Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Ônibus intermunicipal de SP terá tecido anticovid; entenda como funciona

Especialistas alertam que material evita contágio pelo contato, mas não elimina o risco da transmissão respiratória

Marcela Coelho, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 22h20

SÃO PAULO - O governo de São Paulo anunciou nesta quarta-feira, 28, que parte da frota da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), responsável pelas linhas de ônibus intermunicipais, começou a circular com tecido que possui ação antibacteriana e antiviral – inclusive contra os micro-organismos envelopados, como são classificados os vírus influenza, herpes vírus e os coronavírus. A ideia do projeto é diminuir a possibilidade de contágio pela covid-19 dentro do transporte público. 

Especialistas alertam que esse tipo de material ajuda a evitar a transmissão pelo contato. Por outro lado, não é capaz de eliminar o contágio respiratório, forma mais comum de ser infectado. 

A partir desta quarta, 12 dos 120 ônibus previstos com o acabamento antiviral foram integrados à frota. Esses primeiros coletivos pertencem à Viação Osasco, que atua na região oeste da região metropolitana de São Paulo. Conforme o governo, a previsão para que os outros estejam em circulação é até o fim de novembro e está em produção material para revestir mais 200 veículos.  

Os bancos, balaústres e catracas dos ônibus foram revestidos com tecido poliamida, que tem tecnologia capaz de romper a camada de gordura do vírus, impedindo que ele se fixe na superfície. Dessa forma, quando o passageiro encosta na superfície protegida, não é contaminado. Além disso, a tecnologia usada consegue inativar o Sars-Cov-2, vírus causador da atual pandemia, a partir dos 30 segundos de contato.

“Com essa tecnologia, vamos trazer mais segurança para o passageiro e ajudar a controlar a disseminação do coronavírus, diminuindo em 99,99% as chances de contaminação cruzada (quando um infectado coloca a mão em uma superfície e, em seguida, outro indivíduo toca no mesmo local, correndo o risco de contrair a doença)”, afirma o secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, Alexandre Baldy.

O tecido está sendo desenvolvido pela ChromaLíquido Soluções Tecnológicas, em parceria com a Rhodia, empresa do Grupo Solvay, e com a TNS Nanotecnologia, e o investimento privado para os 120 ônibus é de R$ 1 milhão.

Medidas de higiene no transporte público ainda são necessárias

O tecido foi testado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) contra um vírus da mesma família e gênero do novo coronavírus. Mas não houve testes contra o Sars-Cov-2, que provoca a covid-19.  

No estudo da Unicamp, os pesquisadores concluíram que o revestimento foi eficaz para inativar partículas virais e, portanto, recomendado para o “uso como potencial agente virucida para o grupo Coronavírus”.

Alexandre Naime Barbosa, chefe da Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que o tecido é realmente efetivo para evitar a transmissão por contato pela covid-19, mesmo tendo sido testado contra um outro vírus.

“O Sars-Cov-2 é um betacoronavírus e precisa de um laboratório de alta complexidade. Não teria custo-benefício fazer um teste desse com um vírus tão perigoso, sendo que os outros (da família) têm a mesma estrutura, a mesma carapaça, o mesmo revestimento que o Sars-Cov-2. Se funciona com um vai funcionar com o outro. Ou seja, o tecido realmente mata o novo coronavírus”, afirma.

Embora seja eficiente para evitar a transmissão por contato, Barbosa alerta que em um transporte público o que mais preocupa é a transmissão respiratória. “85% a 90% dos casos acontecem por transmissão respiratória através das gotículas. Quando estamos conversando, se não estivermos de máscara e estivermos numa distância menor que 1,5 metros, trocamos essas gotículas, que são a principal forma de transmissão. Já a transmissão por contato é responsável por 10% ou, no máximo, 15% dos casos.”

A doutora em biociências e biotecnologia e microbiologista Laura de Freitas segue a mesma linha. “O tecido não vai ser capaz de desativar nada no ar. A partícula que sai do seu nariz, da sua boca, vai ficar suspensa no ar, a não ser que seja uma gotícula muito grande, que vai ser pesada e cair no chão. O restante vai ficar suspenso no ar por um tempo. E essa suspensão que vai causar a contaminação e o tecido não vai poder fazer nada a respeito. Ele vai reduzir muito a transmissão por contato, mas por via aérea não interfere.”

Os especialistas também ressaltam que as pessoas precisam tomar cuidado para não encarar essa medida como forma principal de prevenção e esquecer os cuidados essenciais que impedem a transmissão, como distanciamento social e uso de máscara. “O revestimento ajuda, você fica com a mão um pouco mais limpa, porque tem um contato menor com vírus e bactérias. Mas ainda precisa usar máscara para entrar no ônibus, lavar as mãos quando sair dele, porque não é garantia nenhuma. Só os vírus que ficam no tecido vão morrer. Os que ficarem na sua mão, vão continuar sendo capazes de infectar”, explica Laura.

Para Barbosa, o ideal seria investir essa tecnologia em máscaras. “A máscara é justamente para impedir as gotículas. Só que a gente vive colocando a mão na máscara, mesmo sabendo que não deve. Então, imagina uma máscara com tecido antiviral, a hora que você vai manipular a máscara, o vírus estaria morto”, completa.

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