Gerard Julien/AFP
Gerard Julien/AFP

OMS vai retomar testes com hidroxicloroquina em ensaio clínico global

Entidade afirma, porém, que não há evidência científica sobre a eficácia da droga em pacientes da covid-19

Guilherme Bianchini, especial para o Estado

03 de junho de 2020 | 13h06
Atualizado 03 de junho de 2020 | 23h51

A Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou que vai retomar os testes com a hidroxicloroquina em pacientes da covid-19 , nesta quarta-feira, 3. O remédio estava temporariamente suspenso do ensaio clínico global da entidade — o projeto Solidariedade — desde o último dia 25, por precaução, mas agora voltará à ativa. Apesar da retomada, ainda não há evidências científicas sobre a eficácia da droga.

A decisão se baseia em dados recolhidos pela própria OMS, no Solidariedade, em pacientes que tomaram a hidroxicloroquina. De acordo com o Comitê de Segurança e Monitoramento de Dados do órgão, não há riscos evidentes no uso do medicamento. O projeto conta com a participação de 35 países ao redor do mundo, que já recrutaram 3,5 mil infectados pelo novo coronavírus em hospitais para testar a eficácia de possíveis tratamentos.

"Com base nos dados de mortalidade disponíveis, os membros do comitê afirmaram que não há motivos para modificar o protocolo dos testes com hidroxicloroquina. O Grupo Executivo endossou a continuidade e vai comunicar a decisão aos principais pesquisadores do Solidariedade. O comitê continuará monitorando de perto a segurança de todos os tratamentos testados no ensaio clínico", disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Além da hidroxicloroquina, outras três drogas são analisadas pelo Solidariedade como alternativas para combater a covid-19: o remdesivir (usado no tratamento do ebola), o lopinavir/ritonavir (HIV) e o interferon beta-1a (esclerose múltipla).

“Estamos falando de um ensaio clínico, para provar a eficácia e a segurança desses medicamentos em pacientes hospitalizados. Precisamos de uma resposta clara a respeito do que funciona ou não para os pacientes. É possível que, no futuro, haja novas mudanças no ensaio. Ele é flexível, pode incluir novos protocolos, suspender outros. Baseia-se em dados científicos disponíveis em cada momento”, esclareceu a cientista-chefe da OMS, Soumya Swaminathan.

Na suspensão temporária da hidroxicloroquina, de semana passada, a interrupção se apoiava em um estudo externo, publicado na revista científica The Lancet, que alertou para os riscos de aumento da mortalidade e de arritmia cardíaca em infectados que tomaram o remédio.

Nesta terça-feira, 2, porém, o periódico emitiu um “manifesto de preocupação” sobre esse estudo, pois especialistas levantaram “sérias dúvidas científicas” sobre a metodologia utilizada. A pesquisa está sob auditoria independente para apurar a proveniência e a validação dos dados.

Um dos principais pontos sob análise é o fato de os dados terem sido compilados pela Surgisphere, uma empresa de saúde americana. No mesmo dia, outra revista médica de referência, a New England Journal of Medicine (NEJM), também pôs sob auditoria e análise outros estudos envolvendo a Surgisphere, que vinculam a morte por covid-19 a doenças cardíacas.

O jornal inglês The Guardian lançou a público questionamentos, após ouvir uma série de fontes médicas nas últimas semanas. Conforme um levantamento feito pelo periódico, os dados compilados não têm fontes claras e exemplifica com a Austrália, onde nenhum dos principais hospitais diz ter enviado dados à Surgisphere - uma empresa que surgiu em 2008, a princípio fazendo livros didáticos. E o número de mortos compilado no estudo foi superior ao registro oficial. Além disso, apesar de alegar ter um banco de dados, a empresa mal tem presença online. 

Entre os funcionários listados como diretores estão um ator pornográfico e um escritor de ficção científica. O diretor executivo, Sapan Desai, teria ainda sido listado em três processos de negligência médica. Procurado pelo Guardian, Desai negou irregularidades e diz ter montado seu banco de dados ao longo de anos.

As advertências com o termo “expressão de preocupação” sempre indicam um estudo com problemas potenciais. Gilbert Deray, do hospital parisiense Pitié-Salpêtrière, prevê a possibilidade de retratação e de “desastre” para a reputação das revistas. “Isso mostra que o ritmo científico deve se desconectar do midiático. A pandemia não justifica estudos medíocres.”

A Lancet promete respostas em uma semana. Assinantes do estudo, liderados por Mandeep Mehra, diretor do Brigham and Women’s Hospital Center, em Boston, defenderam os resultados. “Estamos orgulhosos desse trabalho.” Já os médicos que vêm defendendo a hidroxicloroquina, incluindo o francês Didier Raoult, se sentem avalizados. “O castelo de cartas desabou”, afirmou nas redes sociais.

Bolsonaro defende medicamento

No Brasil, o uso do medicamento é fortemente encorajado por Jair Bolsonaro, mesmo diante da falta de comprovação científica sobre sua eficácia. Por pressão do presidente, o Ministério da Saúde liberou a droga para todos os pacientes com covid-19 no País, desde os casos mais leves até os mais graves. No último domingo, 31, os Estados Unidos enviaram ao Brasil dois milhões de doses da hidroxicloroquina.

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