Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Onda de frio no País traz alerta para aglomerações e disseminação do novo coronavírus

Temperaturas mais baixas podem motivar pessoas a estarem em locais fechados; problemas de pele associados ao frio e ao álcool em gel também são comuns

Marina Aragão, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2020 | 11h11

A chegada de uma forte massa de ar frio polar nesta semana, em meio à pandemia do novo coronavírus, intensificou a preocupação com as doenças respiratórias e a circulação de vírus e bactérias típicas dessa estação, para além do Sars-CoV-2. Gripes, resfriados, rinites, asma, bronquite e outras infecções encontram condições propícias nas baixas temperaturas. Outros problemas comuns são os dermatológicos - pele ressecada já é característica do tempo frio e pode piorar com o uso do álcool gel.

As doenças respiratórias tendem a se concentrar no período do inverno por dois principais motivos: existe uma razão fisiológica em que, com a temperatura mais baixa, há uma diminuição da circulação sanguínea em áreas que recebem o ar frio, como os pulmões, por exemplo. Isso permite uma infecção mais ágil e eficiente por parte dos vírus que são transmitidos pela via respiratória. É o que explica Flávio Guimarães, virologista do Centro de Tecnologia de Vacinas da Univerisidade Federal de Minas Gerais e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia

"Existe também uma razão social, que é a tendência de aglomeração das pessoas em locais fechados. Isso também contribui para o alastramento de doenças respiratórias no inverno", acrescenta Guimarães.

Mas o especialista faz uma ressalva em relação ao vírus da covid-19: "O coronavírus, como muitas coisas na pandemia, vieram para quebrar alguns paradigmas. Muito se falou que o Brasil teria uma chance melhor, isso há 4, 5 meses, porque nossa temperatura é maior, o vírus não se adaptaria bem, o que não correspondeu à realidade. Agora que está esfriando mais, será que vai ficar pior? Eu acho que não". 

Para ele, o que pode causar os principais picos da doença, mesmo que momentâneos, é o processo de flexibilização e retomada das atividades que está acontecendo em grande parte do Brasil.

Importância de evitar aglomerações

A infectologista e professora do Departamento de Clínica Médica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Raquel Stucchi ressaltou que, neste momento de pandemia, o recado para os dias frios continua o mesmo: "fiquem em casa". De acordo com Raquel, a baixa temperatura é um motivo a mais para as pessoas ficarem reclusas.

"Não devemos promover nenhum tipo de aglomeração, não é hora de encontrar os amigos, de encontrar a família, porque a aglomeração, principalmente nos locais fechados e com pouca ventilação, que é como ficam os ambientes agora nesses dias mais frios, aumenta muito o risco de transmissão do novo coronavírus", explica. 

Caso precisem sair, Raquel aconselha que as pessoas se agasalhem bem, continuem usando máscara corretamente - sempre cobrindo boca e nariz -, mantenham o distanciamento social e higienizem as mãos.

Raquel lembrou ainda que os outros vírus respiratórios, principalmente o da gripe, também continuam circulando e o uso da máscara é uma medida importante para evitar o contágio por estes vírus. Além da vacina, que ainda está disponível. "As pessoas devem procurar as unidades básicas, aqueles que ainda não vacinaram contra a gripe este ano, para serem vacinados", orienta.

A especialista explica também que a recomendação para toda pessoa que tenha quadro respiratório, que não seja alérgico ou crônico, como a rinite, por exemplo, deve procurar as unidades básicas de saúde para coleta do exame do novo coronavírus - ainda nos primeiros dias dos sintomas.

Manter o sistema imunológico em funcionamento é uma das principais providências para não ser pego de surpresa pela virada no tempo. Tomar bastante água para não descuidar da hidratação é uma das principais dicas dos médicos e, além disso, o consumo das frutas cítricas, ricas em vitamina C. 

Para a época de frio, infectologistas recomendam manter os ambientes arejados e ventilados. Mas, com temperaturas extremas e frio intenso, isso fica mais difícil. "Não sendo possível, isso reforça a importância de não ter aglomeração, de não reunir pessoas que não moram juntas. O fato de eu não conseguir ventilar os ambientes por causa do frio me obriga a ficar quietinho em casa e sem receber ninguém", ressalta a infectologista. 

Imprevisível 

O coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, José Medina, disse não ser possível saber se a incidência da covid-19 irá aumentar com o frio.

De acordo com Medina, se, por um lado, as pessoas saem menos de casa, por outro, as pessoas de uma mesma família passam mais tempo próximas. "Se tiver uma pessoa da família, que por alguma razão esteja contagiada, a chance de transmissão dentro de casa é maior", afirmou Medina, durante entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes.

Cuidados com a pele

Um dos principais problemas de pele que se intensificou com a chegada do inverno é o quadro de alergia. "O inverno deixa a nossa pele mais ressecada, não só pelo clima em si, mas também porque os nossos banhos acabam sendo muito mais quentes do que seriam normalmente, e isso contribui para que a pele fique mais ressecada", explica a dermatologista Eloisa Zampieri. Algumas pesssoas já têm predisposição genética, mas mesmo quem não tem, pode notar a pele com coceira ou mais sensível nesse período. 

Com a pandemia, o uso do álcool gel foi outro agravante para o ressecamento. Eloisa explica que a substância causa uma quebra de barreira, uma ruptura do estrato córneo da pele. Com a perda de água, a camada externa fica mais vulnerável e predisposta a coeiras e a vários tipos de alergia. 

Um segundo problema que piora no inverno são as dermatites, como psoríase e dermatite seborreica. "A pandemia também intensificou os quadros de dermatite seborreica, que vemos no couro cabeludo e na região do rosto, nariz, ao redor da boca. Fica uma pele vermelha, coçando e descamando, com casquinhas brancas", explica a médica.

A pandemia da covid-19 acabou intensificando esses sintomas por duas razões: "a primeira que o cenário atual de incerteza gera muita ansiedade e estresse na mente, então isso contribui para a piora. Além disso, o própio uso de máscara tem piorado o quadro de dermatite seborreica da face e contribuído para o aparecimento da própria acne. Surgiu até uma nomenclatura chamada mascne, que é a união da palavra máscara com acne".

Como dica principal, Eloisa aponta a importância de manter a saúde mental em dia, manejando o estresse e a ansiedade. Além disso, "em relação ao ressecamento, é possível evitar o uso de álcool gel em casa, porque podemos trocá-lo pela lavagem com água e sabonete neutro". Na sequência, é importante hidratar as mãos e, da mesma maneira, quando sair do banho, é interessante já hidratar a pele com um creme específico porque isso restaura a barreira cutênea. "Na rua, temos de usar o ácool mesmo e, se possível, andar sempre com um hidratante na bolsa", acrescentou.  

Situação de rua

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), informou que a capital iniciou a Operação Baixas Temperaturas para abrigar a população em situação de rua. Segundo ele, equipes noturnas fazem o convite aos abrigos públicos quando as temperaturas caem abaixo dos 13º C. Há, porém, uma sobra de vagas: 10 mil pessoas já foram abrigadas desde maio em período noturno e 800 recusaram. Ao todo são mais de 24 mil vagas ofertadas pela capital paulista.

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