William DeShazer/The New York Times)
William DeShazer/The New York Times)

Os americanos queriam sair para comer novamente, e todos pagaram o preço disso

Dados de Estados e cidades indicam que muitos surtos do coronavírus durante o verão tiveram origem nos restaurantes e bares, frequentemente os principais ambientes de contágio para os americanos

Jennifer Steinhauer, The New York Times

14 de agosto de 2020 | 12h00

Em meados desse ano, no verão americano, bares e restaurantes que tanto sofreram com a quarentena obrigatória e o fim de sua receita abriram suas portas para os clientes, milhares dos quais ansiavam por tigelas de salgadinhos, drinques em copos exuberantes e hambúrgueres suculentos servidos com cebolas reluzentes.

Mas os ganhos no curto prazo levaram a perdas mais amplas. Dados de estados e cidades indicam que muitos surtos do coronavírus nas comunidades durante o verão tiveram origem nos restaurantes e bares, frequentemente os principais ambientes de contágio para os americanos.

Na Louisiana, cerca de um quarto dos 2.360 casos registrados no estado desde março que não ocorreram em lugares como asilos e prisões tiveram lugar em bares e restaurantes, de acordo com dados estaduais. Em Maryland, 12% dos novos casos no mês passado remontam a restaurantes, de acordo com o rastreamento de contatos, e, no Colorado, 9% dos casos em geral remontam a bares e restaurantes.

Não se sabe ao certo se uma parte dos funcionários transmitiu o vírus aos colegas ou aos clientes, ou se foram os clientes que trouxeram o vírus para o estabelecimento. Mas os focos preocupam as autoridades de saúde porque muitos funcionários de bares e restaurantes em todo o território dos Estados Unidos estão na casa dos 20 anos, podendo levar o vírus para casa e transmiti-lo dentro do lar, a exemplo do que se viu nas semanas mais recentes no Oeste e no Cinturão do Sol.

Desde o fim de junho, vários restaurantes populares em todo o país (incluindo episódios em Nashville, Tennessee; Las Vegas; Atlanta e Milwaukee) tiveram que fechar temporariamente por causa de casos registrados entre os funcionários. Texas e Flórida também tiveram que fechar bares no verão depois que um surto de novos casos paralisou novamente parte desses estados. Em uma semana recente em San Diego, 15 dos 39 novos casos registrados em comunidades decorreram da exposição ao vírus em restaurantes. E em Washington, capital, os casos começaram a aumentar novamente depois que a cidade liberou a abertura dos salões dos restaurantes.

Em Nova York e em muitos outros lugares, seguem proibidos os salões dos restaurantes, que se revelaram muito mais perigosos do que as mesas e balcões externos. Os epidemiologistas concordam que os salões dos restaurantes e, particularmente, os bares, são ambientes onde a probabilidade de início de um surto é muito maior do que nos ambientes externos.

“Até o momento, nenhum surto de coronavírus nos EUA parece ter sido causado pela exposição em ambiente externo", disse Lindsey Leininger, pesquisadora de políticas de saúde e professora da Faculdade de Administração Tuck, da Universidade Dartmouth.

Em Spokane, Washington, 24 clientes e um funcionário, em sua maioria com idades entre 19 e 29 anos, tiveram resultado positivo para o vírus. São casos ligados a um restaurante mexicano, apesar de as autoridades locais de saúde terem confirmado que o estabelecimento praticava todos os métodos de prevenção recomendados.

“São um fator que temos de aprender a administrar", disse Kelli Hawkins, porta-voz da secretaria de saúde de Spokane.

Desde o início da pandemia, alguns segmentos da economia, principalmente o atendimento de saúde (e os asilos) e o processamento de carne, responderam por uma grande proporção dos casos em muitos estados. Mas conforme cidades e estados buscaram a reabertura e com muitos donos de restaurantes lutando para sobreviver, o vírus acabou contaminando o processo. Quando o coronavírus finalmente chegou ao último condado da Califórnia que ainda não tinha registrado casos, a remota Modoc, no extremo nordeste do estado, a origem do contágio foi um restaurante basco no meio do nada.

Enquanto milhões de funcionários e bares e restaurantes que foram demitidos durante a quarentena aguardam desesperadamente a oportunidade de voltar ao trabalho, muitos se viram presos entre chefes que os querem de volta tão logo seja possível e clientes que não levam a sério as regras de segurança, como o uso de máscaras e o distanciamento social.

“Eu me senti totalmente obrigada a voltar ao trabalho no bar", disse Jennifer Welch, bartender de uma grande casa de sinuca em Baton Rouge, Louisiana. “Mesmo com um bebê de 1 ano com baixa imunidade, e mesmo com meu pai de 58 anos internado com câncer de pulmão.” Ainda que o desemprego trouxesse mais dinheiro, ela disse que cedeu à pressão e trabalhou turnos de 10 horas.

Os restaurantes têm um dilema. A ajuda federal aprovada pelo congresso no segundo trimestre foi destinada principalmente às empresas que preservaram o emprego da maioria de seus funcionários, mas restaurantes e bares foram proibidos de abrir. Então, muitas autoridades dos níveis loca, estadual e federal — incluindo o presidente Donald Trump — pressionaram pela reabertura dos restaurantes, mesmo enquanto outras alertavam para o risco de recomeçar o surto do vírus no terceiro trimestre.

