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Os fura quarentena

A essência do científico, duvidar e testar, cede lugar à intocável certeza da religião

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 05h00

Desde pequeno eu já ouvia dizer que era preciso nos comportarmos bem em público, não fazer nada errado porque sempre tinha alguém olhando. Claro que funcionava. Funciona até hoje, não só comigo, mas com todos nós.

A perspectiva de estar sendo observado pelos outros, que não só avaliam nossas atitudes como também as julgam eticamente (no espírito do ethos grego original, aquele conjunto de hábitos de um grupo de pessoas que constituem regras de conduta, no mais das vezes implícitas) e ainda fazem circular a informação sobre nós é bem amedrontadora. E mais potente do que medo de autoridades para nos fazer andar na linha. Porque esse controle social informal consegue se fazer presente de uma forma mais ampla e contínua do que o controle social formal, com um alcance de que nem polícia ou promotores são capazes.

Quando nos diziam que as pessoas estavam olhando, contudo, nem as mais neuróticas das avós sequer imaginavam que um dia chegaríamos ao atual nível de controle viabilizado pela onipresença de câmeras de smartphones e sua difusão instantânea nas redes sociais. Atualmente nem se xinga no trânsito sem ser constrangedoramente flagrado.

Imagine então furar a quarentena. Está aí algo que não se faz sem cair vítima do fuzilamento social. “Onde já se viu?”, perguntamos. “São uns egoístas”, diagnosticamos. “Nós não estamos em férias!”, repetimos pela enésima vez. Quem sabe uma hora compreendamos.

É claro que o distanciamento físico é a ferramenta mais eficaz que temos para enfrentar a pandemia. Mas a dificuldade de garantir sua implementação por meios coercitivos formais (apesar do fechamento do comércio não há polícia suficiente para mandar de volta para casa cada cidadão que decide sair) torna a medida excessivamente dependente do controle social informal. E a ênfase aqui está no excessivamente. Fazemos ou deixamos de fazer várias coisas em função do que todo mundo está fazendo. Esse é o significado do ethos, como dissemos.

Mas quando isso se torna exagerado há pelo menos dois riscos. O primeiro é vestirmos a carapuça de autoridade e nos autoinvestirmos de poder para fiscalizar, julgar e condenar a vida alheia. Quanto mais acreditarmos nesse papel, mais indignados nos sentiremos com quem considerarmos infratores, e mais virulentos serão nossos ataques. E conforme isso se acentua, nos aproximamos do segundo risco, que é transformar o isolamento numa seita. Identificamo-nos tão intensamente com os outros isolados, compartilhamos tão profundamente do sacrifício comum, que transformamos as regras em dogmas. Quando sair de casa se torna um tabu não é mais moralmente aceito levantar dúvidas. Fazer uma pergunta é inadmissível. Testar limites é absurdo. A essência do método científico, duvidar e testar, cede lugar à intocável certeza da religião. 

Creio que já chegamos a esse ponto. Em que se alguém entra sozinho em seu carro na garagem, circula no bairro e volta para dentro de casa sem entrar em contato com ninguém é logo considerado pecador. A rigor ele não violou a regra do distanciamento físico. Mas saiu de casa. Violou a regra. Ou imagine dois idosos que sejam vizinhos de porta, ambos isolados há semanas, que desejem jantar juntos para aliviar a solidão. Nenhum deles teve contato com qualquer pessoa de fora há quase um mês. As compras são deixadas pelo porteiro em suas soleiras. Eles desinfetam tudo antes de guardar. Não têm tosse, febre, falta de ar, sequer uma coriza. Se ainda assim resolvem se encontrar têm que fazê-lo em segredo, mantendo seus pecados escondidos. Do ponto de vista da pandemia, qual foi a infração? É como liberar a piscina cheia de cloro do condomínio para que uma família a use por vez. Impensável. Por quê? Porque não se trata mais do risco de contaminação pelo vírus, mas de contaminação por um comportamento impuro.

Sim, o distanciamento social é nossa melhor chance. Mas no mesmo momento que ele deixa de ser uma prescrição científica para se tornar uma prescrição moral essa chance escorre pelo ralo da polarização inútil. 

É PSIQUIATRA

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