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Cansaço não é sonolência e descansar não é o mesmo que dormir Sammy Williams/Unsplash

Os sete tipos de cansaço e como enfrentá-los

Comece se perguntando onde você usa a maior parte de sua energia ao longo do dia e os efeitos que isso causa no corpo. Assim, será possível criar estratégias para se recuperar

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 05h00

Para ter saúde, é preciso muito mais do que não ter alguma doença. Em resumo, pode-se dizer que estar com saúde tem o mesmo valor de estar descansado. O difícil é identificar o tipo de descanso necessário. 

“Acredito que precisamos de uma mudança de pensamento. A maior parte do nosso foco, hoje em dia, está na produtividade e isso nos coloca numa roda de exaustão”, diz a psiquiatra Saundra Dalton-Smith, que identifica em seu livro Sacred Rest: Recover Your Life, Renew Your Energy, Restore Your Sanity (Descanso Sagrado: recupere sua vida, renove sua energia e restaure sua sanidade, em tradução livre) sete tipos de cansaço e, para cada um, uma forma de descanso.

Diferentemente do que se pode imaginar, não se cura o cansaço só com uma boa noite de sono, porque descansar não é o mesmo que dormir. “As pessoas não dizem que estão com sono, mas sim que estão cansadas. Existe uma confusão muito grande entre cansaço e sonolência”, diz a médica Dalva Poyares, pesquisadora do Instituto do Sono. “Claro que o sono tem papel reparador, mas muitas vezes o cansaço pode até te impedir de dormir.” 

A pandemia, com seus excessos de telas, informação e estresse, causou mais cansaço na sociedade – a mesma que, já em 2010, era chamada de Sociedade do Cansaço pelo filósofo Byung-Chul Han. Hoje, tempo e sono se tornaram raros diante de uma demanda cada vez mais acelerada e exigente.

Para reconhecer o tipo de cansaço sentido e saber como se recuperar, é essencial se perguntar onde você está usando mais a sua energia durante o dia e os efeitos que isso causa no corpo. “Comece perguntando a si mesmo: ‘Que tipo de cansaço eu sinto?’. Pense no trabalho que você faz todos os dias – seja em um escritório, um prédio ou na sua casa. E comece a entender como você gasta sua energia, repassando cada um dos sete tipos de cansaço. Normalmente, a área em que você mais usa energia é a que tem maior probabilidade de ser deficiente de cansaço.” Veja abaixo os sete tipos:

Cansaço Físico

É associado ao esforço físico e à fraqueza muscular. Comum depois de um dia todo caminhando ou após voltar a treinar. Também está associado a pessoas muito agitadas e com acúmulo de estresse, o que impede uma boa noite de sono. Para descansar, tente fazer alongamentos ao longo do dia, massagem e ter bons hábitos noturnos, como evitar coisas estressantes e estimulantes quando estiver na cama e ir dormir no mesmo horário.

Cansaço Mental

Já passou horas pensando em algo que aconteceu ou que irá acontecer num futuro próximo? Os “overthinkers” (quem pensa demais) dominam esse tipo de cansaço. Em uma sociedade que compara produtividade a sucesso e exige que façamos múltiplas tarefas, todos recebem sua dose de ansiedade, esquecimento e preocupação. Para acalmar a mente, meditação é uma boa, mas atividades lúdicas como jogos e esportes, brincar com o pet e até cozinhar podem ajudar. 

Cansaço Emocional

Já ouviu falar em pressão psicológica? A ideia de se colocar acima do outro e causar danos emocionais pode acontecer em locais de trabalho, casamentos e até amizades. Porém, na sociedade do cansaço, os indivíduos são “empresários de si mesmos”, de acordo com Byung Chul Han, o que faz com que sejamos nosso pior inimigo – sempre adicionando coisas na lista de tarefas. Falta de disposição, irritabilidade, tristeza profunda, angústia e pânico são alguns dos sintomas. O autoconhecimento é a chave. Terapias, escritas matinais e momentos de introspecção com atividades prazerosas e calmas são ideais. Tente impor limites.

Cansaço Espiritual

Não tem a ver com religião, mas sim quando vamos contra nossos princípios. Os principais sintomas são: medo da morte, sentimento de abandono e falta de pertencimento e perda da esperança. Redefinir seus propósitos de vida, prioridades e exercitar a compaixão podem ser interessantes. Também vale passar um tempo em contato com a natureza, fazer orações ou tomar um banho de ervas energizante.

Cansaço Sensorial

O excesso de estímulo dos nossos cinco sentidos é a causa. Cheiros fortes, luz intensa, barulhos constantes. Durante a pandemia, pelo uso exacerbado das telas, o cansaço ganhou novas proporções. Uma maneira de recuperar a energia é ficar longe do celular e do computador e encontrar espaços neutros, como parques ou ambientes arejados.

