Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

'Os políticos devem olhar por todos', diz entregadora de refeição

Janaina Tavares recebe apoio de aplicativos e faz entregas com uma bicicleta compartilhada

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2020 | 04h59

Janaina Tavares, de 30 anos, entregadora de refeição. Moradora de Itapevi, zona oeste de São Paulo. Casada, dois filhos.

Eu recebo pouco apoio dos aplicativos para os quais trabalho fazendo entrega de refeições de bike. Tive de comprar meu próprio álcool em gel. Não ficou caro porque paguei o preço de custo. Foram R$ 18 em um frasco de 500 ml. Uso direto, a cada viagem. Eu só uso luvas porque ganhei de uma cliente. Como ando em uma bicicleta compartilhada, ali na região da Vila Olímpia, faço sempre a higienização dela e das minhas mãos também. 

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Mesmo assim, percebo que alguns clientes não querem que eu toque na embalagem da comida na hora da entrega
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Janaina Tavares, entregadora de refeição

Eles preferem pegar direto na bag. Mas, apesar do medo de contaminação que todo mundo está sentindo, existem bons momentos nesse trabalho. Na semana passada, um cliente do Brooklin disse que eu podia ficar com o almoço que ele havia pedido. Disse que era um agradecimento pelo nosso trabalho. Quase chorei. Fazia tempo que não ganhava nada. Era um almoço com arroz, feijão, farofa e bisteca.

Antes da crise do novo coronavírus, consegui um trabalho numa empresa de telemarketing. Quando ia entregar a documentação, tudo fechou. Esse trabalho de entrega foi a saída então para pagar as minhas contas. Como comecei agora, tem mais ou menos um mês, eu ainda não ganho muito. Eu só fico no horário de almoço. Por dia, faço uns R$ 58. Nos dias mais fracos, só consigo pagar a passagem mesmo. Tenho medo de pegar o coronavírus por causa dos meus filhos, o Julio Cesar, de 9 anos, e a Akemi, de 5. Faz três anos que me divorciei. Não posso pegar essa doença de jeito nenhum, mas também não posso ficar isolada.

Acho que tudo isso está unindo mais as pessoas. É minha sensação. Espero que essa doença não castigue tanto nossa população como está sendo nos outros países. Quero que as pessoas que não estão levando a sério se conscientizem antes da doença chegar a seus familiares e que os políticos pensem no País e na população, olhem por todos, sem priorizar classe social, cor e de onde a pessoa vem. Que eles nos priorizem como pessoas que merecem ser protegidas e respeitadas.

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