OMS: profissionais de nível médio são alternativa para áreas sem médicos

Segundo a Organização Mundial da Saúde, em algumas áreas, parteiras, enfermeiras e auxiliares 'atendem tão bem quanto os médicos, se não mesmo melhor do que eles'

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

01 Novembro 2013 | 10h47

GENEBRA - Países como o Brasil que sofrem com a falta de médicos em algumas regiões poderiam resolver esse déficit treinando, formando e mobilizando parteiras, enfermeiras, auxiliares médicos e clínicos cirúrgicos para garantir o atendimento à população. A recomendação está sendo publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), no que seria a primeira análise sistemática que compara o atendimento de médicos e demais profissionais de saúde em dezenas de setores.

O estudo é uma resposta a esforços de governos em busca de encontrar soluções para regiões mais pobres e menos atrativa para médicos. A mensagem é de que, no lugar de gastar recursos com a formação ou a importação de médicos, verbas poderiam ser investidas de forma mais eficiente mobilizando outros profissionais.

Em nenhum momento a OMS sugere que esses profissionais substituam de forma definitiva ou em sua totalidade os médicos nas regiões mais afetadas por falta de mão de obra. Mas aponta que, em determinadas áreas da saúde, os profissionais de saúde de nível médio "atendem tão bem quanto os médicos, se não mesmo melhor do que eles". A OMS também insiste que essa opção não é uma recomendação apenas para países pobres. Isso porque grande parte dos estudos que comprovam essa tese foi realizada em países ricos.

"Nos países onde esses profissionais de saúde foram mobilizados, os resultados clínicos de determinados serviços foram tão bons quanto os daqueles realizados por médicos - e, em alguns casos, até melhores", indica o estudo que compilou dados de 53 pesquisas diferentes realizadas em 18 países nos últimos 20 anos.

"Os nossos resultados derrubam o mito segundo o qual uma utilização mais extensa de profissionais de saúde de nível médio poderia levar a serviços de menor qualidade; apesar das limitações da evidência, aparentemente, em algumas áreas, eles chegaram a apresentar um desempenho superior ao dos médicos", diz a principal autora do estudo, Zohra Lassi, professora da Divisão de Saúde das Mulheres e Crianças na Universidade de Aga Khan em Karachi, Paquistão. "A maior parte dos nossos resultados aponta para oportunidades que todos os países - tanto ricos quanto pobres - podem explorar."

Um dos resultados da pesquisa aponta que, "quando os cuidados são prestados às mães e aos recém-nascidos por parteiras, em vez de por médicos trabalhando com as parteiras, os índices do recurso à episiotomia (incisão cirúrgica feita para facilitar a saída do bebê, que pode levar a complicações) e à utilização de analgésicos são inferiores".

O estudo também aponta que, em campos como a prevenção e o tratamento de doenças cardíacas, diabetes, questões de saúde mental e infeção pelo HIV, o atendimento prestado por enfermeiras pode ser tão eficiente quanto aquele prestado pelos médicos caso haja treinamento.

Moçambique. Outro fator é a capacidade de manter esses profissionais nas zonas mais necessitadas. Um dos exemplos é o caso de Moçambique. Lá, médicos foram treinados. Mas optaram por sair das regiões mais pobres e buscar maiores oportunidades de trabalho na capital ou no exterior. Já 95% das parteiras e enfermeiras treinadas permaneceram nas áreas mais necessitadas.

Diante da constatação, a OMS "encoraja todos os países a adotarem a combinação mais eficiente possível de quadros e competências em cuidados de saúde para atender às necessidades de saúde de suas populações".

Na avaliação da OMS, os resultados do estudo "são particularmente relevantes para os países que se esforçam para fornecer aos seus cidadãos o acesso universal a serviços de saúde de qualidade e a preços acessíveis".

"A realização ou a manutenção de uma cobertura universal de saúde é um desafio para todos os países: os modelos tradicionais de cuidados médicos, dominados pelo provimento de serviços curativos caros orientados por médicos em centros de cuidados terciários, possuem suas limitações", declara Giorgio Cometto, consultor para o diretor executivo da Global Health Workforce Alliance, uma parceria da OMS.

"Porém, quando se atribui um papel mais proeminente aos profissionais de saúde de nível médio, os serviços de saúde podem responder melhor às necessidades dos cidadãos - e esta abordagem pode igualmente levar à economia de dinheiro em longo prazo", diz Cometto, que também é um dos autores do estudo.

Para ele, "os resultados desse estudo pode ajudar países como o Brasil a lidar com seus desafios em termos de saúde".

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