RICARDO LIMA/ESTADÃO
RICARDO LIMA/ESTADÃO

‘Ouvi de oito médicos que devia tirar'

Cantora e terapeuta sistêmica, Ana Ariel, de 35 anos, foi diagnosticada com doença durante a gestação que colocava sua vida e do bebê em risco

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2016 | 05h00

“Fui diagnosticada com uma doença que atinge 5% das mulheres chamada placenta prévia centro-total acreta e retida. O peso do bebê iria expulsar a placenta e ele ia morrer. Também há o risco de a mãe morrer. Ela sangra um dedal, um copo, um balde e morre.

A orientação é para fazer uma cesárea antecipada, mesmo que o bebê não sobreviva. Passei por oito especialistas que queriam tirar o bebê da minha barriga antes das 28 semanas. O nono topou que eu ficasse em repouso absoluto para esperar o meu filho.

Precisei alugar um flat na frente do hospital e fiquei 78 dias deitada. Fiz fisioterapia pulmonar. Meu pulmão começou a colar, tive problemas de circulação, porque eu não me mexia, quase tive trombose. Uma pessoa lavava o meu cabelo, porque eu não podia nem ir ao banheiro. Cada dia, era uma luta de sobrevivência para nós dois. Meu marido pediu uma licença de 90 dias para me acompanhar.

Qualquer juiz me daria o direito de abortar. Eu estava amparada juridicamente e pelos médicos. Amigos, parentes, todos diziam que eu tinha só 28 anos, que eu era jovem e podia ter outros filhos. A chance de eu ficar estéril era considerada altíssima, estava condenando meu útero a nunca mais gerar por causa daquela vida.

Engordei 28 quilos em dois meses, não podia pegar a minha filha de 1 ano nem acompanhar o meu filho mais velho, de 6 anos, que estava se alfabetizando. Tinha acabado de viajar pelos Estados Unidos, estava em um momento importante da minha carreira e fazia parte de um grupo de parto humanizado – minha vida era ativa. Foi muito difícil. Uma das coisas que mais me deu depressão é que não poderia ter parto domiciliar com parteira e doula, como foi o da minha filha, quando eu sabia o que era o empoderamento, gestar, parir. Soube que ia fazer uma cesárea e nunca tinha sido internada.

Mas não queria abortar. Nunca faria pelo sofrimento que é expelir um bebê. Eu tive um aborto espontâneo aos 20 anos e, quatro meses depois, adotei o filho de uma mulher que queria abortar, porque ela acreditou no projeto que foi criado pela minha mãe (a ONG Amigos da Criança). Era fértil e não precisava. Meu filho mais velho preencheu o vazio do aborto espontâneo. Todos eram a favor do aborto. Falavam que eu ia deixar meus filhos órfãos. Precisei tomar medicação para depressão, porque não tinha sono.

Quase morri na cesárea, fiz transfusão de plaquetas e três ginecologistas me acompanharam no centro cirúrgico, além da minha parteira. Todo mundo dizia que ele não sobreviveria e ele só precisou de fono. O João é um menino lindo. Está com 6 anos e já ganhou duas medalhas de ouro na natação. Quando ele estava com 1 ano e meio, meu útero já estava recuperado.

Durante cinco anos, a orientação é para que eu nem tente engravidar, mas eu quero ter outro filho. Não engravidei ainda porque o universo não quer. Desde os 12 anos que eu me desenho vestida de noiva e com cinco filhos. Vou adotar mais um e ter outro. Tenho mais cinco ou seis anos de vida fértil.

Sou a favor da vida não por questões religiosas. Vem de conhecer um bando de mulheres raçudas. Tem mulheres sem nada levando a gravidez adiante, defendendo a infância. De onde vem tanto amor? O sagrado feminino é mágico, é muito profundo. Sempre sonhei com família grande, nasci para ser mãe e sou"

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