uma rápida resposta às crescentes interrogações sobre o motivo pelo qual tão poucas coisas mudaram nos 17 anos desde a explosão da Sars.

A doença foi atribuída na época a um coronavírus que pulou dos morcegos para as civetas, criaturas semelhantes a gatos muito apreciadas como petisco no Sul da China, e depois para os seres humanos que trabalhavam no comércio desses animais. As autoridades e os cientistas afirmam agora que o novo vírus também se teria originado em morcegos e pulado destes para outros mamíferos, embora não esteja claro ainda em qual deles. O surto mais recente provocou apelos dentro e fora da China para a adoção de regulamentações mais rigorosas ou até mesmo para que se ponha fim a estas aventuras culinárias.

Embora as tartarugas e a carne de javali não sejam raras nos restaurantes chineses, a carne de outro tipo de caça, como a das civetas ou cobras costuma ser considerada uma especialidade somente em algumas regiões. O seu consumo nasce tanto do desejo de ostentar riqueza quanto de uma mescla de superstição e crença nos benefícios  para a saúde da carne de animais silvestres.

Assim que o Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Huanan, em Wuhan, foi identificado como a fonte mais provável deste surto, em dezembro, foi fechado imediatamente, embora não ficasse claro o destino dado aos animais que estavam à venda. As autoridades anunciaram somente no dia 22 de janeiro que a venda de animais silvestres foi proibida em toda a província de Hubei. Duas outras províncias, Henan e Mongólia Interior, também impuseram a suspensão do seu comércio naquela semana.

No dia 24 de janeiro, as autoridades de três agências nacionais anunciaram a adoção de controles mais rigorosos, inclusive a proibição em âmbito nacional da venda e transporte de animais possivelmente ligados ao novo coronavírus. A ordem especificou somente texugos e ratos de bambu; e ambos os animais estavam à venda no mercado de Wuhan.

Após uma inusitada revolta da sociedade contra o comércio de animais silvestres, o governo decidiu implementar uma série de medidas. Uma campanha promovida pela a plataforma de mídia social Weibo, teve 45 milhões de visualizações com o hashtag #rejectgamemeat.

“Comer animais de caça não cura a impotência e nem tem poderes de cura”, escreveu  Jin Sichen, um apresentador de televisão de Nanjing, cidade no sudeste da China, em sua página da Weibo. “A caça não só não cura doenças, como inclusive adoece você, a família, os amigos e outras pessoas”.

Um grupo de 19 estudiosos chineses pediu ao governo uma ação mais drástica na regulamentação do comércio e também a proibição do consumo de animais silvestres por parte do público. A Wildlife Conservation Society, uma organização de defesa sediada em Nova York, pediu a proibição global da venda comercial de animais silvestres, principalmente em mercados como os da China.

Christian Walzer, o diretor executivo da área de saúde da organização, disse que a espantosa diversidade de animais silvestres nestes mercados, na China, repletos de pequenas gaiolas em lojas de mercado superlotadas, criou um laboratório perfeito para a incubação involuntária de novos vírus capazes de invadir as células humanas. Os vírus podem se espalhar pela saliva, pelo sangue ou pelas fezes. “Cada animal é um pacote de patógenos”, ele disse.

No entanto, alguns consumidores chineses atribuem benefícios medicinais aos animais. Vendedores e até mesmo autoridades anunciam a vida selvagem como fonte alternativa de proteínas e de renda em regiões mais pobres. Um artigo da agência de notícias Xinhua, no final do ano passado, por exemplo, afirmava que a criação de ratos de bambu contribuiu para tirar as pessoas da pobreza em Guangxi, outra província do sul.

Os temores com a carne comercializada começaram no ano passado com o surto de febre suína africana, que causou o abate de 40% dos suínos do país. A produção de gado nas fazendas do país, se comparada à venda de animais silvestres, está sujeita a um número muito maior de regulamentações muito mais numerosas e uma inspeção severa. Surtos podem ocorrer, mas são identificados mais rapidamente.

