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Os ricos se preparam para o coronavírus de modo diferente

A caminho de Paris a atriz Gwyneth Paltrow postou uma foto no Instagram em que ela usava uma máscara dentro do avião que a levava para a Paris Fashion Week

Alex Williams e Jonah Engel Bromwich, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2020 | 17h45

O novo coronavírus não reconhece fronteiras sociais ou nacionais. O que não significa que não existam. “A caminho de Paris”, escreveu Gwyneth Paltrow no Instagram na semana passada, exibindo uma foto dela no avião que a levava para a Paris Fashion Week, usando uma máscara facial. “Já estive neste filme”, ela acrescentou, referindo-se ao seu papel no filme Contágio, de 2011. “Prudência”, indicou.

Gwyneth não tirou a foto com um tipo de especial de máscara facial, ao contrário, por exemplo, de Kate Hudson e Bella Hadid, que também postaram selfies usando máscaras. A artista e fundadora do Gooper optou por uma “máscara de ar urbana” elegante de uma companhia sueca, Airinum, que tem cinco camadas de filtração e um “acabamento muito delicado que não agride a pele”.

Não importa que o cirurgião geral dos Estados Unidos, Jerome Adams, na semana passada, pelo Twitter, tenha pedido às pessoas para evitarem a mania das máscaras. Cotadas de US$ 69 a US$ 99, a máscara da Airinum, que apareceu em fotos de estilistas no Instagram, está esgotada no website da companhia até abril.

Na Bigelow Aphotecaries, farmácia em Greenwich Village, as máscaras faciais N95, que também servem de filtro contra vírus, estão esgotadas há semanas, disse o vendedor do departamento de aparelhos cirúrgicos da farmácia, Justin O’Connor. Ele tem uma lista de 300 pessoas que encomendaram o produto. “Muita gente famosa veio até a farmácia. E normalmente muito humildes”, disse ele. Mas agora algumas pessoas tentam usar o nome para conseguir as máscaras. “Elas chegam e dizem ‘sabem para quem eu trabalho?’. Mas não nos impressionamos’”, afirmou o vendedor. 

A Cambridge Mask Co., empresa britânica que utiliza o que chama de “camadas de filtro e carbono grau militar”, viu a demanda das suas máscaras que custam US$ 30 saltar 20 a 30 vezes, afirmou o fundador da companhia Christopher Dobbing.

Executivos de empresas estão descartando a primeira classe dos aviões e preferindo jatos particulares. O pessoal da alta sociedade está redirecionando seus planos de viagem para destinos mais isolados. E os clientes milionários se consultam com médicos que dão atendimento médico personalizado e outros serviços de saúde VIP.

Por que gastar US$ 3,79 por um vidro de desinfetante de mão da Target, quando a Byredo, marca de luxo européia, oferece o que chama de “produto para lavar as mãos sem enxágue” com notas florais de pêra e tangerina por US$ 35 (embora também já esteja esgotado)?

Você pode ter mais sorte no caso da Olika, empresa que fabrica um desinfetante de mão cujo recipiente tem a forma de um pintinho e custa US$ 14,62 o pacote com três unidades. O diretor executivo da Olika, Alastair Dirward, disse que a empresa recebe inúmeras encomendas por minuto, e acrescentou que “não se sabe por quantos dias mais teremos o produto em estoque”.

Voando em céus sem vírus

Mesmo em tempos melhores existem germes nos aviões. Lavamos as mãos nos apertados lavabos, evitamos comer o cookie Biscoff que é colocado na mesa diante do assento, e se formos realmente meticulosos, limpamos os apoios de braço com Wet Wipes. Apenas como segurança. Mas não estamos no melhor dos tempos.

Num período em que cada tosse que vem das três fileiras de trás soa como um cumprimento fantasmagórico da Maria Tifóide, aqueles que podem se permitir pagam um valor extra para evitar os aviões abarrotados de pessoas e usam jatos particulares – o que pode ser uma opção atrativa para os que querem fugir das cidades  repletas preferindo uma casa segura em Telluride, no Colorado.

Algumas pessoas abastadas disseram à Bloomberg News que estão permanecendo em suas casas em Hamptons e dispostas a ir para as cabanas em Idaho se as coisas piorarem. E o The Guardian reportou que executivos já fretaram aviões para “voos de evacuação” da China e outras áreas afetadas.

