Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Paciente de 83 anos é a última a receber alta no hospital de campanha do Anhembi

Guiomar Sargo de Lima passou 12 dias internada com diagnóstico de covid-19; unidade fechou as portas depois de quase cinco meses em funcionamento

Felipe Resk e Daniel Teixeira, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Após 12 dias internada e sem poder receber familiares, a aposentada Guiomar Sargo de Lima, de 83 anos, se tornou a última paciente de covid-19 a receber alta e deixar o hospital de campanha do Anhembi, na zona norte de São Paulo. Construída em caráter de urgência pela Prefeitura, a unidade fechou as portas na terça-feira, 8, após quase cinco meses em operação.

Desde o início da pandemia, a capital paulista chegou a receber quatro hospitais de campanha - mas agora só dois seguem funcionando, ambos do governo do Estado, e cuidam de menos de 150 pacientes no momento. Um deles, em Heliópolis, na zona sul, está até com os dias contados.

Mais de 11,8 mil pessoas chegaram a ficar internadas nos hospitais de campanha da cidade - 6,3 mil só no Anhembi. A queda na demanda, entretanto, é o argumento da Prefeitura e do Estado para encerrar as atividades nesses locais.

Filho de Guiomar, o contador Cláudio Roberto Sargo de Lima, de 59 anos, mora na zona leste e relata que o equipamento foi importante para que a mãe recebesse tratamento adequado. “Aqui na região, não ia ter outro lugar para internar”, diz. 

Segundo Lima, a idosa começou a sentir falta de ar em meados de agosto e confirmou a infecção por exame, após idas e vindas a hospitais do bairro. Com a taxa de saturação oscilando abaixo dos 90%, a idosa foi transferida para o Anhembi e precisou fazer uso de máscara de oxigênio na unidade, mas não chegou a ser intubada.

“Ela ficou mal nos primeiros dias, era nítido que estava com falta de ar e muita dor. Naquele momento, tive muito medo. Com o tempo, foi recuperando a firmeza na voz e conversava com mais ânimo, e aí foi dando um alívio”, conta.“É uma alegria incontida poder ter minha mãe de volta em casa.”

Vetada de receber visitas durante a internação, Guiomar continuou conversando com os parentes através de videochamadas, feitas em celulares emprestados por enfermeiras. “O pessoal é muito atencioso, realmente entendeu também o lado do parente: a gente fica angustiado sem poder ver”, diz o filho.

O hospital do Anhembi começou a acolher pacientes no dia 11 de abril. Entre os internados, 5,2 mil receberam alta, 1.024 foram transferidos e 32 morreram. No auge da doença, chegou a ter 1,5 mil funcionários e 871 leitos ativos. O fim do equipamento havia sido anunciado pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) ainda na semana passada.

A estrutura, no entanto, tem sido desmobilizada gradualmente. Uma das alas do Anhembi, por exemplo, já havia sido removida no dia 1º de agosto. No fim daquele mês, eram 310 leitos em funcionamento e 420 profissionais, menos da metade do período considerado de pico.

Primeiro hospital de campanha a ser construído, o do Pacaembu, na zona oeste, foi fechado pela Prefeitura ainda antes, no dia 29 de junho. Com 200 leitos e 588 profissionais de saúde, a unidade tinha 6,3 mil m² e realizou, ao todo, 1.515 internações e 43,9 mil exames laboratoriais, segundo dados da Prefeitura. 

Funcionários que saíram dos hospitais de campanha foram realocados em outras unidades municipais, de acordo com a gestão Covas. Os equipamentos dos leitos também teriam sido distribuídos pela rede.

A Organização Social de Saúde (OSS) Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein doou parte dos equipamentos utilizados no Hospital de Campanha do Pacaembu. “Esses equipamentos somam uma doação de R$ 7,1 milhões, investimentos revertidos em benefícios permanentes para os munícipes, que foram distribuídos entre três unidades: HM Tide Setúbal (São Miguel), HM Carmem Prudente (Cidade Tiradentes) e HM Professor Waldomiro de Paula (Itaquera)”, diz nota da Secretaria Municipal da Saúde.

Já os equipamentos da primeira ala desativada do Anhembi foram encaminhados para o Hospital Municipal da Brasilândia, de acordo com a pasta. Os equipamentos da ala desativada na terça-feira serão direcionados para as unidades de saúde do município.

Os dois hospitais construídos pela gestão João Doria (PSDB) na capital ainda estão aberto, mas o de Heliópolis não recebe novos pacientes desde o início do mês e deve fechar em breve. O anúncio do encerramento das atividades foi feito pelo governador durante coletiva de imprensa realizada na semana passada.

"Devido à redução da demanda de casos de covid-19 no Hospital de Campanha de Heliópolis, foi anunciada a ampliação das cirurgias eletivas no AME Barradas, onde está instalado", diz a Secretaria Estadual da Saúde. Segundo a pasta, ainda haveria 14 pacientes internados no local. "Desde 20 de maio, (o hospital) atendeu 994 pacientes, deu 866 altas e houve 114 óbitos", afirma o comunicado.

Na mesma coletiva, Doria afirmou que o hospital de campanha do Ibirapuera, também na zona sul, continuará funcionando normalmente pelo menos até o final deste mês. Hoje, há 133 pessoas internados lá, seis delas da região de Campinas. "No total, o serviço já atendeu 3.041 pacientes, deu 2.212 altas e houve 20 óbitos."   

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