Parte do problema do comércio de animais silvestres é o fato de que não é bem regulamentado, apesar dos riscos maiores de contágio dos animais vivos entre si e os seres humanos, principalmente nos mercados que frequentemente não tem condições higiênicas adequadas.

Segundo Walzer, um problema ocasionado pela produção legal de algumas espécies está no fato de que poderia confundir as linhas entre os que são criados em cativeiro e os capturados na floresta, onde vírus desconhecidos existem há anos sem nenhum contato com os seres humanos. “É um perigo para a saúde pública, não apenas na China, mas em toda parte”, afirmou.

No pico da epidemia da Sars em 2003, as autoridades proibiram a venda de civetas e abateram os estoques existentes, mas meses mais tarde retiraram a proibição e o comércio recomeçou como antes. “Tudo é movido por interesses”, afirmou Qin Xiaona, presidente da Capital Animal Welfare Association, uma organização protetora em Pequim, referindo-se ao surto atual. “Hoje, muitas pessoas lucram com o comércio de animais silvestres”.

O tráfico de algumas destas espécies é proibido, como o dos pangolins, ameaçados de extinção, apreciados por suas escamas e pela carne, mas a Administração Nacional de Florestas e Pastagens da China permite que as pessoas criem 54 espécies de animais, aves, répteis e insetos, inclusive avestruzes, emas e centopeias.

Na plataforma de compras online, Taobao, muito popular na China, é possível adquirir todas as espécies destes animais vivos. Um filhote de texugo custa 1,3 mil renminbi, ou US$ 187. Um produtor de Hunan, província diretamente ao sul de Hubei, vende civetas, das quais se originou a SARS, pelo equivalente a US$ 215 cada uma. No mercado de Langfang, na zona sul de Pequim, um vendedor anunciava um crocodilo vivo (US$550) , e um porco-espinho (US$ 115).

Segundo um blog de medicina postado no WeChat, as autoridades da área de saúde de Wuhan visitaram o mercado em setembro e inspecionaram oito vendedores de rãs, cobras e ouriços, entre outros animais. Todos tinham licença para a venda de animais silvestres, e nenhuma infração foi encontrada.

A epidemia agora colocou os vendedores na defensiva. “Você tem certeza de que a causa da epidemia está no consumo de animais silvestres?” perguntou Zheng Ming, o gerente de vendas de uma companhia que comercializa animais em Yichang, uma cidade a 290 quilômetros a oeste de Wuhan. Até o anúncio da entrada em vigor da proibição, ele vendia porcos espinhos, civetas, porquinhos da Índia e ratos de bambu, entre outros. “Nós cumprimos a lei”, ele disse. “O nosso negócio é absolutamente legal”. James Gorman contribuiu para a reportagem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Coronavírus supera SARS em número de infectados na China; cias aéreas cancelam voos

Mais de 5,9 mil casos foram registrados em território chinês; voos dos governos de EUA, Japão e França buscam cidadãos na região de Wuhan, enquanto companhias aéreas cancelam viagens

Redação, AFP

29 de janeiro de 2020 | 14h55

WUHAN - O surto de casos do novo coronavírus chegou a mais de 5,9 mil casos e ao menos 132 mortes apenas na China continental, superando o número de infectados pela Síndrome Respiratória Aguda Severa (SRAS) entre 2002 e 2003, que contaminou 5,3 mil chineses e deixou 774 mortos em nível mundial - sendo 349 na China. Casos da nova virose também foram identificados em outros países, como Emirados Árabes Unidos, Finlândia, Alemanha e Vietnã. 

Nesta quarta-feira, 29, centenas de japoneses e norte-americanos foram retirados de Wuhan, cidade chinesa que concentra a maioria dos casos da virose. Além disso, as companhias British Airways (Reino Unido), Lion Air (Indonésia), Ukraine International Airlines (Ucrânia), Skyup Airlines (Ucrânia), Air Austral (França) suspenderam todos os voos para a China, enquanto a United Airlines e a Air Canadá já manifestaram a intenção de reduzir o número de viagens.

