Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Órgão de saúde dos EUA reconhece que novo coronavírus pode ser transmitido pelo ar

CDC atualizou documento acerca da contaminação do vírus, mas Organização Mundial da Saúde já havia alertado sobre essa possibilidade

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 19h54

O Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) reconheceu nesta segunda-feira, 5, que o novo coronavírus pode ser transmitido pelo ar. O órgão de saúde americano atualizou um documento disponível no site da agência sobre as formas de contaminação do Sars-CoV-2 com essa informação, mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) já tinha alertado acerca dessa possibilidade em julho.

Na diretriz, o CDC destaca que a transmissão aérea da covid-19 pode ocorrer "às vezes" e "sob certas condições" pela exposição a gotículas ou pequenas partículas do vírus que podem ficar no ar por minutos ou horas. Porém, diz ser mais comum a infecção entre pessoas que tiveram contato próximo. O órgão também afirma que esse tipo de disseminação é uma via importante em outras infecções, como tuberculose, sarampo e catapora.

"Há evidências de que, sob certas condições, as pessoas com covid-19 parecem ter infectado outras que estavam a mais de dois metros de distância. Essas transmissões ocorreram em espaços fechados com ventilação inadequada. Às vezes, a pessoa infectada respirava com dificuldade, por exemplo, enquanto cantava ou fazia exercícios", descreve.

"Nessas circunstâncias, os cientistas acreditam que a quantidade de gotículas infecciosas menores e partículas produzidas pelas pessoas com covid-19 se concentraram o suficiente para espalhar o vírus para outras pessoas. As pessoas infectadas estavam no mesmo espaço durante o mesmo período ou logo após a saída da pessoa com covid-19", completa o CDC.

A atualização da página ocorre após um incidente no mês passado, quando a agência retirou do site uma publicação que reconhecia a transmissão pelo ar. Segundo o órgão, o material não tinha passado pela revisão adequada e foi postado por engano. O texto do projeto incluía uma referência aos aerossóis - gotículas minúsculas que podem permanecer no ar, viajando potencialmente por uma distância significativa. Autoridades disseram que o projeto foi removido porque temiam que a linguagem pudesse ser mal interpretada como uma sugestão de que a transmissão aérea é a principal forma de propagação do vírus.

Em julho, a OMS publicou um informe científico, após pressão de pesquisadores, em que passou a considerar o risco de transmissão do novo coronavírus pelo ar. A partir daí, o uso de máscaras de proteção passou a ser recomendado também em ambientes fechados. Na ocasião, a entidade citou relatos de surtos relacionados a locais  fechados, como restaurantes, templos religiosos e espaços de ginástica.

Dias antes, o órgão mundial havia recebido uma carta assinada por 239 cientistas de 32 países em que descreviam evidências de partículas menores poderem infectar pessoas. Com o documento, eles pediram que a agência reavaliasse as recomendações que vinham sendo repetidas até então. Esse reconhecimento ajudaria a definir as estratégias mais efetivas e fornecer um guia claro e consistente ao público.

Também nesta segunda-feira, cientistas de universidades dos Estados Unidos publicaram uma carta conjunta no site da revista Science na qual afirmam que "há evidências contundentes" de que a inalação do Sars-CoV-2 é a principal via de transmissão da covid-19 e, por isso, há a necessidade de explicar a diferença entre aerossóis e gotículas usando a medida de comprimento de 100 µm (100 micrômetros). Segundo eles, essa distinção "separa com mais eficácia o comportamento aerodinâmico, a capacidade de inalação e a eficácia das intervenções".

"Os vírus em gotículas (maiores que 100 µm) normalmente caem no solo em segundos a dois metros da fonte e podem ser pulverizados como pequenas balas de canhão em indivíduos próximos. Por causa de seu alcance de deslocamento limitado, o distanciamento físico reduz a exposição a essas gotículas", pontuam.

Já os vírus em aerossóis (menores que 100 µm) "podem permanecer suspensos no ar por vários segundos a horas, como fumaça, e ser inalados. Eles estão altamente concentrados perto de uma pessoa infectada, portanto, podem infectar pessoas nas proximidades". Porém, eles alertam que essas partículas que contêm vírus infecciosos também podem viajar por mais de dois metros e se acumular no ar em um ambiente mal ventilado, o que leva "a eventos de superespalhamento".

Os cientistas explicam também que as pessoas com covid-19 liberam milhares de aerossóis carregados de vírus e menos gotículas ao respirar ou falar. "Assim, é muito mais provável alguém inalar aerossóis do que ser pulverizado por uma gota e, portanto, o equilíbrio da atenção deve ser mudado para a proteção contra a transmissão aérea", afirmam. Para eles, além da necessidade de uso de máscara, distanciamento social e medidas de higiene, é preciso que os profissionais de saúde deem "orientações claras sobre a importância de atividades ao ar livre, melhorem o ar interno usando ventilação e filtração e melhorem a proteção para trabalhadores de alto risco". /Com agência internacional

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