Osso de cão doméstico encontrado no Texas tem 9.400 anos, revela DNA

Fragmento fornece a primeira evidência direta de que os cachorros eram comidos pelos humanos

AP

19 Janeiro 2011 | 18h01

 

PORTLAND, MAINE - Há cerca de 10 mil anos, o melhor amigo do homem lhe oferecia proteção, companheirismo e uma refeição ocasional. É o que dizem os pesquisadores depois de encontrar um pedaço de osso do primeiro cão domesticado das Américas. O trabalho passará por revisões para ser publicado na revista científica American Journal of Physical Anthropology.

O estudante Samuel Belknap, da Universidade do Maine, nos EUA, deparou-se com o fragmento - do tamanho de um dedo mindinho de uma pessoa - enquanto avaliava uma amostra de dejetos enterrados no sudoeste do Texas na década de 1970. Um teste de datação por carbono determinou a idade do osso em 9.400 anos, e uma análise de DNA confirmou que ele veio de um cão, não de um lobo, coiote ou raposa, segundo Belknap.

Pelo fato de o pedaço ter sido achado no interior de uma pilha de excrementos humanos e apresentar uma cor marrom-alaranjada - característica de um osso quando passa pelo trato digestivo -, o fragmento fornece a primeira evidência direta de que os cães, além de ser usados para companhia, segurança e caça, eram comidos pelos humanos e podem até ter sido criados como fonte de alimento, explica o pesquisador.

Muitos povos da América Central consumiam cachorros regularmente, diz Belknap. Algumas tribos indígenas faziam isso quando a comida era escassa ou em celebrações. "Foi definitivamente uma prática aceita entre muitas comunidades", conta.

Quando descobriu o osso - identificado como uma parte do crânio onde se conecta com a coluna -, Belknap estudava a dieta e a nutrição dos povos que viviam na região de Lower Pecos, no Texas, entre mil e 10 mil anos atrás.

 

Ele e outros pesquisadores da Universidade do Maine e dos Laboratórios de Antropologia Molecular da Universidade de Oklahoma, onde foram feitos os testes de DNA, escreveram o artigo com suas conclusões. O documento foi analisado e aprovado cientificamente para publicação, faltando apenas algumas revisões, destaca o editor-chefe da revista, Christopher Ruff.

Os cães têm desempenhado um papel importante na cultura humana por milhares de anos. Há registros arqueológicos de exemplares de 31 mil anos na Bélgica, de 26 mil anos na República Checa e de 15 mil anos na Sibéria, aponta Robert Wayne, professor de biologia evolutiva da Universidade da Califórnia e especialista em evolução canina.

Mas até agora os registros de cachorros no Novo Mundo não tinham ido tão longe - o mais antigo antes desse tinha 8 mil anos. Acredita-se que os primeiros animais da América do Norte chegaram até lá com humanos pelo Estreito de Bering, na Ásia, há 10 mil anos ou antes.

Belknap afirma que, pelo osso, o cão provavelmente era de pequeno porte e pelo curto, como um vira-lata, comum entre os índios das Grandes Planícies americanas. A julgar pelo tamanho do fragmento encontrado, seu peso variava entre 11 e 13,5 quilos.

O pesquisador também descobriu o que ele acredita ser o osso de um pé de cachorro, mas o fragmento era pequeno demais para ser analisado.

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