Wuhan e quase a totalidade da província de Hubei estão praticamente isolados do restante do País desde 23 de janeiro. O cordão sanitário afeta a cerca de 56 milhões de habitantes, além de milhares de estrangeiros. 

Relatos apontam que o avião com cerca de 200 japoneses que partiu da região e chegou nesta quarta em Tóquio tinha diversas pessoas com sintomas do coronavírus. “Já não podíamos circular livremente. O número de enfermos começou a aumentar rapidamente a dava medo”, conta Takeo Aoyama, que trabalha em uma empresa siderúrgica. 

Já o avião enviado para buscar cerca de 200 norte-americanos também partiu nesta quarta, reunindo também funcionários do consulado dos Estados Unidos em Wuhan. Já a aeronave da França buscou cerca de 350 europeus, dos quais aproximadamente 250 são franceses. Medida semelhante está sendo estudada pela Austrália.

Nesta quarta, também foram suspensas a etapa chinesa do campeonato mundial de esqui alpino, prevista para fevereiro. Além disso, a seleção feminina chinesa de futebol foi posta em quarentena em um hotel na Austrália, onde iria disputar as eliminatórias dos Jogos Olímpicos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Coronavírus pressiona o sistema de saúde da China

Governo chinês conta com um sistema médico abarrotado e sobrecarregado; autoridades de saúde pediram aos médicos que prescrevessem combinação de medicamentos antivirais para o HIV e medicina tradicional chinesa aos pacientes

Sui-Lee Wee, The New York Times

29 de janeiro de 2020 | 12h00

Depois de sofrer de febre e problemas respiratórios por mais de 15 dias, Xiao Shibing, de 51 anos, morador de Wuhan, na China, finalmente procurou ajuda em um hospital. Apesar dos sintomas, ele não foi testado para o novo coronavírus - um descuido sugerindo que pode haver muito mais casos do vírus do que está sendo oficialmente relatado.

Em vez disso, Xiao foi informado de que ele tinha uma infecção viral e voltou para casa. Quando ficou mais doente, ele foi para outros três hospitais. Mas nestes lhe foi dito que não havia leitos suficientes.

Como milhares de pacientes chineses preocupados com o novo coronavírus, Xiao está se esforçando para obter ajuda de um sistema de saúde que se esforça para atender até as necessidades básicas dos pacientes.

Xiao, que acabou sendo hospitalizado no domingo - cerca de uma semana após sua tentativa inicial - ainda não foi testado para o vírus.

Enquanto luta para combater o surto de coronavírus, o governo chinês conta com um sistema médico abarrotado e sobrecarregado, mesmo em tempos normais. Embora outras partes da vida cotidiana na China tenham melhorado significativamente na década passada, a qualidade dos cuidados com a saúde estagnou.

Nas grandes cidades como Pequim e Xangai, muitas pessoas precisam ficar na fila desde as primeiras horas da manhã para marcar consultas com médicos. Quando conseguem uma consulta, os pacientes recebem apenas alguns minutos com um médico. Durante a temporada de gripe, os moradores montam acampamento durante a noite com cobertores nos corredores de hospitais.

A China não possui em funcionamento um sistema de atendimento primário, por isso a maioria das pessoas se encaminha para hospitais. Em um dia comum, os médicos estão frustrados e exaustos pois atendem cerca de 200 pacientes.

Isso é mais acentuado nas áreas mais pobres da China - como Wuhan, o epicentro do coronavírus. Os moradores da cidade, em pânico, estão indo para os hospitais caso tenham algum sinal de resfriado ou tosse. Vídeos circulando nas redes sociais chinesas mostram médicos se esforçando para lidar com a enorme carga de trabalho e os corredores do hospital lotados de pacientes, alguns dos quais parecem estar mortos.

