Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Paciente supera medo do novo coronavírus para lutar contra o câncer

Educadora física mudou dinâmica para não abandonar tratamento; hospital faz força-tarefa para resgatar pacientes que desistiram de exames

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

15 de junho de 2020 | 12h00

   

SÃO PAULO - Isolamento social, uso de máscara e a sensação de não entender como uma doença grave se desenvolveu em seu corpo são elementos que entraram na vida da educadora física Paula Arcuri, de 56 anos, meses antes de o novo coronavírus mudar a rotina e causar impactos devastadores na vida das pessoas em diferentes partes do mundo. Diagnosticada com um câncer no reto em outubro do ano passado, ela começou a perceber que, por causa do vírus, colegas de luta contra o câncer estavam deixando de ir ao hospital para fazer o tratamento. Paula resolveu não se abalar com a ameaça da covid-19. Ela se protege de uma doença para tentar vencer outra e decidiu que vai até o fim no combate ao câncer.

O hospital onde faz tratamento, o A.C.Camargo Cancer Center, chegou a registrar uma queda de 60% nos exames para diagnóstico e para determinar a fase de desenvolvimento da doença no mês de abril em comparação com o mesmo período em 2019. Nas cirurgias, a redução foi de 50%.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), nos três primeiros meses da pandemia, estima-se que ao menos 70 mil pessoas deixaram de ser diagnosticadas com câncer. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) calcula que 70% das cirurgias no Sistema Único de Saúde (SUS) e na rede privada não foram realizadas no período.

Ainda segundo a SBP, houve um aumento entre 10% e 20% nas biópsias realizadas em maio, mas há serviços de referência que registram queda de 80% em relação ao mesmo período do ano passado.

Após o diagnóstico, Paula viveu momentos de medo e tristeza, mas logo se empenhou para ser uma paciente disciplinada. "Já comecei o tratamento pensando positivamente. Sou muito agitada e não quis desanimar. Nunca falto, nunca falho. Nunca tive medo por causa da pandemia, porque sei que, se tomarmos as precauções, é possível fazer o tratamento. Se a pessoa deixar de fazer, vai morrer pela doença (câncer)."

Quando o vírus ainda não causava adoecimento e mortes, a educadora física fazia o trajeto de casa, no Alto da Lapa, na zona oeste, até o hospital, localizado na Liberdade, na região central, de táxi e de metrô. Para se proteger, mudou a dinâmica.

"Eu já estava no finalzinho da radioterapia, que eu ia todos os dias, e não precisaria mais ir diariamente. Quando começou a ter casos, o hospital entrou em contato para acertar como seriam as consultas e fui muito bem orientada. Consultas que não eram necessárias foram jogadas para frente. Minha filha começou a fazer home office e me leva de carro no horário do almoço. Ela termina às 17 horas e vai me buscar. Quando ela tem reunião, pego um táxi na porta do hospital mesmo. Todos eles estão organizados, limpam o carro."

Isolada por causa da pandemia, Paula sente falta de viajar para ver o mar, de nadar, de ver os amigos e dos alunos. Para alguns, manda treinos e vídeos engraçados que faz com a filha. Ela está afastada da escola, onde tinha alunos de 1 ano e meio aos 18 anos.

Como personal trainer, dava aula para 13 pessoas e manteve o acompanhamento online para três. Assim, conseguiu reduzir a jornada frenética que tinha, que começava às 5 horas e só terminava às 22 horas.

Paula malhava todos os dias. Por causa da doença, perdeu 15 quilos. Agora, pratica yoga e, na semana passada, começou aulas online de pilates para recuperar massa magra.

O contato com a rua é no trajeto para fazer o tratamento. "Meu passeio é de casa para o hospital. Passo pela Avenida Paulista, que eu acho o máximo, mas ela anda lotada. Desço o vidro e fico gritando: 'coloca a máscara'. Eu falo mesmo."

Até o próximo mês, ela terá sessões quinzenais e se agarra na fé e no aprendizado que ganhou nos últimos meses para enfrentar os momentos mais difíceis.

"O câncer vem para te acordar e a pandemia veio complementar tudo isso. Minha família ficou enclausurada, mas a gente parou mais para conversar. Tem coisa que soube da minha mãe que ela nunca tinha me contado antes. Acho que a pandemia veio pra acordar o mundo. Do jeito que vinha, não ia acabar bem. É como se fosse uma terceira guerra mundial para as pessoas começarem a se cuidar e a pensar no próximo."

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E pensar na morte é algo que não a assusta. "Tem muita gente que eu via sempre no hospital e não vejo mais. Tem menos movimentação de pacientes, mas não me deixo abater. A minha hora está marcada. A gente carrega no pescoço o nosso destino, tem hora e dia marcados. Creio que, se tiver de pegar o corona ou se o câncer vingar, era para ser. Mas não vai ser nenhum desses dois que vai me levar. Eu não tenho medo da morte. Tenho medo de não poder deixar uma história para a minha filha."

Pacientes não devem interromper tratamento

Diretor médico e superintendente de operações do A.C.Camargo Cancer Center, Victor Piana diz que a pandemia não impactou nos procedimentos realizados pelo hospital, tendo em vista que os vírus, de um modo geral, são uma ameaça para pacientes oncológicos. Mesmo assim, a adesão dos pacientes caiu.

"A gente sabe do risco e tem infraestrutura preparada. O primeiro tratamento tem de começar 30 dias depois do diagnóstico e dos sintomas. Quando um paciente posterga  a cirurgia por medo, não sabe o prejuízo que vai sofrer. Pode significar não ser mais candidato à cirurgia."

Piana diz que houve uma queda acentuada da realização de exames e cirurgias no mês de abril, quadro que precisou ser revertido não só com o uso de tecnologia - por meio de triagem virtual e telemedicina -, mas de uma força-tarefa para resgatar esses pacientes.

 "Muitos pacientes com exames marcados não vieram. Pegamos essa lista, fizemos ligações para os pacientes e a imensa maioria voltou. O número vem aumentando semana a semana. Em imagem, temos 50% dos pacientes aceitando o retorno ao cuidado. Em cirurgia, isso não aconteceu. O imaginário da cirurgia coloca ele em um conflito, mas o paciente não corre risco adicional dentro do hospital."

Desde o início da pandemia, o hospital atendeu 209 pacientes infectados, dos quais 23 morreram e 95 se recuperaram da infecção. O  A.C.Camargo Cancer Center atende 130 mil pacientes por ano.

"Tratar o câncer é um serviço essencial. Se a pessoa tem um câncer, é para cuidar e ficar em casa para todo o resto."

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