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Onze pacientes morrem à espera de UTI em Taboão da Serra, diz prefeitura; governo de SP nega

Vítimas tinham entre 46 e 95 anos; gestão municipal alega que central de regulação do Estado negou transferências de pacientes por falta de vagas

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2021 | 13h29
Atualizado 09 de março de 2021 | 15h28

Onze pacientes com covid-19 morreram à espera de um leito de UTI em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, de acordo com informações divulgadas pela prefeitura do município. As vítimas tinham entre 46 e 95 anos e aguardavam por transferência pela Central de Regulação e Ofertas de Serviços de Saúde (Cross), do Governo do Estado, que nega ter recusado atendimento.

Secretária municipal adjunta, Thamires May fala em “desespero” e aponta que os únicos retornos positivos que teve da Secretaria Estadual da Saúde entre a quarta-feira, 3, e a segunda-feira, 8, foram para demandas não relacionadas à doença ou casos que não exigiam internação para UTI covid. Depois desse período, ela diz ter recebido as primeiras quatro admissões em terapia intensiva apenas na manhã desta terça-feira, 9, após ter divulgado a situação na imprensa.

Outros 12 pacientes seguem na fila de espera no município. “Infelizmente, eles podem vir ao óbito a qualquer momento. Quando se fala de covid, segundos mudam tudo”, lamenta. 

A secretária explica que nenhum paciente ficou desassistido de leito e suporte ventilatório quando necessário, mas que não há recursos de alta complexidade para disponibilizar todo o suporte necessário. “Mesmo todos apertadinhos, a gente desativou o consultório (para aumentar vagas, indo de 40 para 70 em leitos de enfermaria). Os que entraram em óbito estavam entubados. O limite que a gente tem chegou até o fim. Alguns precisavam de hemodiálise, exames de alta complexidade.”

“Se o Estado entrou em colapso, tem que mostrar para a população que houve isso, até como uma forma de alertar. A gente teve de mostrar essa situação para tentar mobilizar o Estado e salvar essas 16 vidas (que estão na fila ou conseguiram transferência nesta terça).”

A secretária comenta que as vagas de UTI “vinham diminuindo aos poucos” e que era comum levar de 24 a 30 horas para conseguir a transferência. “Agora, seis dias é preocupante”, aponta. “Se a gente consegue ter evasão dos casos graves, consegue dar conta da baixa e média complexidade dentro do município. Estamos em uma guerra, precisamos vencê-la juntos.”

Na ficha de uma das vítimas, uma idosa de 77 anos com dificuldades respiratórias, há 40 pedidos de leito de UTI negados ao longo de quatro dias em hospitais de Cotia, Itapecerica da Serra, Osasco, Itapevi, Carapicuíba e da cidade de São Paulo (das Clínicas, Emílio Ribas, Mandaqui, Vila Penteado, Brasilândia e de Campanha da AME Barradas). 

Todas as negativas têm respostas semelhantes sobre falta de vagas, tais como: "recurso indisponível", “superlotação”, "sem leitos de UTI no momento", "Unidade de Emergência lotada", “sem macas para acomodar pacientes” e "sem condições de receber pacientes neste momento".

O município aponta não dispor de leitos de terapia intensiva e afirma que as vagas de enfermaria para covid-19 foram ampliadas de 40 para 70 leitos nesta semana. Os primeiros quatro óbitos de pacientes na fila ocorreram na sexta-feira, 5, vitimando duas idosas, de 76 e 73 anos, um idoso de 75 anos e um homem de 58 anos. No dia seguinte, morreram duas idosas de 74 e 95 anos e um homem de 46 anos, seguidos de um homem de 52 anos no domingo. Por fim, na segunda-feira, morreram outros dois idosos, de 62 e 75 anos, e uma idosa de 71 anos.

Em nota, a Secretaria Estadual da Saúde diz que a Cross não negou vagas a Taboão da Serra e que atendeu a 14 solicitações envolvendo pacientes (suspeitos ou confirmados) da covid-19 desde quarta-feira, 3. Ela alega ter sido notificada de oito mortes relacionadas à doença entre 28 de fevereiro e a última segunda, de pacientes entre 53 e 82 anos, todos do grupo de risco (por idade ou comorbidades), com pedidos “registrados em média 24 horas antes do óbito”.

“Nessas situações, o falecimento ocorreu não por ausência de medidas pelo Estado, mas pela gravidade clínica dos pacientes. Outros dez pedidos registrados no período ficaram sem atualização por parte do município em período superior a 48h, o que inviabiliza o trabalho dos médicos da Cross”, acrescenta a nota, que ainda aponta que o papel da central não seria de criar leitos, mas de auxiliar na identificação de vagas. “Vale lembrar que o Estado atua de forma regionalizada e a criação de leitos não é prerrogativa desta única esfera, cabendo também ao município e ao Governo Federal.”

A Secretaria também apontou que Taboão da Serra tem dois hospitais estaduais de referência para covid-19 em municípios vizinhos. Ambos estão com alta demanda de pacientes, mas aparecem com vagas de terapia intensiva na última atualização do Sistema de Monitoramento Inteligente do Estado, datada de segunda. Na plataforma, o Hospital Regional de Cotia está com 41 pacientes em enfermaria (para 36 leitos) e 17 na UTI (para 30), enquanto o Hospital Geral de Itapecerica da Serra está com 32 pessoas na enfermaria (para 10 vagas) e 24 na UTI (para 31). Na ficha da paciente que teve a transferência negada, contudo, ambos alegam "superlotação" em todas as vezes que foram solicitados.

São Paulo está com 80,9% de ocupação de UTI para covid-19, média que é de 81,9% na Grande São Paulo. Segundo o boletim estadual, Taboão da Serra tem 12.552 casos e 422 óbitos confirmados pela doença.

Homem de 52 anos morre à espera de UTI em Sumaré, diz família

Outro caso semelhante foi denunciado por familiares de Antonio Carlos Golin, de 52 ano, que morreu no fim de semana em Sumaré, na região de Campinas, à espera de leito de UTI. Ele estava em quadro clínico grave há dias.

Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, o paciente estava “com evolução negativa” e “não respondeu aos cuidados no serviço de origem”. “Importante reiterar que é responsabilidade do serviço de origem manter o paciente assistido e estável previamente à transferência, bem como providenciar transporte adequado para deslocamento seguro da/o paciente.”

O Estadão procurou a prefeitura de Sumaré, mas não teve retorno até o momento. O município está com 16 pacientes na UTI e 25 em enfermaria por covid-19 no Hospital Estadual Sumaré e na UPA Macarenko na última atualização do sistema de monitoramento de leitos. Sumaré tem 12.033 casos e 307 óbitos confirmados pela doença.

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