Apesar de já ter lidado com o coronavírus SARS quase duas décadas atrás, muitos hospitais chineses em cidades menores estão totalmente despreparados para lidar com um surto tão grande como o vírus atual. Os hospitais de Wuhan postaram mensagens online apelando urgentemente por equipamentos médicos. A situação é ainda mais desesperadora nas áreas rurais mais pobres próximas a Wuhan.

Na semana passada, oito hospitais na província de Hubei - onde Wuhan está situada e onde a maioria dos casos apareceu - fizeram um pedido por máscaras N95, óculos de proteção, máscaras cirúrgicas e aventais cirúrgicos. Na falta de equipamento adequado, alguns trabalhadores médicos recorreram a cortar pastas feitas de plástico para óculos de proteção improvisados.

Yanzhong Huang, membro sênior de saúde global do Conselho de Relações Exteriores, disse que a China investiu muito na construção de uma infraestrutura robusta de saúde pública após a erupção da SARS e que muitos dos hospitais estavam bem equipados para lidar com doenças infecciosas.

“Mas eles aparentemente não previram algo tão repentino, tão agudo e grande”, disse ele.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

A resposta do governo à crise pode exacerbar os problemas. Em toda a China, as autoridades estão fechando cidades, escolas e avaliando os moradores. Mas o bloqueio - afetando 56 milhões de pessoas - pode dificultar o fornecimento de suprimentos médicos para hospitais que precisam desesperadamente deles.

As autoridades chinesas reconheceram que estão tendo dificuldades para lidar com o surto. Em uma entrevista coletiva na semana passada, a comissão de saúde de Wuhan disse que havia longas filas e escassez de leitos. Em resposta, afirmou ter selecionado hospitais como “clínicas de febre” para as pessoas procurarem tratamento.

Com as instalações médicas escassas, o governo local também se comprometeu em construir um novo hospital com 1,1 mil leitos em 10 dias e disse que outro novo hospital com 1,3 mil leitos estaria pronto até meados do próximo mês. Ele está copiando parte do manual do governo durante a SARS, quando construiu um novo hospital em Pequim em apenas uma semana.

No entanto, ainda não está claro que haverá leitos suficientes para lidar com o vírus, que permanece altamente contagioso.

Chen Xi, professor assistente de política e economia da saúde na Escola de Saúde Pública de Yale, disse que é mais importante ter um sistema de trabalho de médicos de família que possam atuar na triagem para os hospitais.

 “Sem um processo eficiente de triagem”, disse ele, “esses dois hospitais não seriam muito eficazes”.

O governo está sob crescente pressão para mostrar que está lidando adequadamente com a crise. Na segunda-feira, o primeiro-ministro Li Keqiang, encarregado de supervisionar a resposta nacional à epidemia, visitou Wuhan para inspecionar os esforços para conter a doença. Ele prometeu fornecer aos centros locais de saúde 20 mil pares de óculos de segurança.

Sem qualquer medicamento comprovado para tratar o novo vírus, as autoridades de saúde pediram aos médicos que prescrevessem uma combinação de tratamentos - medicamentos antivirais para o HIV e medicina tradicional chinesa - aos pacientes. Alguns dos medicamentos prescritos são uma mistura de ingredientes como chifre de búfalo, jasmim e madressilva, bem como medicamentos antivirais para o HIV, como lopinavir e ritonavir.

Coronavírus: estamos próximos de uma pandemia? Ouça no podcast Estadão Notícias

Como aconteceu com a SARS, a medicina tradicional chinesa - uma indústria que o governo se comprometeu a desenvolver - está sendo destacada como uma maneira de tratar esse novo coronavírus. Mas não há evidências clínicas de que os cálculos biliares bovino, as raízes das plantas e o alcaçuz possam funcionar para combatê-lo.