Para algumas empresas de jatos particulares, temor equivale a oportunidade. A Southern Jet, de Boca Raton, na Flórida, recentemente enviou um e-mail de marketing, a título de de teste, limitado, com a mensagem: “Evite o coronavírus voando num avião privado...Peça uma cotação hoje!”.

A companhia viu um salto nos pedidos de voos (que podem custar cerca de US$ 20.000 por uma viagem num avião de médio porte da Flórida até Nova York), mas também algumas respostas qualificando a campanha de “repugnante” e “de mau gosto”, disse Eric Sanchez, gerente de vendas da companhia. “Não estávamos incitando o medo com o e-mail. Simplesmente queríamos mostrar que o coronavírus pode ser uma grave ameaça para as pessoas e oferecer um serviço que pode constituir uma proteção extra”, disse ele.

Outros viajantes com dinheiro que planejavam férias em países agora afetados pelo vírus, como a Itália, estão optando pelo isolamento dos iates, desfrutando do sol do Mediterrâneo longe das praias infectadas. Mas para onde ir? O calendário social dos abastados está confuso, uma vez que festivais de arte, feiras de luxo e retiros somente a convite foram adiados ou cancelados.

Na semana passada o setor de relógios de luxo cancelou dois dos seus maiores eventos do cano, o Watches & Wonders Geneva e o Baselworld. “A Baselworld foi fundada em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial e entre 1917 e este ano jamais foi cancelada”, disse Joe Thompson, editor executivo da loja Hodinkee. “E mesmo em época de crises como a Segunda Guerra Mundial, o vírus da SARS de 2003 e várias outras recessões. O cancelamento este ano não tem precedentes”.

A Art Basek Hong Kong também foi cancelada e a Art Dubai, adiada. A Armory Show foi aberta em cinco de março, mesmo com casos de coronavírus surgindo no Estado de Nova York recentemente. Jerry Saltz, crítico de arte de uma revista de Nova York, disse que espera que as pessoas continuem a desfrutar de arte, mas tocando nos cotovelos para cumprimentar, o que é livre de germes. “Apertos de mão e saudações mais elaboradas são algo elegante entre nós. Mas sempre achei que dar dois beijinhos é errado”.

Uma sala de emergência particular

Outra coisa que as pessoas tentam evitar, mesmo nos melhores tempos? Salas de emergência. Os ricos que querem ter acesso 24 horas a médicos, consultas urgentes com especialistas e outras comodidades hospitalares estão preferindo serviços médicos com atendimento personalizado. Uma provedora de Nova York, Sollis Health, oferece adesões familiares por US$ 8.000 por ano, com salas de emergência VIP, no Upper East Side de Manhattan, Tribeca e, no verão, um serviço de atendimento a domicílio em Hamptons.

Desde que o temor do coronavírus chegou aos Estados Unidos, os pedidos de adesão ao plano saltaram, disse Bem Stein, diretor da Sollis. A inquietação dos membros é com estocar medicamentos antivirais, incluindo o Tamiflu e Xofluza para a gripe, medicamentos para problemas respiratórios, como Albuterol, inaladores e Sudafed, e antibióticos como Levaquin e Azitromicina.

Segundo um associado, uma atriz manifestou seu nervosismo com uma viagem para o Japão, onde estava marcada a gravação de uma cena de beijo. Ela queria se certificar de que poderia evitar os pronto-socorros lotados se retornasse com algum sintoma.

Waris Ahluwali, designer e ator membro da Sollis, não queria correr o risco diante de tantas incertezas. Preparando-se para um retiro de descanso no hotel Le Sirenuse, em Positano, na Itália, ele telefonou à Sollis e pediu que entregassem em sua casa máscaras e uma receita de Xofluza, apesar de os médicos terem dito a ele que o medicamento não era eficaz contra o coronavírus. 

Mas com a epidemia se alastrando na Itália, as férias em Positano foram canceladas. Sua próxima viagem de negócios é para Istambul dentro de algumas semanas. Ele poderá ir ou não.  “Não sei se isto tudo vai passar ou se ‘é o começo do fim’”, disse Ahluwalia. “Vou ficar realmente chateado se for o começo do fim porque tenho muitas coisas nas quais estou trabalhando”.

Tradução de Terezinha Martino

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