Denis Balibouse/Reuters
Denis Balibouse/Reuters

OMS pode declarar o zika vírus como uma 'ameaça internacional'

Para a organização, que vinha sendo criticada por especialistas, a proliferação é 'explosiva'; encontro ocorre na segunda-feira

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

28 Janeiro 2016 | 10h05
Atualizado 28 Janeiro 2016 | 11h27

GENEBRA - A Organização Mundial da Saúde (OMS) convocou seu comitê de cientistas para declarar o zika vírus como uma emergência internacional para saúde pública, representando uma "ameaça global". O anúncio da convocação dos especialistas foi feito nesta quinta-feira, 28, pela diretora da OMS, Margaret Chan, criticada por organizações não governamentais (ONGs) e cientistas por não ter agido até agora para frear a doença. O encontro vai ocorrer na segunda-feira, 1º, e contará com cientistas brasileiros.  

O grupo de especialistas vai se reunir nos próximos dias e, se considerar que a ameaça é global, o alerta será lançado. Isso exigirá que governos de todo o mundo coloquem medidas para identificar o vírus e recomendações sobre viagens poderão ser realizadas. O Brasil, porém, já trabalha nos bastidores para evitar que a OMS declare algum tipo de restrição, principalmente no ano de Jogos Olímpicos. 

"Há uma proliferação explosiva", afirmou Chan. "Estamos profundamente preocupados. O nível de alerta é extremamente alto, principalmente diante da possibilidade de uma ligação com microcefalia. A relação ainda não foi estabelecida. Mas há uma forte suspeita, e essa relação mudou o perfil de risco do zika e estão falando de proporções alarmantes", disse. 

Segundo Chan, a convocação da reunião de emergência ocorre por quatro motivos: a possível associação com microcefalia, o potencial de que o zika se espalhe, a falta de imunidade das populações e a ausência da vacina.

Para Chan, o fenômeno climático El Nino deve aumentar ainda mais a presença de mosquitos. "O nível de preocupação é alto, assim como a incerteza. Precisamos de respostas", disse a diretora. 

Segundo ela, o comitê de emergência vai recomendar o que deve ser feito e em que áreas as pesquisas devem se estabelecer. 

"Esse vírus vai para todos os lugares e não ficará apenas nas Américas", disse Marcos Espinal, representante da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

'Forte relação'. Durante o encontro, o Brasil alertou OMS para a "forte relação" entre o zika vírus e casos de microcefalia. Dados de estudos realizados no País indicam que existe uma relação de "causalidade" entre o vírus e a doença. 

Os estudos foram apresentado por Claudio Maierovitch, diretor de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, que participou da reunião com a OMS por meio de videoconferência. O Estado revelou em sua edição desta quinta-feira com exclusividade que o Brasil apresentaria esses resultados. "A relação é muito forte para nós", disse.

Marcos Espinal, representante da Opas, deixa claro também que sua entidade aponta na mesma direção apontada pelo Brasil. "Não podemos entrar em pânico, mas temos de ter um controle de vetor agressivo", disse. "Algo está ocorrendo no Brasil. Não há dúvidas, e o único potencial é zika", afirmou. "Há uma correlação entre zika e microcefalia. Precisamos mais evidências. Mas precisamos agir já pois as sugestões estão presentes." 

Lyle Petersen, representante dos Estados Unidos no encontro, alertou que os mecanismos de controle de mosquitos não estão sendo eficientes e que novos instrumentos precisam ser criados. 

Críticas. Antes de convocar a reunião, a OMS estava sendo duramente criticada por repetir os mesmo erros do Ebola. Segundo cientistas, o zika vírus tem um potencial de se tornar uma pandemia "explosiva". O alerta está sendo feito por cientistas americanos que, nesta quinta-feira, publicam um apelo à agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para que não repita com o zika os mesmos erros do combate ao Ebola, doença que foi negligenciada por meses pela OMS antes de sair de controle.

"A doença hoje tem um potencial pandêmico explosivo", indicaram os cientistas, acusando a OMS de não agir. 

Segundo o Estado apurou com exclusividade, a primeira notificação à entidade ocorreu em outubro. Mas nada foi feito e toda a gestão da doença foi deixada para a Opas. 

Em um documento publicado nesta quinta-feira no Journal of the American Medical Association, os cientistas pedem que a OMS aprendam as lições do Ebola. O temor dos cientistas é de que, mesmo que uma vacina esteja pronta em dois anos, sua chegada ao mercado pode levar uma década. 

O artigo é assinado por Daniel Lucey e Lawrence Gostin e considera que o fracasso da OMS em agir levou a milhares de mortes na África. O mesmo cenário poderia ocorrer se uma ação imediata não for tomada.

"Um  Comitê de Emergência deveria ser convocado de forma urgente para aconselhar a diretora-geral (da OMS) sonbre as condições necessárias para se declarar uma emergência de saúde pública ", escreveram os cientistas. Para eles, ao convocar o encontro, a OMS poderia estar ajudando também a mobilizar recursos. 

A diretora da OMS, Margaret Chan, declarou ao Estado nesta quarta-feira, 27, que " o mundo inteiro está preocupado " com a proliferação de casos. Mas não deu indicações do que pretende fazer. Duramente criticada por sua gestão do Ebola, Chan fará nesta quinta-feira um discurso sobre o zika. Mas não responderá perguntas dos jornalistas.

O vírus foi descoberto em Uganda em 1947 e os primeiros casos humanos registrados na Nigéria em 1954. Em 1977, ele foi registrado no Paquistão e, 20 anos mais tarde, na Micronésia. A Polinésia Francesa foi alvo de um surto em 2011 e, agora, a OMS estima que todo o continente americano será afetado. 

" Apesar da ameaça global, a diretora da OMS não convocou um comitê de emergência para aconselhar países sobre assuntos críticos como controle do vetor, preparação dos sistemas de saúde, recomendações de viagem e evitar medidas punitivas ", indicaram os cientistas. "Ainda que o Brasil, Opas e o CDC (Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos) agiram rapidamente, a sede da OMS até agora não tem sido proavita, dando espaço para potencial ramificações ", concluíram.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.