Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

OMS: Não há confirmação sobre contaminação de coronavírus em humanos por animal doméstico

Nota da entidade alerta para ausência de comprovação científica; em SP, adoção de pets cai pela metade em março

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 14h00

Não há evidência científica de que animais domésticos, de companhia, cães ou gatos, sejam fonte de transmissão da doença covid-19 para seres humanos. A informação é do Centro Pan-Americano de Febre Aftosa e Saúde Pública Veterinária da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (Panaftosa-Opas/OMS) em nota sobre a relação de infecção de pessoas por animais. “Animais domésticos não transmitem a covid-19”, diz o documento da Opas/OMS, destacando que o eventual abandono de animais domésticos "é crime”.

A nota informa ainda que também “não há evidências de que os cães possam ficar doentes” por covid-19. E acrescenta que “a infecção em gatos está sendo investigada”. Mas as adoções de animais de companhia em São Paulo já caíram pela metade neste período de isolamento social e expansão da doença.

As primeiras informações sobre a epidemia do novo coronavírus afirmavam que tudo começou com o consumo de carnes de animais silvestres na China. Não há confirmação disso. Nos últimos dias, a história de uma tigresa que apresentou sintomas da doença no zoológico americano do Bronx, bairro de Nova York, ampliou o temor de transmissão da covid-19 por pets. 

De acordo com a Opas/OMS, porém, a recomendação atual sobre a relação de humanos com animais caseiros é para o dono “lavar as mãos antes e depois de interagir com animais“ e manter o distanciamento “se a pessoa estiver doente”. Com relação à higiene dos animais, a nota recomenda: “Não use álcool, cloro ou outras substâncias irritantes”. O documento orienta donos de pets a consultarem “seu veterinário para ter indicações sobre produtos seguros para seu animal de estimação”. De acordo com o infectologista Sergio Cimerman, coordenador-científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI),  “não há transmissão comprovada da doença por animais”.

Nesta segunda-feira, 13, a Coordenadoria de Saúde e Proteção ao Animal Doméstico (Cosap), da Prefeitura de São Paulo, também reforçou a inexistência de dados científicos sobre eventuais contaminações de pessoas por animais. “O que já há é animais contaminados pela covid-19, mas não há qualquer comprovação de que eles transmitam o vírus para humanos”, disse a veterinária Juliana Anaya Sinhorini, da Cosap. Segundo ela, nos casos de contágio dos animais, eles não apresentam sintomas. “Mas os animais não transmitem o vírus”, ressaltou.

A veterinária acrescentou que “a quarentena” por causa da doença, que vale para as pessoas, também vale para os pets. “É preciso que eles sejam cuidados com higiene quando chegam dos passeios na rua, como as pessoas fazem com elas próprias”, recomendou a veterinária. No site da Cosap, disse a veterinária da Prefeitura, “há informações sobre como adotar animais”. “As pessoas podem ver os animais no site e preencher os documentos para adoção lá mesmo”, ensinou a veterinária.

Segundo a Cosap, também não há dados atualizados, no período de expansão da doença no Brasil, sobre abandono de animais por seus donos por temor de contaminação. “Abandono de animal é crime, mas, às vezes, a gente até vê alguns sendo deixados aqui. Isso é caso de polícia. Um mês atrás três pessoas jogaram um cachorro por sobre o muro, e ele ficou pendurado”, relatou. 

O abandono de animais por causa das incertezas sobre a covid-19, segundo a Panaftosa-Opas/OMS, “pode levar a outras situações de impacto à saúde pública, como aumento de mordidas e agressões de animais, atropelamentos que resultam em acidentes de trânsito e, possivelmente, aumento na ocorrência de doenças entre animais e eventuais zoonoses como raiva, leishmaniose, entre outras". 

ADOÇÃO DE PETS

Mas as adoções de animais já apresentam redução. A procura por adoções caiu à metade, em relação a março de 2019, informou a Cosap, que fica próximo da Praça Campo de Bagatelle, em Santana. Na entidade, havia, até a tarde desta segunda-feira, 253 animais aguardando por um dono. Entre os animais disponíveis há 162 cães, 79 gatos, 9 cavalos e dois porcos e até um bode. 

De acordo com a advogada Vanice Teixeira Orlandi, presidente da União Internacional Protetora dos Animais (Uipa), que fica na zona norte, de São Paulo, próximo ao estádio da Portuguesa, o Canindé, até o período anterior ao início do isolamento social por causa da epidemia, a entidade registrava doações de “20 a 25 animais por mês”.  Mas, segundo ela, desde o início da quarentena o movimento praticamente parou. “Não conseguimos doar mais do que dois animais por semana”, afirmou a advogada.

Segundo Vanice Orlandi, a entidade, que em 30 de maio completará 125 anos de funcionamento, “impõe uma série de requisitos para efetivar uma adoção, de modo que não tem mesmo um número elevado de adoções”. E destacou que “em virtude da crise, não há muitos interessados em adotar”.  A advogada disse que, no caso divulgado de uma tigresa, contaminada nos EUA, a informação é a de que “teria sido infectada por um tratador portador da covid-19”.  Segundo ela, os felinos estão sendo atingidos também por carregarem preconceitos contra eles. “As ‘fake news’ também prejudicam os gatos”, afirmou.

A redução das adoções pela população, segundo a presidente da Uipa, já vinha ocorrendo desde 2017, quando se agravou a crise econômica no País. Mas este momento de isolamento social, quando as pessoas estão ficando mais em casa, segundo ela, “poderia ser um bom momento para as pessoas voltarem a adotar”.  Ela explicou que os preferidos para adoção são os filhotes. 

A presidente da Uipa disse, porém, que as adoções podem ter sido afetadas também pelo decreto do governo paulista sobre o afastamento social para combate da covid-19. A medida determinou a necessidade de existência de indicação de veterinário para a prática do banho e tosa de pets. 

“Achei muito estranha essa medida. Os animais precisam de banho e tosa por questão de higiene, de saúde”, afirmou a advogada, criticando a medida. Já a veterinária da Cosap explicou que a recomendação do decreto não impede os banhos terapêuticos. “O que há é que banho e tosa, que não sejam os terapêuticos e que necessitem de indicação veterinária, podem ser feitos pelas pessoas em casa”, recomendou.

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