Operação Fura-Fila complica ainda mais transplantes no Rio

Desde o início da operação da PF, não houve nenhuma captação ou transplante hepático no Estado

Fabiana Cimieri, especial para o Estado,

04 de agosto de 2008 | 19h48

A Operação Fura-Fila, da Polícia Federal, que prendeu na quarta-feira passada o médico Joaquim Ribeiro Filho por peculato e indiciou outras quatro pessoas de sua equipe de transplantes de fígado, acabou por desorganizar ainda mais o sistema estadual de transplantes. Desde então, não houve nenhuma captação ou transplante hepático no Estado, apesar de terem havido notificações. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, as notificações não se concretizaram porque os casos evoluíram com parada cardíaca, o que inviabiliza a doação.  Nesta segunda-feira, 4,, os primeiros dos 1.077 pacientes na fila de espera por um fígado foram às Unidades de Pronto Atendimento para refazerem o exame de sangue. Na semana passada, a secretaria determinou que todos os exames sejam refeitos para que o índice de Meld, que mede a gravidade da doença, seja recalculado. De acordo com a auditoria realizada pelo Denasus, Ribeiro Filho manteria pacientes com exames desatualizados ou falsificados, com o intuito de facilitar o desvio de órgão para paciente que não estivessem em primeiro lugar da fila.  "Qualquer notícia negativa influencia na captação de órgão. Há uma queda na doação de órgão, que é de 6 a 10 (fígados) por mês. Por isso lutamos pela transparência do programa: a central de captação tem um telhado de vidro e tudo prejudica o trabalho", disse o diretor da Associação de Transplantados do Hospital Geral de Bonsucesso, Carlos Cabral.  O presidente do Grupo Optimismo, de apoio aos portadores de hepatite C, Carlos Varaldo, defende que o governo inicie uma grande campanha de doação de órgãos e regulamente a lei que determina que os hospitais com mais de 80 leitos devam ter uma comissão de captação intra-hospitalar. "A Lei Seca já havia reduzido o número de doadores, já que 95% deles eram vítimas de acidentes de trânsito. Agora com a notícia do doutor Joaquim piorou ainda mais. Se o governo não tomar uma atitude, daqui a 30, 60 dias vai ter morrido muita gente em lista de espera", afirmou.  Manifesto Amigos e parentes do médico começaram a fazer circular pela internet um manifesto em sua defesa. Nele, argumentam que "a visão da fila nestes casos não pode ser equivalente à visão da fila de um banco". "Não somos cartões de crédito, cédulas bancárias, talões de cheque. Somos seres com alta complexidade. Transplantar um órgão não é o mesmo que montar um robô. Um órgão pode ser compatível com uma pessoa e não com outra por inúmeras razões, idade, tamanho, estado, enfim, razões que somente os médicos sabem apontar", afirma o documento.  A cardiologista do Pró-Criança Cardíaca, Rosa Célia Barbosa, é uma das signatárias do documento. Ela condenou a prisão do médico, independente ou não de ele ser culpado das acusações de peculato. "Os leigos não entendem o que está ocorrendo, não sabem o que é a burocracia do serviço público, você não anda". Segundo Rosa Célia, quando Ribeiro Filho coordenava o Rio Transplantes, sempre agilizou os enxertos solicitados pela cardiologista pediátrica. "Mas eu nunca paguei nada".  O juiz da 3ª Vara Federal Criminal, Lafredo Lisboa, enviou ontem ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região mais informações para que a 2ª Turma Especializada decida sobre o pedido de habeas corpus de Ribeiro Filho. Na sexta-feira, a juíza federal convocada Andréa Cunha Esmeraldo negou o pedido de liminar para soltar o médico e pediu outras justificativas para manter a prisão.  Lisboa afirma que Ribeiro Filho prestou depoimento à Polícia Federal em 19 de maio de 2005, contestando os advogados de Ribeiro Filho, que afirmam que ele não teve direito de se defender.

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