Revistas publicaram estudos de cientistas chineses dizendo que a medicina tradicional chinesa ajudou a aliviar os sintomas da SARS. O Ministério da Ciência e Tecnologia da China disse em 2003 que havia encontrado o banlangen, a raiz de uma planta chamada pastel do tintureiro (woad), bem como um líquido composto de ingredientes como ácido cólico, jasmim, chifre de búfalo e madressilva para ser eficaz na cura de uma inflamação aguda dos pulmões.

“Nunca houve um bom agente antiviral, então isso significa que as pessoas tentariam qualquer coisa que tenha algum efeito”, disse Dominic Dwyer, virologista médico da Universidade de Sydney. “Mas não há evidências de benefícios significativos com nenhum medicamento antiviral ou na medicina tradicional chinesa”.

O problema de encontrar um medicamento que possa combater efetivamente uma doença infecciosa como esse coronavírus, SARS ou síndrome respiratória do Oriente Médio é que ele precisa ser testado em número suficiente de pessoas de maneira aleatória e em ensaios clínicos adequados.

“Isso é muito difícil em uma situação de epidemia”, disse Kanta Subbarao, pesquisadora sênior de doenças respiratórias do Doherty Institute, em Melbourne, na Austrália. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Brasileiros que vivem na China relatam temor com coronavírus

Eles contam que as ruas das cidades estão desertas e que já adotaram medidas preventivas em relação à doença; veja vídeo feito por um deles em Shijiazhuang, capital da Província de Hebei

Felipe Cordeiro, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 17h57

SÃO PAULO - Enormes avenidas vazias, com poucos carros e pedestres. Pontos turísticos fechados durante o feriado do ano-novo lunar. Nas raras saídas de casa, máscaras de proteção como item obrigatório. O cenário fantasma em nada lembra a rotina frenética da nação mais populosa do mundo. Brasileiros que vivem na China relatam temor de que o surto do coronavírus em Wuhan, na Província de Hubei, se espalhe por outras regiões do país. O Estado conversou com três brasileiros, que contam sobre as mudanças que adotaram no dia a dia para se prevenir do vírus. Segundo eles, ainda não há, porém, motivo para pânico.

"As ruas parecem um grande deserto. Isso é um pouco impressionante nesta época do ano", diz a radialista Denise Melo, de 35 anos. "Aqui, em Pequim, eles fecharam todos os pontos turísticos da cidade: a famosa Cidade Proibida, o Palácio de Verão, que normalmente é lotado de turistas, está tudo fechado."

Paulistana, Denise mora na capital chinesa há um ano e meio. Ela afirma que tem saído de casa apenas para ir ao trabalho na Xinhua, a agência de notícias do governo chinês.

Mesmo a mais de mil quilômetros do epicentro do surto de coronavírus, Denise não se sente totalmente segura, pois Pequim já registrou casos de infecção. Nesta segunda-feira, 27, as autoridades de saúde confirmaram a primeira morte na capital chinesa em função do vírus. O paciente havia voltado de Wuhan.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Em Pequim, eles fecharam todos os pontos turísticos da cidade: a famosa Cidade Proibida, o Palácio de Verão, normalmente lotado de turistas, está tudo fechado
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Denise Melo, radialista paulistana que mora na capital chinesa há um ano e meio

Veja abaixo o relato de Denise Melo em Pequim:

A cerca de 300 quilômetros ao sudoeste de Pequim, o engenheiro geológico Júlio Cézar Kattah, de  24 anos, foi orientado a não deixar o alojamento da universidade onde estuda em Shijiazhuang, capital da Província de Hebei.

"A universidade não permite que a gente saia daqui a menos que tenha alguma circunstância especial. Os estudantes basicamente só podem sair caso eles vão voltar para a nação (deles)", afirma Kattah. "Tem muitos que estão pensando em ir embora, voltar para o país deles."

O mineiro de Belo Horizonte conseguiu dar uma escapada ao ajudar uma professora na compra de mantimentos para a universidade. Kattah se surpreendeu com uma cidade vazia e gravou vídeos para registrar a "situação muito estranha".