Cansaço Social

Imagine-se em um jantar com a família do futuro namorado ou o primeiro dia na escola nova. Esforçar-se para agradar os outros pode ser cansativo. Ele também surge quando passamos algum tempo com pessoas que sugam nossas energias. O descanso está em ficar perto de pessoas que fazem bem e nos apoiam (mesmo virtualmente) e saber identificar esses contatos sociais positivos e verdadeiros. 

Cansaço Criativo

Se a procrastinação é sua melhor amiga no dia a dia, pode ser que você esteja cansado criativamente. Adiar tarefas importantes, ignorar prazos e ter falta de energia para inovar são alguns dos sintomas. Além da irritabilidade e de dúvidas sobre o trabalho, se ele está sendo bem-feito. As atividades automáticas, como tomar banho, escovar os dentes, lavar o rosto ou a louça podem ajudar. É importante também estabelecer momentos de ócio para recuperar a inspiração.

 

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'Aprendemos a ser funcionais quando estamos cansados', diz a psiquiatra Saundra Dalton-Smith

Profissional criou a teoria dos sete tipos de cansaços e, em entrevista ao 'Estadão', explicou a importância de descansar

Entrevista com

Saundra Dalton-Smith

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 05h00

Muitas vezes, mesmo depois de uma boa noite de sono, é possível acordar cansado. Isso acontece porque dormir é bem diferente de descansar. Claro, o sono pode ajudar no cansaço, mas é preciso entender que a sonolência melhora quando dormimos. O cansaço, não. Às vezes, até, quanto mais cansado você está, mais difícil é dormir.

Segundo os especialistas, o cansaço extremo é um estresse para o organismo. O limite é individual de cada um, mas uma vez ultrapassado, a pessoa pode entrar em Burnout.

Diretamente de Birmingham, no Alabama, a psiquiatra Saundra Dalton-Smith, criadora da teoria dos sete tipos de cansaços, lançado no livro Sacred Rest: Recover Your Life, Renew Your Energy, Restore Your Sanity (Descanso Sagrado: recupere sua vida, renove sua energia e restaure sua sanidade), falou com o Estadão por uma chamada de vídeo e explicou um pouco mais da especificidade de cada um. 

Como você elaborou esse estudo?

Sou médica psiquiatra de clínica há mais de 20 anos e uma das principais razões pelas quais as pessoas procuram tratamento hoje em dia é porque estão cansadas. Então tudo começou lá, realmente, trabalhando com meus pacientes e vendo o que funcionava e o que não funcionava na hora de ajudá-los a construir, restaurar, renovar e energizar as suas vidas. 

Então isso tudo veio atráves de conversas com estudantes e pacientes?

Isso. Uma das coisas que estavam sendo vistas repetidamente é que mesmo quando as pessoas estavam dormindo 7, 8 horas de sono, elas ainda diziam que estavam se sentindo cansadas. E foi aí que entendemos que descansar é diferente de dormir, porque se esse fosse o problema, e você estivesse dormindo a quantidade necessária, deveria se sentir melhor. 

Então os sete tipos realmente vieram de olhar para as maneiras como usamos a energia em nossos dias, olhando especificamente para o interior e vendo onde cada um tinha energia concentrada. E, claro, em seguida pensar quais são as coisas que você pode fazer para restaurar essa energia. Portanto, trabalhar com pacientes foi uma ótima fonte de informação, porque as pessoas estavam lá constantemente. Eu os vejo 5, 7 dias por semana. 

Há quanto tempo você estuda sobre isso?

Meus filhos eram pequenos, um tinha 2 anos e o outro era recém-nascido, e agora têm 17 e 15 anos. Então, cerca de 10 a 15 anos. Uma vida inteira.

Teve alguma parte pessoal nesse estudo também? 

Sim, eu também estava exausta. Eu estava passando pela minha própria situação de burnout e percebendo que dormir não estava melhorando o esgotamento que eu estava sentindo, nem sair de férias com a minha família ajudou, portanto, esses eram curativos para um problema muito maior. Eu estava tendo altos e baixos de energia.

Poderia parecer extremamente bem-sucedida do lado de fora. Eu tinha grandes contratos, estava nos jornais, na mídia. Tinha uma casa grande, as crianças, o carro, o homem. Ou seja, todas as coisas que eu disse queria fazer check na lista. Mas era ruim como eu me sentia vivendo. E tive que tomar uma decisão de mudar isso para construir uma vida que eu possa realmente sentir bem, que eu goste, que eu possa ter um sorriso no rosto pela manhã. E eu acho que essa é a mudança que precisamos em nossa cultura.

Com a pandemia estamos muito mais cansados do que estávamos  - e já estávamos antes. Como você vê a sociedade e até mesmo seus pacientes agora?

Acredito que eles estão se saindo melhor do que a maioria da população. Acho que você pode dizer que eles foram muito intencionais sobre suas necessidades de descanso. E isso é justamente o que eu encontro nas pessoas que estão familiarizadas com meu livro e fizeram o teste. Elas começaram a ser muito objetivas, aplicando o estudo em sua própria vida. Essas pessoas têm um nível de autoconsciência incrível. Elas começaram a entender como se sentem quando estão energizadas e a diferença de quando estão com o desafio de descanso. Então você tende a ser muito mais curioso e questionador.

