Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Orientação para suspender vacinação é mais uma cortina de fumaça; leia análise

Ação cria um terreno fértil para brotar a desconfiança em relação ao timing dessa decisão; governo enfrenta problemas e crises de todos os tipos

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 20h31

BRASÍLIA - No momento em que o processo de imunização em massa dos brasileiros contra o coronavírus tinha engrenado de vez, o Ministério da Saúde decidiu orientar a suspensão da vacinação de adolescentes sem comorbidades por conta de um caso com efeito adverso grave. No caso, uma morte. Em condições normais e com todas as dúvidas esclarecidas, seria bastante razoável se adotar essa precaução. O problema é que, como já virou uma marca do governo, há fortes suspeitas de que a decisão tenha sido mais uma cortina de fumaça para desviar a atenção de problemas graves enfrentados pelo governo.

A tradicional live feita pelo presidente Jair Bolsonaro às quintas-feiras foi reveladora. Ela indica que a decisão pode ter sido fundamentada apenas na opinião do presidente. Disse o presidente: “Minha conversa com o Queiroga não é uma imposição. Eu levo para ele o meu sentimento, o que eu leio, o que eu vejo, o que chega ao meu conhecimento. Você pode ver como está a situação: a OMS é contra a vacinação entre 12 e 17 anos. A Anvisa, aqui no Brasil, é favorável à vacinação de todos os adolescentes com a Pfizer. É uma recomendação. Você é obrigado a cumprir a recomendação?”, perguntou Bolsonaro ao ministro. E este responde que não é obrigado.

Na melhor das hipóteses, trata-se da reedição do “um manda e o outro obedece” do ex-ministro general Eduardo Pazuello, já gravada nas trágicas páginas do combate à pandemia do coronavírus. Bolsonaro mandou e Queiroga acatou. Simples assim. A dúvida é o que levou Bolsonaro a tomar essa atitude.

E isso cria um terreno fértil para brotar a desconfiança em relação ao timing dessa decisão. O governo enfrenta problemas e crises de todos os tipos. Na economia, na área social e na própria pandemia.

No caso específico da pandemia, no Congresso e pela internet, críticos do governo lembram da falta de imunizantes para a aplicação da segunda dose. E citam que a suspensão da vacinação dos jovens serviria para cobrir esse déficit de imunizantes e corrigir a falha de fornecimento do governo.

Além disso, há suspeitas mais graves ainda. A suspensão da vacinação acontece no mesmo dia em que foi revelado o conteúdo de um dossiê entregue à CPI da Covid por um grupo de médicos, que diz ter trabalhado para a Prevent Senior. Nele, há uma denúncia escandalosa, dando conta que integrantes do chamado “gabinete paralelo” do governo Bolsonaro teriam feito uma espécie de teste da eficiência do kit covid (hidroxicloroquina e azitromicina), o aplicando em pacientes da operadora de saúde. E o principal detalhe: sem que pacientes ou seus familiares tivessem sido informados previamente. Para piorar, o dossiê aponta que as mortes ocorridas durante o experimento teriam sido ocultadas.

Se a denúncia for comprovada, será um escândalo de proporção incalculável. E claro que pesará politicamente sobre o governo.

Por isso, chama a atenção que o Ministério da Saúde tome uma medida de impacto tão grande como a suspensão sem que dúvidas importantes sejam esclarecidas. Foi anunciado pelo ministério que houve um caso com efeito adverso grave que justificaria a suspensão da vacinação, já que um jovem de 16 anos teria morrido. O problema é que a ligação entre a morte e o imunizante ainda não foi comprovada. Como o próprio Ministério admite, o caso está sob investigação.

Outra alegação que chama a atenção é que o ministério antecipou o que Bolsonaro disse na live citando que a Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda a imunização de crianças e adolescentes com ou sem comorbidades. Só que não é isso que a OMS indica. A entidade orienta apenas que menores de idade sejam vacinados depois dos grupos de maior risco.

Desde seu início, o combate à pandemia do coronavírus tem sido feito com grande negacionismo pelo governo e o número rondando as 600 mil mortes no País indica o tamanho gigantesco dessa tragédia. Por isso, há razões de sobra para que se ponha as barbas de molho e se desconfie que medidas gravíssimas desse tipo podem estar apenas servindo para acobertar os problemas do governo.

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