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‘Os coronavírus não induzem uma imunidade duradoura, protetora’, diz virologista brasileiro

Eurico Arruda, da Faculdade de Medicina da USP, é um crítico contumaz do passaporte de imunidade, que já foi cogitado como uma das soluções de combate à pandemia

Entrevista com

Eurico Arruda, virologista

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 15h00

RIO - O virologista Eurico Arruda, da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, é um crítico contumaz da proposta de criar um "passaporte de imunidade" para pacientes curados de covid-19. Também demonstra ceticismo quanto à possibilidade de a disseminação generalizada da doença gerar "imunidade de rebanho", em que uma maioria de ex-doentes protegeria uma minoria de não infectados.  Se seguir o comportamento de sua "família", adverte, o novo agente infeccioso que se espalhou da China para o mundo poderá não gerar imunidade duradoura - diferentemente de doenças como o sarampo, por exemplo, que imunizam para toda a vida. Assim, só haveria imunização com uma vacina ainda inexistente.

"Rezo para estar enganado, para que no ano que vem a gente descubra que todo mundo que teve SARS em 2020 não vai mais ter SARS. Mas essa é uma novidade para os coronavírus', diz, em entrevista ao Estado.

O pesquisador diz que a covid-19 é, como outros coronavírus surgidos no Século 21, agressivo, e "diferente", causando complicações inesperadas para o paciente - por exemplo, AVCs em jovens e problemas renais, cerebrais e de pressão. Considera que o Brasil perdeu tempo desde que o vírus apareceu na China e se espalhou pela Europa. Mas se mostra otimista quanto à possibilidade de uma vacina chegar rapidamente à população - o que, avalia, deverá ocorrer até o início de 2021.

A seguir, os principais trechos da entrevista de Arruda ao Estado.

Durante algum tempo, houve uma esperança em relação à covid-19, inclusive muito citada até por políticos, de que houvesse um passaporte de imunidade, um documento para que quem já tivesse tido a doença pudesse voltar às atividades, porque estaria imunizado. O senhor tem criticado a ideia. Por quê?

Totalmente, porque essa ideia não existe. Não existe isso. Esse vírus é da mesma família de outros vírus que pularam de animais para o homem, se adaptaram há décadas  e circulam entre pessoas de uma forma endêmica.  Por isso a gente vem estudando esses vírus faz um certo tempo. Então, já é sabido há muito tempo que esses coronavírus não induzem - eu estou falando dos coronavírus antigos,  anteriores -  uma imunidade protetora, duradoura. Tanto que tem experimentos clássicos feitos na Inglaterra em que o indivíduo é experimentalmente infectado com o coronavírus, portanto, você tem certeza de que inoculou, porque você pingou o vírus no nariz dele. Ele desenvolve uma infecção respiratória, no caso um resfriado. Daí ele se cura, daí você fica testando e vendo  que o indivíduo tem anticorpo, tem anticorpo, tem anticorpo… Depois de um ano,  eles foram lá e pingaram de novo o vírus no nariz do indivíduo. E o indivíduo pegou o vírus de novo.

É uma possibilidade forte que uma pessoa tenha um coronavírus e isso não a imunize?

A imunidade, nas doenças virais, para alguns dos vírus, é permanente.  O sarampo é um desses (vírus) em que a imunidade é permanente. Sarampo, catapora, caxumba…  Aquelas doenças que só se tem uma vez. Mas existem os vírus respiratórios todos, é uma lista, eles são mais de quinze. Na verdade, se considerar que cada um deles tem vários tipos... E somando mais de 150 tipos de  rinovirus, você chega a mais de 250 tipos diferentes de vírus respiratórios.  E eles não guardam imunidade cruzada entre si. Por isso você passa a vida inteira, vive 80 anos, tendo resfriados. Você não se imuniza contra eles. Pois bem, os coronavírus, os antigos coronavírus, vamos chamar assim, os endêmicos… Eu prefiro chamá-los de endêmicos, porque não são epidêmicos mais, mas tornaram-se endêmicos. Então, tem o OC-43,  229-E,  NL-63 e HKU-1.  São os quatro coronavírus humanos conhecidos. Eles circulam normalmente, e a imunidade contra eles é uma droga. Ela não é protetora, e você pode se reinfectar com esses coronavírus mais uma vez ao longo da vida.  Aí vem o século 21, e emergem três coronavírus diferentes, pulando de espécies  de morcego para o homem. Quais são eles?  SARS-1, o MERS, lá do Oriente Médio, e agora o SARS-2. Esses três são os coronavírus do século 21, vamos chamar assim. Todos produziram surtos epidêmicos gravíssimos. Claro que nada se compara com este atual, porque o SARS-1 e o MERS ficaram de certa forma restritos à Ásia. Então, agora apareceu esse terceiro, que é o SARS-2. É um vírus com uma tremenda capacidade de disseminação. Dispersou-se no mundo de uma forma fantástica, porque de dezembro para março o vírus estava em todos os continentes.