Veja abaixo o vídeo de Júlio Cézar Kattah em Shijiazhuang:

"Todo mundo está ficando dentro de casa mesmo. Ninguém está saindo. Você vê no WeChat (aplicativo de mensagens chinês semelhante ao WhatsApp) o pessoal compartilhando: 'Ah, alguém tem alguma série para me recomendar?'. Esse tipo de coisa", diz Kattah ao explicar que a solução agora é recorrer às redes sociais para conversar com os amigos e matar o tédio. "Já teve muitos amigos meus, colegas que ligam para mim, fazem videoconferência para preencher esse tempo."

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Ninguém sai. Amigos e colegas me ligam, usam aplicativo, fazem videoconferência para preencher o tempo, pedem indicações de séries
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Júlio Cézar Kattah, natural de Belo Horizonte e engenheiro geológico. Ele foi orientado a não deixar o alojamento da universidade

Já em Qindgdao - cidade litorânea na Província de Shandong, a mais de mil quilômetros de Wuhan -, a engenheira eletricista Joice Fiaux afirma que o cenário não é de pânico apesar da recomendação para a população ficar em casa e de algumas restrições em viagens intermunicipais rodoviárias.

"O transporte público aqui está com funcionando quase normal", diz a carioca, que cursa um mestrado na Universidade de Petróleo da China. "Não há pânico. As ações estão acontecendo de maneira coordenada, e a população tem colaborado."

Os três brasileiros lembram que, mesmo sem o surto do coronavírus, muitos serviços já estariam fechados por causa do ano-novo lunar. O governo chinês decidiu estender o feriado até o próximo domingo, 2, em uma tentativa de conter o avanço do vírus.

"A China sempre se prepara para um ano-novo muito colorido e, neste ano, não foi diferente. Tem lanternas, luzes, grandes estátuas e cartazes em comemoração ao ano do rato", lembra Joice. "A diferença é que as pessoas estão mais em casa. Acho que os chineses devem estar aproveitando para ter mais alguns dias de descanso com a família."

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
A China sempre se prepara para um ano-novo muito colorido e, neste ano, não foi diferente. A diferença é que as pessoas estão mais em casa
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Joice Fiaux, engenheira eletricista carioca que cursa um mestrado na China

Máscaras e termômetros por toda a parte

Os brasileiros contam que a vigilância sanitária é rígida. Na entrada dos mercados e estações ferroviárias, há agentes de saúde que medem a temperatura das pessoas. Nas universidades, Kattah e Joice são examinados diariamente. E ninguém é visto na rua sem máscara.

Denise diz que tem um estoque de máscaras na casa dela, em Pequim. A empresa distribuiu o equipamento de proteção para os funcionários.

Kattah não teve a mesma sorte. O engenheiro geológico afirma que o item está em falta em Shijiazhuang e só conseguiu comprar pela internet. "Paguei bem caro", afirma. "A situação está um pouco complicada."

Ele denuncia que alguns golpistas estão retirando máscaras do lixo e desinfetando-as para "reciclar" e revendê-las. Outro produto difícil de encontrar nas prateleiras é o álcool em gel.

"Ninguém aqui tem. Na recepção tem. Quando a gente sai, eles (funcionários) borrifam na nossa mão", diz o jovem, que estuda Mandarim na Universidade Normal de Hebei para se preparar para um curso de mestrado.

Uma das instituições almejadas por Kattah na pós-graduação é a Universidade de Geociências da China, que tem câmpus em Pequim e Wuhan, a cidade epicentro do surto de coronavírus.

Veja abaixo o relato de Júlio Cézar Kattah em Shijiazhuang:

Prevenidos

Os três brasileiros acham adequadas as medidas adotadas pelas autoridades de saúde chinesas e afirmam estar preparados para enfrentar o coronavírus. "Eu não tenho medo. Observo bem as medidas de segurança do governo chinês e vejo que eles estão realizando um trabalho muito sério", diz Joice. "Manter a calma e esperar é o melhor a fazer nesses momentos."

