EFE/EPA/ANGELO CARCONI
EFE/EPA/ANGELO CARCONI

Outros países devem imitar a paralisação nacional da Itália?

A resposta do governo ao covid-19 é sem precedentes na Europa moderna

The Economist, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 09h00

O psicólogo Giovambattista Presti, da Universidade Kore, em Enna, Sicília, é conselheiro do Policlinico, o mais antigo hospital de Milão, que está no centro da epidemia de covid-19 na Itália. De acordo com ele, uma das principais preocupações do momento é o esgotamento dos funcionários. 

Ele está particularmente preocupado com os casos de distúrbio de estresse pós-traumático entre alguns médicos. Se os hospitais chegarem a um ponto em que não têm mais a capacidade de tratar todos os pacientes, alguns deles “serão obrigados a decidir quem será internado na unidade de tratamento intensivo e quem será deixado para morrer”.

Relatos semelhantes estão surgindo de outros lugares. Daniele Macchini é médico no hospital Humanitas Gavazzeni, em Bergamo. A instalação está sobrecarregada de pacientes com o covid-19. “Os casos estão se multiplicando. Temos de 15 a 20 novas admissões por dia", escreveu ele no Facebook. “Os resultados dos testes chegam em rápida sequência: positivo, positivo, positivo. De repente, as unidades de urgência e pronto-socorro estão entrando em colapso.” De acordo com ele, a enfermagem é reduzida a lágrimas “porque não podemos salvar todos”.

São relatos vindos da Lombardia, região rica cujo sistema de saúde é considerado um dos melhores de um país que, no ano passado, ficou em segundo lugar em uma classificação de eficiência dos sistemas de saúde europeus preparada pela Bloomberg. No dia 10 de março, Antonio Pesenti, coordenador de terapia intensiva da unidade de crise da Lombardia, disse aos jornalistas que o sistema de saúde da região estava “a um passo do colapso”.

A epidemia na Itália, que ainda se concentra na Lombardia, se espalhou rapidamente. No dia 25 de fevereiro as autoridades de saúde do país tinham detectado 322 casos do covid-19. Duas semanas mais tarde esse número tinha passado a 10 mil. As mortes aumentaram ainda mais rapidamente do que as infecções conforme o vírus, particularmente letal para os mais velhos, atacou a população mais velha da Europa. Já em 11 de março, mais de 800 das pessoas infectadas tinham morrido.

A crise na Itália está dando arrepios na espinha da Europa e dos Estados Unidos. Em muitos países, o número de casos detectados aumenta de acordo com uma trajetória que logo os deixará na situação em que a Itália se encontra. Governos de outras regiões estão observando se os esforços italianos conseguirão frear a epidemia, espalhando o número de casos no tempo e dando aos hospitais do país algum tempo para se recuperarem.

No dia 8 de março, o governo italiano impôs uma proibição nacional às aglomerações. Casamentos e enterros com muitos convidados foram vetados; museus, cinemas e teatros foram fechados. No dia seguinte, foram impostas restrições de viagem no país todo. 

Os italianos não podem sair das cidades onde moram, nem viajar dentro delas, a não ser em situações de trabalho e emergências. Restaurantes, bares e estabelecimentos comerciais de todo o tipo receberam ordem de fechar a partir de 12 de março, exceção feita aos mercados e às farmácias. A Europa não vê medidas de controle social desse tipo desde a 2ª Guerra Mundial.

Por enquanto, outros países europeus optaram por medidas menos restritivas. Como a Itália, vários países incluindo França, Espanha e Grécia fecharam escolas e universidades. Algumas proibiram aglomerações públicas maiores. Nos EUA, variantes dessas medidas estão sendo anunciadas nos níveis local e estadual. Um crescente número de universidades, entre elas Harvard e Princeton, estão alternando para o ensino à distância ou simplesmente mandando os alunos para casa. Mas, se essas medidas forem incapazes de retardar substancialmente o ritmo de propagação da doença, a Itália pode se tornar o modelo a ser seguido.

A quarentena nacional da Itália foi motivada pelo aparente sucesso no uso de medidas comparáveis no nível regional. O governo testou restrições semelhantes em duas “zonas vermelhas” em torno de algumas cidadezinhas no norte do país onde, no fim de fevereiro, foram identificados os primeiros grandes focos de casos de covid-19. No dia 8 de março, Silvio Brusaferro, presidente do instituto nacional de saúde pública da Itália, disse que o número de novos casos em ambas as áreas estava diminuindo.

Mas isso não garante que a quarentena nacional produzirá os mesmos resultados. A eficácia da paralisação depende de duas coisas: até que ponto a população vai seguir as regras, e o tempo que as regras podem ser mantidas antes que o seu vasto custo econômico e social se torne grande demais. Para aqueles que observam a Itália, a questão fundamental é se medidas tão radicais são definitivamente necessárias, ou se um conjunto de medidas mais moderado será capaz de retardar a epidemia.

A Itália está seguindo o exemplo da China, que conseguiu controlar uma violenta epidemia de covid-19 na província de Hubei, evitando focos em outras regiões graças à imposição de rigorosas quarentenas em massa. Milhões foram mantidos essencialmente presos em casa durante semanas. Em algumas cidades, como Wuhan, onde a epidemia teve início, as pessoas são impedidas de sair de casa há mais de um mês. 