Mas qual é a sua crítica?

Quando a gente testa no teste sorológico, esse da farmácia, aparece lá um monte de pessoas soropositivas que eu nem tenho certeza se aquilo lá é exatamente positividade de fato para o SARS-2. Porque esses testes não foram validados. E eu não estou aqui criticando ninguém. Porque surgiu uma pandemia, cada pesquisador saiu correndo para tentar ajudar a fazer alguma coisa. Eles fizeram o antígeno do vírus, uma proteína do vírus,  colocaram naquela fitinha para capturar anticorpo, e vai todo mundo lá testar a fitinha. Mas esse teste não foi validado.  Nunca foi estudado direito se ele tem ação cruzada com os outros coronavírus, se anticorpos produzidos para outros coronavírus reagem também  com essa proteína desse SARS-2  naquele teste. Ou seja, (os supostos infectados) seriam falsos positivos. Por outro lado, as pessoas vão à farmácia, por exemplo, e celebram. Eu já vi inclusive na televisão, a pessoa bota o dedo para fora da janela do carro, faz o teste, sai o resultado: “Ó, foi negativo”. A  pessoa sai pulando de alegria porque não tem o vírus.  E isso está errado.  A pessoa pode ter o vírus, e a sorologia no sangue dar negativo porque não deu tempo ainda de fazer os anticorpos.  A gente tinha que estar investindo era em detectar o vírus na secreção,  por PCR ou por pesquisa de antígeno - mas na secreção respiratória. Ficar procurando o anticorpo no sangue… Isso é para depois. O que a gente precisa agora é salvar vidas, salvar pessoas. Para salvar pessoas, você tem que procurar o vírus na secreção.

É possível fazer isso de forma massiva? Ou é muito caro?

A Alemanha fez quase para a Alemanha inteira. Então, eles fizeram testagem maciça e separaram pessoas com o vírus de pessoas sem o vírus. Mas não dá para fazer isso com a sorologia (o teste do sangue). Veja, você fala que sou um crítico forte da abertura. Eu sou mesmo, porque não tem como separar o joio do trigo agora.

Outro argumento que se levantava também é que haveria a questão da “imunidade de rebanho”, ou seja, uma grande quantidade de pessoas, 70% da sociedade, teriam a doença e ficariam imunes. Pelo que o senhor está falando, isso não funciona bem assim, pelo menos em relação aos coronavírus.

Exatamente. Você acabou de fazer a pergunta-chave. Há imunidade de rebanho? Há. Mas ela é meia-boca para alguns vírus e muito boa para outros. Imunidade de rebanho para sarampo: se a população de qualquer país estiver com 90% de cobertura vacinal contra sarampo, significa o quê? Esse grau de imunização para sarampo é a imunidade de rebanho suficiente para proteger a população inteira. Agora, nesses vírus respiratórios, em que a imunidade é parcial, não é uma imunidade protetora para a vida inteira… Então, pode até ser que eu esteja enganado, rezo para estar enganado. Para que no ano que vem, 2021, a gente descubra que todo mundo que teve SARS em 2020 não vai mais ter SARS em 2021. Mas essa é uma novidade para os coronavírus. Se ele seguir as regras da família, essa imunidade pode ser parcial.

Uma impressão, também, de leigo, é a de que cada dia surge uma informação nova e surpreendente sobre a covid-19. Agora, se descobriu um problema envolvendo pacientes mais jovens que têm AVC por causa do vírus. Por que esse novo coronavírus parece tão diferente de outros? Ou isso não é assim?

Não, ele é diferente. Ele é diferente.

O que diferencia o coronavírus dos outros vírus?

