Pacientes buscam no exterior falsa cura com células-tronco

A medicina desconhece a salvação. A aposentada I., de 61 anos, nunca vai se curar de um raro mal degenerativo. Mas o marido, D., de 65, não se conforma. Ele já buscou saídas em medicinas alternativas e religiões. Achou ter encontrado na internet. Uma clínica na Ucrânia prometia, se não curar, pelo menos frear a doença. Não hesitou. Levou a mulher quatro vezes para o país da ex-república soviética. Gastou R$ 250 mil (o equivalente a 12 carros populares). Contrariando as promessas, a doença só piorou. Hoje paralisada, I. espera a morte numa cama. Clínicas semelhantes prosperam em outros países pouco cotados cientificamente, como Barbados e República Dominicana, além de México e China. Elas aproveitam-se do desespero alheio e dos ainda tímidos - mas fartamente propagandeados - esforços da ciência para transformar as recém-famosas células-tronco embrionárias em terapia multiuso. Vendem - caro - o falso milagre da cura: cada aplicação de células-tronco custa, em média, US$ 25 mil (perto de R$ 53 mil). Médicos dizem que é cada vez maior o número de brasileiros que se deixam levar pela ilusão. O caso mais freqüente é o de pacientes com esclerose lateral amiotrófica. A doença, conhecida pela sigla ELA, é caracterizada pelo dano ou destruição dos neurônios que controlam os movimentos, o que leva à atrofia muscular. O paciente mantém a mente clara enquanto o corpo definha. Poucos vivem mais de três anos após o diagnóstico. O doente mais célebre é o físico inglês Stephen Hawking. Acredita-se que no futuro males hoje fatais possam ser curados com a aplicação de células-tronco embrionárias. Encontradas nos embriões humanos, elas são capazes de se transformar em qualquer tecido do corpo. No caso da ELA, as células-tronco injetadas no sangue se transformariam em novos neurônios, que tomariam o lugar dos danificados. Embora a ciência esteja avançando, isso ainda está longe de ser realidade. Para médicos e cientistas, quem paga por esses tratamentos está sendo ou vítima de charlatães ou usado como rato de laboratório (leia texto ao lado). "Nada a Perder" - Antes de fazer a primeira viagem a Kiev, em 2002, D. foi alertado pelo neurologista de sua mulher. Preferiu crer no otimismo da clínica ucraniana. "Tomar a decisão não foi difícil. Não tínhamos mais nada a perder", diz ele, que mora em São Paulo. "Para quem está doente, qualquer esperança vale." Para bancar parte do custo das quatro viagens, D. precisou entrar na Justiça para que a Caixa Econômica liberasse o dinheiro do seu Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Em cada viagem, o tratamento era dividido em três dias. No primeiro e no segundo, I. recebia na veia do braço as células-tronco diluídas em soro. No terceiro dia, a solução era injetada na região da barriga. A cada seis meses, era preciso voltar para reforçar a dose. Na quarta e última avaliação médica, no fim de 2004, a clínica ucraniana disse estar "satisfeita com os resultados": "a progressão da doença é mínima" e "a paciente está ativa e usa suas extremidades". Hoje, porém, a realidade está longe daquele diagnóstico. Na cama, I. se alimenta por sonda e respira com a ajuda de aparelhos. O aposentando R., também doente de ELA, submeteu-se a um tratamento semelhante. Em seu caso, porém, a doença se encontrava num estado muito avançado quando a família optou pelas células-tronco. Paralisado, ele não tinha condições de viajar para o exterior. Foi o médico - um alemão, diretor de uma clínica em seu país - que veio ao Brasil aplicar a solução milagrosa. Cobrou US$ 25 mil. Aproveitou a viagem para tratar de mais três pacientes. A família toda acreditou nas promessas do médico alemão, menos uma das filhas de R. "Eu sabia que seria dinheiro jogado no lixo, mas não podia tirar a esperança dele e da minha família", conta M., que é médica e, a contragosto, cedeu o próprio consultório, em São Paulo, para as aplicações. Seu pai morreu em setembro do ano passado, aos 77 anos, dois anos depois de descobrir a doença e sem nenhum sinal de melhora. "Hoje me arrependo de ter permitido que ele se aproveitasse da dor e fragilidade da minha família. É um verdadeiro charlatão." Não é a visão de D. Mesmo depois de quatro viagens inúteis à Ucrânia, ele diz que, se pudesse, continuaria tentando salvar a mulher. "As limitações físicas dela agora me impedem de tentar qualquer alternativa mais ousada."

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