Por estar na capital do país e dispor de mais infraestrutura, Denise se considera privilegiada. "Eu não sei te dizer como está sendo mais para interior da China, mas aqui as coisas chegam rápido e são resolvidas rapidamente", declara a radialista.

Denise pede que os brasileiros que têm parentes ou amigos na China não entrem em pânico, pois a situação não é desesperadora. "Acho que é (um recado) mais para minha mãe", brinca. "A China é um país que está crescendo. Isso vale para a saúde e para a qualidade de vida."

Segundo a paulistana, a estrutura de atendimento aos pacientes no país é moderna. Joice concorda com ela. "É surpreendente a organização da China em casos de emergência. As ações são tomadas de maneira rápida e implantadas do dia para a noite", declara. "Em um país com dimensão continental e tendo uma população numerosa, é surpreendente ver isso tudo acontecer."

Denise ressalta que os brasileiros e a comunidade internacional não devem discriminar os chineses por causa do surto de coronavírus. "É um país que está passando por uma dificuldade, e ninguém merece ser discriminado por nada. Eles têm que ser bem tratados e acolhidos como eles acolhem as pessoas quando vêm para cá."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Infecção por novo coronavírus pode ser assintomática, indica estudo

Pesquisa feita com família infectada em cidade chinesa mostra que um dos integrantes foi diagnosticado com o vírus, mas não teve manifestação da doença; cenário dificulta ainda mais contenção do patógeno

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2020 | 20h11

SÃO PAULO - As infecções pelo novo coronavírus, geralmente associadas a quadros de pneumonia, podem ocorrer também sem que o infectado apresente nenhum sintoma, o que pode dificultar a contenção do surto. É o que indica um estudo de pesquisadores chineses publicado na sexta-feira, 24, no periódico The Lancet.

A conclusão vem da análise do histórico de uma família chinesa que teve seis integrantes infectados pelo vírus. Eles foram diagnosticados na cidade de Shenzen, onde moram, mas haviam viajado ao município de Wuhan, epicentro do surto, dias antes da detecção da doença.

De acordo com informações publicadas no artigo, um dos integrantes da família, um menino de 10 anos, foi infectado pelo vírus, mas não teve nenhuma manifestação da doença, enquanto os outros cinco familiares apresentaram um quadro sintomático.

O diagnóstico da criança surpreendeu os médicos, que inicialmente não pensavam em submeter o garoto a exames, já que ele não apresentava nenhuma anormalidade em seu quadro de saúde. Os testes só foram feitos por insistência da família, que estranhou o fato do garoto ter viajado também para Wuhan e não apresentar a doença.

"Uma descoberta inesperada da tomografia computadorizada do pulmão do paciente, realizada por insistência dos pais nervosos, mostrou alterações. Ele foi posteriormente confirmado virologicamente como portador de uma infecção assintomática", descreveram os cientistas no artigo publicado.

Os autores do estudo destacam que esse achado indica mais uma dificuldade para conter o surto de coronavírus, já que o paciente pode carregar e transmitir o vírus sem apresentar nenhum sinal da doença. "Esses casos enigmáticos de pneumonia ambulante podem servir como uma possível fonte para propagar o surto. Estudos adicionais sobre o significado epidemiológico desses casos assintomáticos são necessários", destacam os especialistas.

Eles comentam no artigo que infecções assintomáticas chegaram a ser documentadas também no surto de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), em 2002-2003, mas elas eram raras. O surto da SARS, também causado por um coronavírus e iniciado na China, deixou mais de 800 mortos.

Os cientistas também ressaltam no artigo que, no caso dos pacientes com sintomas, as manifestações podem ser inespecíficas, ou seja, mudar de paciente para paciente. Embora a maioria dos doentes relate febre, tosse e dificuldade para respirar, dois dos seis membros infectados da família estudada tiveram como primeiro sintoma uma diarreia.

Tudo o que sabemos sobre:
China [Ásia]víruscoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.