A paralisação foi rigorosamente mantida pelos comitês de bairro e síndicos, embora as restrições sejam agora relaxadas na China conforme o número de novos casos diminui. Na Itália, em comparação, a implementação das restrições às viagens depende principalmente da cooperação do público. As autoridades e os médicos imploram para que as pessoas permaneçam em casa. Mas, nos postos de controle, os motoristas precisam apenas apresentar um formulário preenchido pelo próprio punho declarando seus motivos para viajar.

Por enquanto, os italianos parecem estar seguindo as novas regras. Mas houve exceções: o porteiro de um hospital que teve resultado positivo para o teste deveria ter observado uma quarentena, mas foi visto fazendo compras em um supermercado em Sciacca, na Sicília. Ele corre o risco de ser indiciado por espalhar uma epidemia, delito que traz pena máxima de 12 anos de detenção. 

As pessoas ainda frequentavam bares e casas noturnas—em pelo menos um dos casos, para assistir a uma partida de futebol—antes das medidas mais rigorosas entrarem em vigor. Mas, em Caserta, perto de Nápoles, onde infrações foram informadas nos primeiros dias de controle policial, um oficial do alto escalão disse: “O público começa a se dar conta que é do seu interesse reduzir os deslocamentos ao mínimo”.

O grau com que as pessoas seguem obedecendo as demandas de se afastar de amigos, colegas e do público em geral depende em grande parte do tempo em que isso é exigido. As medidas de distanciamento social funcionam melhor quando são implementadas logo, antes que a epidemia possa decolar, diz Elias Mossialos, da London School of Economics. Nas cidades da China que impuseram restrições às reuniões e ao transporte em massa antes de identificarem seu primeiro caso de covid-19 tiveram menos infecções na primeira semana após as medidas do que lugares que agiram mais tarde.

Mas, na Grã-Bretanha, o governo está preocupado com a possibilidade de anunciar medidas desse tipo cedo demais. O país, que está em um estágio anterior da epidemia do covid-19 em relação a muitos outros, ainda não proibiu as reuniões de grande número de pessoas, nem fechou escolas ou instruiu às pessoas que trabalhem de casa. 

Os cientistas orientando a resposta do governo estão preocupados com a possibilidade de anunciarem medidas restritivas agora porque o público deixa de obedecê-las com o passar do tempo, e haveria o risco de elas serem ignoradas justamente quando a epidemia deve decolar. Mas as restrições mais rigorosas parecem inevitáveis a essa altura. Em algum momento das próximas duas semanas, todos aqueles com sintomas de gripe serão orientados a ficar em casa por sete dias, pois a essa altura será de se supor que muitos desses casos serão infecções pelo covid-19.

A experiência da Coreia do Sul, onde o surto de covid-19 é um dos maiores do mundo, indica que a preocupação dos cientistas britânicos têm fundamento. Fora da cidade de Daegu, onde a maioria dos casos de covid-19 do país foram identificados, o governo não anunciou medidas de restrição obrigatórias—esperando em vez disso que as pessoas seguissem a orientação de permanecer em casa e adotassem precauções durante as reuniões inevitáveis. 

Na província de Gyeonggi, que cerca Seul, os participantes de funerais foram orientados a cooperar com as verificações de temperatura corporal antes de escreverem seus nomes nos livros de presença. Também foram orientados a minimizar o contato e as conversas com os demais presentes (incluindo os parentes dos mortos). Em todo o país, os convidados de casamentos devem usar máscaras—bem como os noivos, o que leva muitos a adiarem as núpcias.

Os restaurantes e bares de Seul ficaram muito mais vazios durante alguns dias durante o auge da campanha oficial de distanciamento social do governo, que começou na capital no dia 2 de março. Mas isso mudou nos dias mais recentes. Os locais mais populares da vida noturna de Seul têm novamente filas nas portas. 

Os trens estão cheios e as pessoas parecem ter relaxado no uso das máscaras. Provavelmente, a mudança é resultado das autoridades terem anunciado que, com base em uma queda acentuada no número de casos dos dias mais recentes, há a esperança de o país já ter passado pelo auge da epidemia.

Mas, no dia 11 de março, um novo foco de infecções foi descoberto em um call center de um prédio de escritórios em Seul situado perto de uma das estações de metrô mais movimentadas da cidade. O surto pode fazer com que as pessoas sejam mantidas em casa novamente. 

E o governo pode começar a ser mais rigoroso com as medidas caso a abordagem voluntária se mostre insuficiente. No dia 11 de março, o prefeito de Seul, Park Won-soon, disse que pode pensar em fechar todos os call centers se eles não seguirem a recomendação de manter seus funcionários afastados uns dos outros.

Conforme os países mobilizam respostas de diferentes intensidades no combate à epidemia de covid-19, deve ficar claro quais medidas funcionam melhor—e se a abordagem mais drástica é de fato a mais eficaz. O epidemiologista Gabriel Leung, da Universidade de Hong Kong, que é membro de uma equipe da Organização Mundial de Saúde que examinou os esforços da China para conter a epidemia, diz que ninguém sabe ainda qual a combinação de controles que funciona melhor contra o covid-19. “Será necessário fazer tudo que os chineses fizeram para controlar a situação?” diz ele. Talvez baste copiar apenas alguns elementos. “Essa é a grande questão”, diz Leung.

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