Durante a sua palestra no TED-X, você disse que não entendemos o poder do descanso. O que você acha que nós, como indivíduos e como sociedade, devemos fazer para compreender esse poder?

Acredito que precisamos de uma mudança de pensamento. A maior parte do nosso foco, hoje em dia, está na produtividade. É como se eu quisesse fazer mais o tempo todo. E isso nos coloca numa roda de exaustão, na qual ficamos continuamente exaustos, oprimidos. Mas o grande problema é que a maioria de nós aprendeu a ser funcional quando estamos cansados.

Quando o esgotamento se torna a norma, quando nos tornamos uma sociedade esgotada, onde todos odeiam seus empregos, ninguém está feliz. E eu acho que, como cultura, você tem que decidir quais normas vão ser aceitáveis. Infelizmente aceitamos que essa se tornasse a norma aplicável. O que diminui a qualidade de nossas vidas. Portanto, quando falo sobre descanso e o poder do descanso, não é apenas para restaurar as energias, é para recuperar nossas vidas dessa cultura de esgotamento em que vivemos.

Uma frase sua que eu acho que resume bem tudo isso é "Descansar é diferente de dormir”

O sono é necessário, não me entenda mal. Precisamos dormir. Mas muitas vezes tentamos fazer isso antes de realmente ter nosso descanso de corpo, mente e espírito. Portanto, tratamos o sono como se pudéssemos desligar todos os nossos níveis de energia e entrar em um sono profundo e de alta qualidade. Enquanto na realidade, a maioria de nós não consegue dormir bem, mesmo quando tenta. Se toda a sua atenção estiver voltada para o sono, você estará essencialmente perdendo as outras pontas do descanso.

Você acha que nós nos acostumamos a ficar cansados?

A deficiência de descanso mental é provavelmente a mais alta sempre que fazemos o estudo.E acho que grande parte disso é que realmente treinamos nosso cérebro para realizar várias tarefas ao mesmo tempo. Temos a tendência de processar informações enquanto pulamos, constantemente, de um pensamento para outro. 

Então quando você quer limpar sua mente, você tem que praticar isso. E, infelizmente,  é necessário essa prática com a nossa cultura. A maioria de nós, por exemplo, tem de cinco a dez guias abertas enquanto estamos no computador, então nosso cérebro aprende que não precisa segurar este pensamento, ele pode simplesmente pular para outro.

O Mindfullness é uma técnica interessante para aplicarmos em nossa vida e tentar mudar isso? 

A atenção plena é importante para treinar o cérebro novamente para voltar e se concentrar em uma coisa. Uma das técnicas que ajuda muitas pessoas é usar uma palavra como seu ponto de foco. Portanto, sempre que sua mente começa a pensar em contratos ou e-mail durante uma viagem, por exemplo, você diz mentalmente a palavra família, e reorienta suas idéias para o que deseja focar. 

E ser paciente, porque não vamos mudar do dia pra noite. 

Sim! Pequenos passos. A maioria de nós, durante nosso trabalho do dia a dia, somos obrigados a voltar ao modo múltiplas tarefas. Então, sempre que você sentir que sua mente está cheia, você pode lidar com isso. Como fazer pequenas pausas a cada duas horas de trabalho ou manter um caderno ao lado da cama para anotar pensamentos recorrentes, porque muitas vezes, antes de ir para a cama, você começa a pensar em sua lista de tarefas para o dia seguinte. E  dessa forma  você está retirando a responsabilidade do seu cérebro de conter a informação.

Como você pode ajudar nossos leitores a saber que tipo de descanso eles precisam e que tipo de cansaço eles sentem?

Ao invés de apenas dizer “estou cansado'', comece perguntando a si mesmo: que tipo de cansaço eu sinto? Pense no trabalho que você faz todos os dias - seja em um escritório, um prédio ou na sua casa. E comece a entender como você faz para gastar sua energia, repassando cada um dos sete tipos de cansaço. Normalmente a área que você mais usa energia, é a que tem maior probabilidade de ser deficiente de cansaço. Mas tenha em mente que às vezes, como as pessoas estão cronicamente esgotadas, elas começam a aprender alguns mecanismos de defesa, afinal, de outra forma não seriam capazes de continuar fazendo o trabalho.

Se você nunca ouviu falar do tipo de cansaço, também pode ser uma dica de área na qual você não está se saindo tão bem. As pessoas dizem: “Saundra, sinto que preciso de todos os sete.” Bom, você precisa. Mas alguns deles você está fazendo automaticamente, você se sente revigorado e simplesmente continua fazendo. Mas muitas vezes é um ou dois aos quais não estamos dando atenção que estão tornando nossas vidas tão exaustivas.

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