Não imunizar todo o planeta contra covid-19 pode custar mais de 1 milhão de vidas, dizem cientistas

Não imunizar todo o planeta contra covid-19 pode custar mais de 1 milhão de vidas, dizem cientistas

Especialistas de universidades americanas criam modelo que calcula os riscos de não aplicar doses em habitantes de baixa renda

Adam Taylor, Washington Post

15 de fevereiro de 2022 | 10h00

Um novo modelo está tentando calcular o custo de vacinar o mundo todo. E também pode revelar o enorme custo de não vacinar o mundo todo: pelo menos 1 milhão de vidas.

Pesquisadores das universidades de Yale, Brown, Maryland e Stanford, bem como do grupo Public Citizen, que defende um melhor acesso a medicamentos, publicaram o modelo e suas descobertas em um estudo ainda não revisado por outros cientistas na semana passada. Sua pesquisa, que outros especialistas chamaram de imperfeita, mas reveladora, surge em meio a uma nova pressão para o governo dos Estados Unidos garantir um acesso mais amplo a vacinas de tecnologia de RNA mensageiro contra o coronavírus, fabricadas pelas empresas americanas Pfizer e Moderna.

De acordo com o modelo, aplicar doses de vacina de RNA mensageiro em cada pessoa que vive em países de renda média e baixa este ano evitaria 1,2 milhão de mortes. Terceiras doses para essa população, já comuns em países ricos, evitariam 1,5 milhão de mortes, segundo o modelo.

Zain Rizvi, diretor de pesquisa da Public Citizen e um dos autores do estudo, disse que os resultados devem ser um “alerta” para os Estados Unidos. “O presidente Biden tem a oportunidade de salvar um milhão de vidas se lançar um programa global sério de fabricação e entrega de vacinas”, disse ele.

Os números estão alinhados com outras estimativas de organizações globais de saúde. O Covax, um esforço global de vacinação apoiado pela Organização Mundial da Saúde, estimou publicamente que suas entregas de vacinas poderiam salvar entre 1 milhão e 1,27 milhão de vidas em 2022.

Já morreram pelo menos 5,7 milhões de pessoas – e possivelmente muito mais. Se esses números forem precisos, ou mesmo remotamente esclarecedores, uma rápida expansão da vacinação em países de baixa renda poderia evitar um número gigantesco de mortes.

E haveria benefícios adicionais para aumentar a vacinação nos países mais pobres. Um estudo separado e revisado por pares divulgado no mês passado descobriu que, se os países ricos doassem metade de suas vacinas, o mundo estaria muito melhor protegido contra futuras variantes.

Mas, se estes são os benefícios, quais são os custos? Dinheiro, é claro: salvar vidas custa dinheiro. E os países ricos que pagariam a conta nem sempre estão dispostos a carteira.

Na quarta-feira, a Organização Mundial da Saúde e seus parceiros anunciaram uma nova chamada para financiar seu ACT-Accelerator, órgão criado para aliviar a desigualdade global durante a pandemia, com o objetivo de atingir US$ 23 bilhões em 2022. O Covax, o pilar desse órgão para a vacinação, já havia lançado seus próprios pedidos de US$ 5,2 bilhões em financiamento nos próximos três meses.

Muitos países ricos doaram para esforços como o Covax, dando dinheiro ou doses excedentes. Em novembro do ano passado, o governo Biden anunciou um plano para aumentar a oferta global de vacinas de RNA mensageiro com bilhões de dólares em financiamento.

Mas os esforços globais para combater o coronavírus continuam persistentemente subfinanciados. E à medida que os temores sobre a pandemia diminuem em países altamente vacinados após a onda de infecções pela variante Ômicron, a atenção pode estar mudando de foco.

Os países de alta renda querem declarar vitória sobre o coronavírus, disse a enviada especial da OMS, Ayoade Alakija, em entrevista coletiva nesta semana. “Não existe vitória sobre a covid. Já sabemos disto há muito tempo”, disse Alakija, que também é copresidente da Aliança Africana de Entrega de Vacinas da União Africana.

O modelo de Rizvi e seus colegas pode mostrar que o preço para vacinar o mundo é menor do que muitos esperavam. Gregg Gonsalves, coautor do estudo e professor associado da Escola de Saúde Pública de Yale, disse que sua pesquisa mostrou que a vacinação global pode ter “um preço incrivelmente razoável” quando se considera o número de vidas salvas.

Essa quantia, com base nas estimativas do número de vacinações, bem como nos custos estimados de produção e entrega de vacinas de RNA mensageiro da OMS e de outras organizações, variou consideravelmente. No máximo, seria US$ 81.500 por vida salva. No mínimo, US$ 7.400.

Ambos os preços seriam consideravelmente mais baixos que as estimativas usadas pelo governo federal dos Estados Unidos para calcular o valor monetário de uma única vida – mais de US$ 10 milhões em certas estimativas.

O artigo não foi revisado por pares e alguns especialistas em modelos matemáticos observaram que havia muitas outras complicações que não foram consideradas, entre elas o impacto de níveis generalizados de imunidade em países mais pobres que tiveram grandes surtos de Ômicron.

Outro fator foi o custo adicional de aumentar a produção tão rapidamente. Um estudo divulgado no início deste ano estimou que seria necessário fabricar 15 bilhões de doses adicionais de vacinas de RNA mensageiro este ano para enfrentar a Ômicron – algo muito acima dos modelos atuais.

“É um esboço de modelo”, explicou Gonsalves, acrescentando que a variedade de complicações significava que haveria pouca “vantagem para o dinheiro” em modelos mais complicados, os quais não mudariam o resultado principal.

E tem sido difícil questionar esse resultado principal. No ano passado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou uma proposta para acabar com a covid-19 usando a vacinação, juntamente com outras medidas. A proposta foi orçada em US$ 50 bilhões. O modelo lançado na quinta-feira chegou a preços semelhantes, variando de US$ 35 bilhões a US$ 61 bilhões.

Os benefícios para a vida humana são óbvios. Mas também há benefícios econômicos. A estimativa do FMI para 2021 sugeria que a economia global poderia ganhar US$ 9 trilhões se adotasse sua proposta.

Analisando o modelo, Monica Gandhi, especialista em doenças infecciosas da Universidade da Califórnia em San Francisco, que não esteve envolvida na pesquisa, disse que suas descobertas são “importantes e impactantes, um apelo à ação” para países, como os Estados Unidos, que já gastaram trilhões em suas próprias respostas à pandemia.

Rebecca Katz, diretora do Centro de Ciência e Segurança da Saúde Global do Centro Médico da Universidade de Georgetown, disse que o sucesso dos modelos de previsão durante essa pandemia sempre dependeu de quais fatores estavam envolvidos.

No entanto, Katz acrescentou por e-mail: “muitos acreditam que as vacinas de RNA mensageiro serão uma plataforma fundamental para futuras vacinas, então construir capacidade global de fabricação de RNA mensageiro em todo o mundo parece um investimento inteligente” para o futuro.

Até agora, nem a Pfizer nem a Moderna concordaram em trabalhar com um centro de tecnologia de RNA mensageiro apoiado pela OMS na África do Sul, que os apoiadores dizem que ainda vai levar anos para fazer a engenharia reversa de uma candidata a vacina. Em comunicado de lucros esta semana, a Pfizer anunciou que prevê cerca de US$ 100 bilhões em receita este ano. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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