“Os restaurantes geram uma considerável arrecadação fiscal com suas vendas e salários, e com isso parte da pressão veio dos governos municipais e estaduais", disse Daniel Patterson, chef e restaurateur da Califórnia, onde o número de casos aumentou vertiginosamente no terceiro trimestre. “E acho que um dos fatores por trás da rápida reabertura é o fato de nossa sociedade considerar os restaurantes dispensáveis, assim como seriam dispensáveis aqueles que trabalham nesses estabelecimentos. Com isso as pessoas se preocupam mais com as próprias necessidades e menos com a segurança dos funcionários dos restaurantes. Eles simplesmente querem um aperitivo e uma cerveja gelada, e ponto final.”

Como muitos empreendimentos, os restaurantes não puderam acionar o seguro empresarial por interrupção dos serviços porque o vírus não causou nenhum dano físico às suas propriedades.

Para obter auxílio federal, os restaurantes tinham primeiro que gastar 75% desse auxílio com a folha de pagamento (posteriormente, essa fatia foi reduzida para 60%). Eles também tiveram prazo reduzido para recontratar funcionários. Mas, de acordo com os donos de restaurantes, tudo isso só seria útil para os negócios se eles pudessem reabrir e gerar alguma receita durante esse período, o que foi quase impossível. A maioria dos estabelecimentos recebeu autorização para operar com metade da capacidade, e a pandemia se arrastou por mais tempo do que o esperado.

“Corremos o máximo possível para contratar o maior número de pessoas", disse Michael Shemtov, obrigado a fechar dois dos 10 restaurantes que opera em Charleston, Carolina, do Sul, e Nashville. “A única forma de atraí-los foi oferecer 40 horas de trabalho semanais, independentemente de eles cumprirem esses turnos.

Ele acrescentou, “Os dias de movimento no fim de semana não bastam para cobrir o custo da mão de obra”.

Ao mesmo tempo, “em maio o debate avançou do fechamento dos restaurantes para a volta ao trabalho e a retomada da vida", disse ele. “Quando falamos na necessidade de fazer baixar o número de casos antes de reabrir, o governo da Carolina do Sul não foi receptivo.”

Na Louisiana durante o segundo trimestre, legisladores republicanos ameaçaram o governador John Bel Edwards, democrata, com o veto aos seus poderes de emergência se ele não permitisse a reabertura dos negócios. Em alguns estados, a dinâmica foi invertida: restaurantes pressionaram o governo a permitir sua reabertura, dizendo que, caso contrário, fechariam definitivamente.

“Todos ficaram nervosos com a reabertura, compreensivelmente, mas qualquer bartender que se preze sabe que, quando é hora de trabalhar, deixamos a bagagem em casa para atender aos clientes", disse Waites Laseter, principal bartender do Backspace Bar & Kitchen, foco de contágio em Nova Orleans. Laseter disse que os primeiros dias de práticas seguras e gorjetas generosas logo escassearam conforme mais estabelecimentos abriram as portas e os turistas chegaram. Muitos deles se opuseram desagradavelmente às regras de segurança e tornaram um inferno o trabalho que ele tanto ama.

“Um amigo foi ameaçado com uma arma por causa do uso da máscara", disse ele. “Sempre encarei os bares como espaços seguros. Qualquer um pode misturar vodca e refrigerante em casa.”

Mas ele disse que “o comportamento inadequado nos bares pode se tornar um ato de rebelião política".

De acordo com os especialistas, o rastreamento de contatos pode ajudar a controlar os surtos com origem nos restaurantes, mas somente nos lugares onde não houver infecção generalizada. “Gosto de pensar que, graças ao rastreamento de contatos e à rápida quarentena dos contatos mais próximos, ainda não tivemos surtos maiores por causa dos restaurantes", disse Melissa Lunt, diretora de enfermagem da secretaria de saúde do condado de Graham, no Arizona. Quando trabalhadores apresentaram sintomas em dois restaurantes da região, a secretaria de saúde agiu para colocá-los rapidamente em quarentena, evitando o contágio na comunidade.

Os testes são um problema para os trabalhadores. Ainda que muitas cidades ofereçam testes gratuitos, os resultados podem levar dias ou semanas para ficarem prontos, deixando os empregados sem trabalho enquanto esperam.

“Em muitos casos o restaurante arca com a despesa de uma empresa privada se eles quiserem testes mais ágeis", disse o Dr. Alex Jahangir, presidente de uma força-tarefa de combate ao coronavírus em Nashville que estudou o papel desempenhado pelos restaurantes e bares nessa região. “Às vezes, o restaurante pede que o funcionário venha a uma de nossas cidades, onde o teste é gratuito, mas os resultados só ficam prontos em 3 dias. Quando a pessoa apresenta sintomas, às vezes o restaurante a encaminha a um centro médico local, pedindo ao seguro saúde que pague pelo teste.”

É claro que os restaurantes que pagam salários mais baixos e contratam funcionários em meio-período podem não ter seguro saúde. Alguns tinham seguro, mas as demissões prejudicaram sua capacidade de arcar com o pagamento desses planos.

Enquanto isso, alguns proprietários estão fazendo o possível para se manter em funcionamento e proteger a segurança das pessoas, a um considerável custo e com grande preocupação. Benjamin Goldberg, fundador do grupo Strategic Hospitality, que administra oito endereços em Nashville, abriu alguns estabelecimentos com salão e manteve outros fechados. No meio tempo, ele e sua equipe se tornaram verdadeiros especialistas em saúde pública. “Pesquisamos práticas usadas em todo o mundo e aprendemos com elas", disse ele. “As orientações municipais e estaduais foram apenas o ponto de partida.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL​

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