Esses três novos, esses três do  Século 21, vamos dizer, que ainda são epidêmicos, não se tornaram endêmicos, são vírus muito mais agressivos. Então, a gente pode chamar diversos componentes para explicar isso. Por exemplo, o receptor de entrada desse vírus é uma enzima, a enzima conversora de angiotensina, que mexe com uma porção de sistemas orgânicos, inclusive controle da pressão arterial. Então, você pode imaginar as consequências para uma célula de um vírus que ligou no lugar onde quem deveria ligar seria um controlador de pressão  arterial. Então, vai ter alteração de pressão arterial. Esse receptor é rico em células endoteliais, ou seja, está bem expresso em vasos sanguíneos. Ora, o vírus vai infectar vasos sanguíneos. E vai começar a causar coagulação intravascular disseminada, existe um alto grau de depósito de fibrina nos pulmões. Inclusive, a falta de oxigênio no sangue dos pacientes é surpreendentemente baixa, o teor de oxigênio… Se fosse outra doença, com aquele teor de saturação de oxigênio  de 50% ou menos, as pessoas estariam morrendo. E às vezes, com esse vírus, a pessoa já está com menos de 50% de saturação e ainda não está morrendo. Vai morrer depois… Ele (o vírus) está trazendo umas novidades, assim, na observação clínica. Inclusive acometimento renal, acometimento cerebral… Então, é um vírus diferente. Você me pegou nessa: eu não posso raciocinar trazendo tudo que eu sabia dos coronavírus endêmicos para esses como se fossem iguais, porque não são. Esses são muito mais graves.

Temos tido números muito ruins em relação à pandemia no Brasil, números até assustadores. O que esses números apontam daqui para a frente? Porque esses dados confirmam o que se falava, que na virada  de abril para maio haveria uma aceleração…

Haveria uma aceleração... O que se está vendo? Eu não quero politizar o debate, não quero aqui expressar posições políticas. Porém, algumas coisas precisam ser ditas. Quando isto começou em dezembro lá na China, e a gente viu que no começo de janeiro já estava na Europa, na Itália, e em fevereiro, no começo de fevereiro, a coisa já estava bombando, a gente sabia que ia chegar aqui. Então, não é uma questão de: ‘Ah, tomara que não chegue aqui’, eu vou ficar sentado no sofá esperando que não chegue. Ele ia chegar. Então, era para terem tomado providências desde janeiro.

Perdemos tempo?

Perdemos muito tempo. Perdemos tempo sim. É claro que cura e vacina não existiam, mas a gente poderia ter providenciado melhores condições para tratamento dos pacientes. Mais leito, mais UTI, mais respirador, mais máscara…

Como o senhor vê essa pressão então de algumas autoridades pelo afrouxamento da quarentena? Tem gente acusando os cientistas de serem prepotentes, por não considerarem o todo, a economia. Como o senhor vê isso?

É engraçado. (Em) Um país que fica anos e anos sem fazer o financiamento adequado de ciência, que está desmontando pesquisa e ciência, de repente a culpa é dos cientistas que são alarmistas? Meu caro, está tendo plantão noturno para enterrar cadáver em Manaus. Você acha que isso é invenção? É uma doença gravíssima, uma doença nova. A gente precisava era estar unido contra isso.

Mas o que as autoridades, sobretudo federais, estão argumentando é que o Brasil é um país muito grande e muito diverso, então a pandemia não está seguindo o mesmo padrão nas regiões. Isso não pesa, essa diferença regional?

Olha, quando me perguntavam, em entrevistas que dei no começo de janeiro, o que que eu esperava, eu falava: a única coisa que eu desejo ardentemente é que esse vírus não goste de calor. Porque geralmente os vírus respiratórios são vírus de climas frios. De fato, lá na China, onde ele começou, estava muito frio. Alemanha estava fria, Europa fria...Mas aí você olha o que está acontecendo em Manaus, e é uma coisa surpreendente, chocante. Não tem lugar mais quente do que Manaus. O vírus está lá, bombando. Então, eu acho que a chegada desse vírus aos locais aonde ainda não chegou é uma questão de tempo. É as pessoas ficarem viajando, espalhando etc.

Então a única saída é a vacina?

A única saída, sim. Para quase toda doença, com raras exceções, que você me perguntar, a saída é uma vacina.  Eu acho que vamos ter uma vacina. Essa vacina dos chineses e dos ingleses acho que vai funcionar.

Não está muito longe até chegar às pessoas?

É uma vacina de vírus inativado. O mundo consegue se organizar para produzir uma vacina de vírus inativado, em um hemisfério inteiro, num período de cinco meses. Para gripe, estou falando. Então, se a gente aplicar o raciocínio de que essa capacidade instalada de produção dessa vacina para gripe leva cinco meses para produzir para o Hemisfério Sul e depois cinco meses para produzir para o Hemisfério Norte, a gente está falando de um espaço aí de cerca de dez meses para produzir para o mundo inteiro. Só que estamos no meio de uma pandemia, em que tem várias fábricas de vacina que vão poder ser ativadas.  Então, tenho a impressão de que a gente pode encurtar esse tempo. Inclusive o Brasil é um candidato (a produzir a vacina), porque nós temos uma importante planta de produção de vacina que é o Butantã.  

Isso apontaria para quando? Início de 2021?

É por aí.

Para a vacina chegar às pessoas?

Para a vacina chegar às pessoas.

 

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